domingo, 20 de março de 2016

A Bíblia, as Escrituras e a Palavra

Quando a Bíblia não é sagrada, os olhos passam a ler a Palavra no universo. Pois, há muito, ela afirma que os próprios céus tornam a glória de Deus manifesta.

Tudo passa a ser texto, sem voz nem palavras, mas que pode ser ouvido como sabedoria da vida, ciência de entendimento e lei de conduta. Pois tudo n'Ele foi criado, tudo n'Ele subsiste, e mesmo na face deformada que sustenta, a criação caída ainda se faz ouvir, clamando nos estertores de seu gemido.

Tempo e espaço viram sopros de vida na consciência. Cada passo é palmilhado como revelação de Deus ao coração humano, que O percebe, mesmo na experiência mais absurda, em que Ele lhe pareça totalmente inacessível.

Então se descobre que a letra, como dito, mata, posto que só no espírito é que existe vida. É na carne que se encarna a revelação. Revela porque se lugariza, salta dos conceitos para os dizeres inexprimíveis. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Visita recônditos desconhecidos da alma. Transcende, produz discernimentos, dá sentido na percepção do significado de cada momento, e se imanentiza. Pacifica sem, muitas vezes, permitir explicações.

Revelação é Deus em nós, como o é o Filho do Homem.

Sem sagrado, a Bíblia passa a ser o que é: escoadouro e não cisterna, parte e não todo, meio e não fonte do Verbo. 

Antes disso, o que se tem é o progressivo endurecimento da mente, que se aprisiona entre as estruturas erguidas por séculos de discussões, elucubrações e máximas elevadas à categoria de regras de fé, verdadeiras pedras de ornamento nas catedrais teológicas que se impõem como “ponte-óculos” ao leitor das Escrituras.

Leitor que hoje dispõe de formatos os mais variados, indo da textura da capa ao tipo de estudo nela vendido, parte da estratégia de mercado do misericordioso comércio da palavra de Deus das Sociedades Bíblicas.

O que disso se produz é o sagrado, o culto aos símbolos sacros. O sagrado mantém a diferença entre o objeto e o indivíduo, exige os ritos e preparações, elege estamentos e gradações de saber, e por fim, determina as doutrinas e os doutos. O sagrado nada mais é que sacrifício de touros e bodes, que separa os sacerdotes do povo, e mantém Deus distante.

Nisto se manifestou o Filho, a expressão da glória do Pai. Deus não somente para a carne, mas na própria carne, para que também seja encarnado em qualquer um. Deus, não de estruturas de religiosidade, seja lá sob que manto de piedade se apresentem na história. Não sagrado, mas sacrificado para ser revelado em nós, que é O Cristo. O que derruba a separação, desfaz a distância, tabernacula-nos e, vivendo em nós, é para nós a esperança da glória que Ele mesmo nos revela. 

Quando a Bíblia não é sagrada, salta da estante. Sopra sobre ela a Palavra. Vira espada levada na boca ao deserto, para enfrentar a morte, sem precisar ser folheada. Se inscreve no coração, pra ser lida pelos homens em nossos atos de amor, os verdadeiros capítulos e versículos de vida. É o Espírito do evangelho que a traduz, posto que o evangelho é Jesus, interpretando suas próprias palavras com sua própria vida.

A Bíblia é o livro, as Escrituras são os textos, mas Jesus é a Palavra.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Doa a quem doer


Dói porque estou vivo. E o corpo vivo reclama do esforço diário, pois o nervo em si não compreende o fruto que virá depois de tal trabalho dispensado.

Dói porque o coração sente coisas que não consegue exprimir. Ele mesmo fica espremido diante da complexidade da vida, da frustração, do absurdo. Diante da total impossibilidade de expor plenamente o que nele se processa.

Dói porque a mente é incapaz de sempre satisfazer situações. Está fadada à exaurir-se sempre, para que, na doída experiência da imperfeição, vá se aperfeiçoando. Sobretudo quando compreende que a maior dor é não aceitar seus limites.

Dói porque o trato cirúrgico do Espírito não pretende anestesiar, antes, aprofundar a sensibilidade da alma. A expansão da consciência é um parto contínuo, feito das rupturas de estruturas, que então sólidas até o momento, se desconstroem para o nascimento de outro eu. O eu-doído é o eu que se aproxima de ser doido, para então ser somente eu de verdade.

Dói porque nenhuma vivência, experiência, entendimento e pacificação se furta ao enfrentamento. Tudo colide, tudo se abala, tudo cai. E só então, tudo se ergue e se faz novo mais uma vez.

Doa a quem doer. 

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