terça-feira, 7 de julho de 2015

O dia de Maria

"Maria, porém, guardava todas essas coisas ... em seu coração" - Lc 2.19.

Aquele poderia ter sido o dia mais difícil da minha vida. Poderia, mas certamente não foi.

Tudo isso por causa da dor inexplicável de ver a pessoinha mais linda que já conheci agora envolta em flores e deitada em sua urna.

O dia de Maria tinha chegado.

Com a suavidade com a qual costumava soltar suas risadas gostosas, ela morreu naquela manhã de quarta. Inesperável. Não só porque a gente sempre imagina que a morte demore alguns anos ainda, mas também porque veio de súbito, sem permitir explicações.

Foi assim com a minha voinha.

Quase semana inteira no hospital. Havia caído, machucado a cabeça, fraturado a bacia.

Enfrentou dias de desconforto brincando com todos. Submeteu-se à uma cirurgia para a colocação de platina e conquistou a equipe médica com sua simpatia. E os dias que se seguiram à operação, ela traduziu em gestos de carinho, já que começava a ter dificuldade de falar.

Contudo, permaneceu sóbria, lúcida. Sempre amorosamente viva.

Acompanhei-a naquela última longa noite, sem saber que de fato era última. Ninguém pode sentir as náuseas, constipações e dores que ela sentiu sem agonias, mas ela surpreendeu. Pelos 90 anos que tinha, pelo corpo fragilizado que possuía. Principalmente, porque me ensinou, sem se dar conta, a enfrentar o momento mais terrível de dor e dúvida com alegria e esperança.

Ensinou-me a vida inteira. A mim e a todos que estiveram com ela.

Ao início da manhã, quando já havia comido e esperava o médico para receber alta e ir pra casa, ela tomou outro caminho. Eu havia lhe perguntado se queria que ligasse a tv e ela, pela primeira vez em toda aquela internação, acenou com a cabeça que sim. Liguei e me animei, sentando ao lado dela. Ela apenas fixou o olhar. Não falou, não piscou. Foi-se devagarinho, aos pouquinhos, tranquila. A morte que sempre quis.

Fui eu quem fechou aqueles lindos olhinhos meio caramelados.

Pra surpresa de todos, ela havia caído mesmo. Caiu pra cima, recebeu alta pro alto. Foi finalmente pra casa, pra sempre.

O dia de Maria tinha chegado pra ela, e pra nós também.

Seguiram-se as horas mais doídas que já vivi. Sensações se misturavam, lembranças das mais gostosas vinham, saudades se me agarravam e apertavam. Minha cabeça lancinava de dor por conta do choro incontível.

Mas, inexplicavelmente, o contato com a morte me devolvia vida, me ressensibilizava. No ímpeto do inesperado, parecia que eu começava a enxergar mais forte as verdadeiras importâncias, o que eu possuía de mais valioso. Estava tudo ali comigo, e a dor nos unia pelo amor mais inexplicavelmente intenso.

Era Maria, a minha Maria José, que até na morte me ensinava a vida.

Minha alma ia se enchendo de paz, de gratidão, parecia uma fortaleza. Assim, eu sentia dores intensas, mas como a minha voinha, em meio a tudo aquilo me levantava pra consolar e transmitir segurança a outros. Temia pelo estado dos meus familiares, consoláva-os com carinho. Zelava pelo coraçãozinho das pessoas, das senhorinhas que vinham visitar o caixão, e as acompanhava, falando de como tudo tinha acontecido da maneira mais graciosa.

O dia de Maria tinha chegado pra mim também.

Mas não havia dúvidas, era mesmo um coração de Maria que tinha batido ali. Coração que dividia o que tinha com todos, que não sabia não se doar. Uma mulher amorosamente simples, uma doçura de carinhos, completamente desprendida de si. Sempre preocupada com tudo a respeito dos "seus amores", incansável no cuidado e no amor. Amiga de todos, de qualquer um.

Foi Maria de muitas Marias e José de muitos Josés. Maria José porque seu coração, simples como seu nome, não precisava de motivos. Não sabia não amar.

E se você não pôde conhecer a minha voinha Maria José, não há problema. Depois daquela cirurgia na perna, ela ainda anda comigo. Repete o seus gestos em meu corpo, ama em meu coração.

Apenas olhe pra mim.

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Texto dedicado a Maria José Barros Barbosa, minha eterna voinha, mainha e exemplo de amor.
☼ 07 de setembro de 1924
† 17 de junho de 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Simples convicções

Nunca é fácil falar de uma maneira de ver o mundo, muito menos quando essa maneira é a sua.

Mas falar não é a própria maneira que temos de nos conectar ao mundo? Não sou diferente.

Se bem que acredito na diferença essencial das pessoas. Não da substância de que são feitas, nem da condição humana de existência. A diferença é que cada um "cria" – cria mesmo – a sua própria vida no momento e na maneira de olhar.

Produzimos as estruturas que nos sustentam dia a dia. Damos significados. Cimentamos ou derrubamos conforme tomamos decisões. E agimos, claro. Seguimos nos definindo, pra bem e pra mal. Mas tudo isso acontece dentro de nós.

E se decisões nos constroem, somos feitos de algo além da matéria.

Acredito na ação vital do pensamento. Mas não é do esoterismo que falo. Falo de que nossa produção mental reverte saúde e doença ao nosso corpo realmente. Pensamento é energia. É concentração de força pra vida ou pra morte.

Cada uma dessas ligações sutis são caminhos. E apesar do contato com o mundo externo, cada caminho trafega por diferentes dimensões, invisíveis. Vivemos ao lado e em paralelo dos outros. 

O que acredito é que a mente é a "parte" mais "fluida" do ser humano. É capaz de se ligar ao cérebro, mas tornar-se independente dele. Capaz de operar entre este universo visível e o invisível.

Porém, se há ligações reais entre mente e corpo, porque o meu "eu" ficaria preso "dentro de mim"?

Acredito que as pessoas "fluem". E se conectam a outras por "outras vias". Que há no "eu" uma rede de conexões com tudo à volta, operando na qualidade e na intensidade daquilo à que se liga.

Diferentes conexões ocorrem em diferentes dimensões.

Existem inúmeras formas de ligação.

Acredito que chamamos a mais forte delas de amor. Mas falar de amor exigiria mais que texto.

Por isso, acredito que tudo o que se precise saber sobre o amor é que não se pode saber o que ele é sem praticá-lo. O amor não consegue não amar. Não sabe não ser amor.

Nas conexões do amor é possível ultrapassar as sensações corporais, transcender o espaço-tempo. Acredito que é possível compartilhar existências, transmitir disposições internas, perceber estados de alma.

É possível "se plantar" no outro e coexistir com ele no mais alto grau de ligação imaginável – até mesmo em meio à morte.

E o que é a morte?

Se o que nos move é uma "mente" que transita entre o visível e o invisível, de forma igualmente real, acredito que a morte não é morte. Se nos movemos em dimensões paralelas, sutilmente separadas, a morte é uma mudança de estado do ser.

Não há morte de fato. A existência continua em outras dimensões.

Acredito que chamamos a dimensão mais fascinante que existe de céu.

E este céu, acredito, nada tem do céu do planeta Terra. Um céu dimensional não precisa nem estar em cima ou em baixo. Se é céu, precisa ser acessível pela mais incrível conexão – o amor. Assim, não pode estar distante. Circunstancialmente limitado pelo nosso corpo. Intensamente vivenciável pelo amor.

E como dimensão paralela, o céu não está lá. Está aqui, bem ao lado.

Não há nada que aconteça no universo que não aconteça com a gente.

Não somos suficientes para nos explicar, acredito. Nossa mente trabalha com diversas categorias – como razão e fé – mas a própria mente é o nosso limite. E se não entendo, se não sei de mim mesmo, como compreender o universo que me transcende?

Acredito que dentre todas as escolhas possíveis, a fé é mais que necessária. Fé é energia – nos impulsiona em direção ao que acreditamos ser possível, mas ainda não está disponível. Fé é ligação – nos conecta a realidades não-verificáveis. Fé é discernimento – nos invade de convicções, à medida em que o resultado da experiência com ela estabelece-a por si mesma.

Portanto, a escolha elimina o acaso. E a fé transcende o fatalismo.

Acredito na existência de seres impensáveis nestas dimensões paralelas. Que o universo – ou multiversos – está repleto de inteligências e versatilidades. Que até mesmo os seres mais simples possuem algum grau de consciência. E por tratar-se de dimensão, estes entes estão paralelamente existindo entre nós.

Há níveis de conexão entre os seres dependendo dos seus graus de constituição.

Acredito que chamamos o ser mais indiscernível de Deus.

Deus? Acredito que esse Deus vai além de ser o conceito filosófico mais desafiador da história da filosofia ocidental. Não se extrai de livros-código de línguas antigas, não se sistematiza em doutrinas teológicas e credos religiosos, não se disseca em acelerador de partículas.

É Deus porque é. E se é, não pode ser força, não se dissolve no todo, não se contém entre linhas. É em sentido inclusivo, de que contingencia a existência de tudo, em todas as qualidades de tempos e dimensões. Não há nada no universo que aconteça "fora" Dele.

Acredito que a melhor definição que temos de Deus é Jesus.

Jesus, um ser de convergências. Ser cuja humanidade revela a face mais divina do humano. Cuja divindade é a concreção mais humana de Deus. Um que, sendo supra-histórico, historicizou-se como homem aqui na Terra. Sendo supra-humano, humanizou o amor em graça e leveza. E amando, acredito, fez do sacrifício de Si mesmo ligação transtemporal e transdimensional do universo com Deus.

Acredito que o que procuramos por sentido da existência é a experiência do amor.

Este amor é motivo, não consequência de tudo –  é um "antes de haver eu", não depois. Amor que conecta todos em Um – que é "Um em amor único" –  e Um em todas as categorias de todos. Que lugariza o céu em todo e qualquer ser, até perenizar-se. Que se dá sem nem mesmo que se saiba Dele. Por isso, tudo Nele se resume.

Acredito que falo das mais simples convicções. E convicções são consolidações do que somos.

Então, que assim seja.

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