segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Carência como definição humana

O que é carência?

Sendo bem reducionista, todas as nossas relações partem da nossa insuficiência.

Precisamos de outros.

Daí que, se gostar é manifestar necessidade, a violência é a forma negativa deste precisar.

É carência, só que frustrada. Uma carência exclusivista.

E tantas outras possibilidades.

Por isso me parece que a carência define muita coisa do que nós somos.

Mas isso não é tudo.

Geralmente se pensa em homens e mulheres sob aspectos biológicos.

Mas eles são de uma constituição tão difusa, que seria bobagem reduzir tudo à sexualidade.

Então, carências são posturas diferentes de homens e mulheres.

E ainda há mais.

Se afeto e violência, amor e ódio, são a ponta externa das carências, o que é a ponta interna?

O indivíduo. O começo, o gerador das carências.

Carências que se definem nele, partem dele e dele fazem parte.

Já que quanto mais carências, mais insuficiências.

Carência que carece de segurança no indivíduo, virando dependência.

Então, carecemos, mas em níveis diferentes.

E há quem careça tanto de outros pra apenas fugir de si mesmo, de encarar a própria insuficiência.

Por outro lado, há quem tenha tanto medo de carecer, que vira o próprio cárcere narcisista.

Portanto, carência é desejo, é encontro.

Mas carecer da carência é doença, é fuga.

É não querer se enxergar.

É autoviolência.

É carecer do bom senso.

É parasitar.

É morrer.

Carência carece mesmo de quem a assuma, de quem na segurança de si a si mesmo se doa, sem se doer.

Carências provam o caráter.

E nos dizem, no fim das contas, o que há por trás do que tanto desejamos ter.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Idas e vindas no evangelho

O significado último da vida de Jesus tem sido materializado através de uma palavra que nem aparece em seus lábios: "missão" – ou "missões".

"Missões" carrega em si uma série de procedimentos, logística e treinamento que, no fim último, parecem tornar o evangelho uma prática profissional.

Mas, quando falamos de Jesus, falamos de um Homem que não tinha onde reclinar a cabeça, servido pela espontaneidade de recursos, cercado de gente simples, movido por compaixão e graça.

Nosso problema – numa comparação óbvia – está em ainda entender o evangelho com as categorias fixas da religião – contra as quais o mesmo Jesus lutou.

Paulo e a igreja primitiva tinham circunstâncias diferentes das nossas, claro. Um mundo instável, fortemente supersticioso e seres humanos extremamente afeitos a religiosidade.

Mas se engana quem pensa que o mundo foi evangelizado somente por Paulo.

Temos um ambiente cultural diferente. Vivemos num mundo judaico-cristão.

Que, por ser cristão, deveria bastar-se.

Mas, pra além do judaico, o que há são as estruturas do cristianismo.

E estas, ironicamente, é que justificam hoje a necessidade do evangelho.

Posto que as palavras de Jesus não são estruturas, mas Espírito e vida. E a vida é movimento pulsante. O Espírito não possui itinerário.

Assim, a Igreja envia porque é de sua natureza – como o é na de Seu Mestre – seguir em movimento. Igreja não é um lugar pra ir – é encontro. Todo encontro-igreja se dá na vida, no dia a dia, no caminho.

Toda relação de um cristão é um culto, e todas as suas palavras e atos são "evangelizações" do Espírito.

Assim, mesmo que se some esforços em logística, missão não é nada mais do que um meio. Um instrumento, entre tantos outros.

Neste seguir ninguém é excluído, porque a mensagem do evangelho é a própria necessidade de ir a Jesus em todo tempo. É receber Jesus e voltar para compartilhá-lo com outros.

Idas e vindas no evangelho, sempre.

Portanto, o chamado é contínuo, individual e intransferível. Não se delega uma relação pessoal a outro.

Quem de Jesus é, por Jesus vive.

O carrega consigo enquanto é carregado nessa vida por Ele.

E isso é mais que "missão", é encarnação de Cristo em nós.

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