quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O ópio de Karl Marx

Karl Marx foi um dos teóricos modernos que mais influenciou o pensamento ocidental. Suas contribuições se desdobram em várias áreas e alguns de seus termos ainda são fundamentais na compreensão das sociedades. Controverso, permanece atraindo diversas interpretações, sobretudo no forte teor de suas proposições.

Uma delas é a que segue. Para entendermos o que Marx quis dizer com "a religião é o ópio do povo", precisamos lembrar de sua história.

Marx era judeu, filho de uma família judia que foi obrigada a converter-se ao luteranismo por causa da perseguição étnica. Por isso mesmo, ele vê na história da humanidade o que viu a religião fazer na história de sua própria família.

Se pudéssemos resumir o que a expressão quer dizer seria que Marx está falando da religião como instrumento histórico de dominação social.

Pois nada é tão instintivo no ser humano quanto o desejo de extrapolar seus limites.

Em todos os tempos, essa instintiva religiosidade humana foi convergida para um sistema de religião específico, em cada circunstância histórica específica, pelos grupos que dominam as variadas sociedades.

Sistema de religião porque a religião petrifica a religiosidade, uma vez que se torna o fim – o reservatório – de uma pulsão que se necessita em fluxo. Em outras palavras: a religião assenta, a religiosidade salta.

Esse processo ocorre sempre sob a pretensão de dominar e não de levar à consciência, e sob o pretexto da ajuda, nunca para a emancipação. É interessante notar que o próprio Marx – a despeito da análise da relação histórica entre religião e poder – não conseguiu fugir da relação religião/religiosidade.

Ele, como qualquer homem, se viu mergulhado em seu próprio processo histórico, entre acertos e contradições.

Marx enuncia a dominação por estruturas religiosas, mas ele mesmo não se desvincula totalmente delas. Seu modelo de interpretação histórica trabalha com categorias como escatologia (chegada do tempo revolucionário), predeterminação (a classe eleita), e por fim, propõe a diluição total do indivíduo no coletivo, num sacrifício pessoal (em prol da revolução).

E o fim de sua vida é curiosamente marcado por sombras. Sua antiga criada conta que, já em sua velhice, Marx costumava fazer rituais estranhos com velas a meia luz¹.

Fato que demonstra como não se pode combater um extremo pulando para o outro. Querer extirpar religião junto com religiosidade é absurdo, é propor lobotomia para a humanidade.

A dominação pela religião não suprime a religiosidade, apenas a condiciona. Do mesmo modo, a destruição da religião não extingue a religiosidade, apenas a escamoteia.

O que talvez não se perceba é que não pode haver revolução sem que haja a emancipação da religiosidade, através da consciência – autonomia da própria espiritualidade. Tratar do ópio atirando-o aos pés resulta apenas em ficar dopado ao avesso.

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¹In: Riis, Sergius Martin. Karl Marx: Master of Fraud. Jon P. Speller (editor): New York, 1962.

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