domingo, 5 de outubro de 2014

Fim de eleição

Fim de apuração. O sentimento é de inquietude, de incompreensão.

De repente, toda sede de mudança, todo o bom senso, toda necessidade de alternância se diluiu.

E não se encontra ligação com os protestos de julho do ano passado, aliás em passado algum.

A democracia brasileira foi à mídia, fez dela seu palco.

Estarreceu-se diante da morte prematura de um prensidenciável, diante da comoção de uma nação.

Criou expectativas, promoveu debates, vaticinou resultados com os oráculos viciados de suas pesquisas de opinião.

E manipulou. Na simples observância da profissão de reportar fatos, na seleção das condições úteis da informação.

Do espaço no horário político às mentiras permitidas, desde que marqueteiros e publicitários as reinventassem com efeitos especiais de televisão.

Afinal, tempo e dinheiro fazem tudo, dão até nova impressão.

E dessa forma, nos deformam.

Democracia que mostra a sua face mais oculta, onde o poder da “cracia” ainda é oligárquico, e só se liga ao povo do “demo” porque continua a demo-dominá-lo.

E não nos permite nem ao menos a opção.

Resta sempre a não aceitação, o não conformismo.

Resta o lúcido espírito da subversão.

Que venha a mudança, completa e profunda. Mas que ela venha, mais do que nunca, do fundo da alma de cada brasileiro da nossa nação.

sábado, 4 de outubro de 2014

Fora e dentro da urna

O grito da vez, nas eleições, se tornou paradoxalmente político. Fora com a oposição, nada de propostas, sem conversas, nenhum diálogo.

Infelizmente, fora é o lugar onde se lança o divergente – e imprestável.

Fora é a cerca em volta do incômodo, é o muro de Berlim da consciência, o campo de concentração do diferente.

Fora é o lugar de onde, com muitos esforços, tentamos resfolegar ações pra entender porque um país como o Brasil tem que andar – depois de anos de redemocratização – às custas de pão e circo.

Fora é onde a gente se sente, e se vê obrigado a sentar a ver bate-bocas sem sentido apelidados de debate.

Outro deboche eleitoreiro, que estuda a tática da hora pra subir nas pesquisas.

Enfim, fora da urna parece que tudo é permitido, tudo é desmentido.

Mas é dentro, e sempre de dentro, que tudo muda.

Desculpem-me a franqueza, mas chega de fora.

Quem quiser mudança, que faça de seu voto sua consciência entregue ao Brasil.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O ópio de Karl Marx

Karl Marx foi um dos teóricos modernos que mais influenciou o pensamento ocidental. Suas contribuições se desdobram em várias áreas e alguns de seus termos ainda são fundamentais na compreensão das sociedades. Controverso, permanece atraindo diversas interpretações, sobretudo no forte teor de suas proposições.

Uma delas é a que segue. Para entendermos o que Marx quis dizer com "a religião é o ópio do povo", precisamos lembrar de sua história.

Marx era judeu, filho de uma família judia que foi obrigada a converter-se ao luteranismo por causa da perseguição étnica. Por isso mesmo, ele vê na história da humanidade o que viu a religião fazer na história de sua própria família.

Se pudéssemos resumir o que a expressão quer dizer seria que Marx está falando da religião como instrumento histórico de dominação social.

Pois nada é tão instintivo no ser humano quanto o desejo de extrapolar seus limites.

Em todos os tempos, essa instintiva religiosidade humana foi convergida para um sistema de religião específico, em cada circunstância histórica específica, pelos grupos que dominam as variadas sociedades.

Sistema de religião porque a religião petrifica a religiosidade, uma vez que se torna o fim – o reservatório – de uma pulsão que se necessita em fluxo. Em outras palavras: a religião assenta, a religiosidade salta.

Esse processo ocorre sempre sob a pretensão de dominar e não de levar à consciência, e sob o pretexto da ajuda, nunca para a emancipação. É interessante notar que o próprio Marx – a despeito da análise da relação histórica entre religião e poder – não conseguiu fugir da relação religião/religiosidade.

Ele, como qualquer homem, se viu mergulhado em seu próprio processo histórico, entre acertos e contradições.

Marx enuncia a dominação por estruturas religiosas, mas ele mesmo não se desvincula totalmente delas. Seu modelo de interpretação histórica trabalha com categorias como escatologia (chegada do tempo revolucionário), predeterminação (a classe eleita), e por fim, propõe a diluição total do indivíduo no coletivo, num sacrifício pessoal (em prol da revolução).

E o fim de sua vida é curiosamente marcado por sombras. Sua antiga criada conta que, já em sua velhice, Marx costumava fazer rituais estranhos com velas a meia luz¹.

Fato que demonstra como não se pode combater um extremo pulando para o outro. Querer extirpar religião junto com religiosidade é absurdo, é propor lobotomia para a humanidade.

A dominação pela religião não suprime a religiosidade, apenas a condiciona. Do mesmo modo, a destruição da religião não extingue a religiosidade, apenas a escamoteia.

O que talvez não se perceba é que não pode haver revolução sem que haja a emancipação da religiosidade, através da consciência – autonomia da própria espiritualidade. Tratar do ópio atirando-o aos pés resulta apenas em ficar dopado ao avesso.

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¹In: Riis, Sergius Martin. Karl Marx: Master of Fraud. Jon P. Speller (editor): New York, 1962.

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