quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Deus não está morto

Com a recente onda de temas religiosos rondando Hollywood - como o filme Noé - fui estimulado a assistir o filme "Deus não está morto". O filme não me impressionou, nada novo. Seguem abaixo algumas impressões que tive:

• Filme com drama tipicamente americano (o mesmo roteiro de dilema e superação com final feliz);

• Ateísmo - o filme expressa a concepção particular de um professor (nos meios acadêmicos não existe mais essa "fé na ciência" - desde 1950 já há uma forte crítica ao método científico como critério de conhecimento válido). Contesto. A teoria quântica é o paradigma que mais aproxima a comunidade científica da concepção de existência de um Absoluto que liga todas as coisas - inúmeros cientistas já a consideram evidência, ainda que não personifiquem esse Absoluto como um Ser eterno;

• Não existe incompatibilidade entre fé e ciência. O que de fato existe é, de um lado, um reducionismo de Deus ao livro Bíblia, e de outro, uma crença fanática na produção científica;

• Compensação da "fragilidade" da fé cristã com uma sutil comparação ao rigor do islamismo e ao estilo business de vida - como se a incoerência de um justificasse o outro, um nivelamento por baixo.

Teria mais a dizer, mas isso é suficiente. O jogo expresso no filme, em si, já é o atraso. Um deus que precise de mim pra advogá-lo é, no mínimo, ridículo. Aliás, quem precisa advogar sua própria causa não é juiz, é parte em conflito. Se põe em pé de disputa com a idiotice humana. E Deus, convenhamos, tem mais o que fazer.

Somos tentados a defender Deus todos os dias. E, sinceramente, cair nessa tentação gera algo muito pior.

Acho até que algumas coisas são desnecessárias, são até anti-propaganda de Jesus. Não imagino Jesus fazendo certas coisas com o próprio nome ...

Sei que aquilo que exala de mim é infinitamente mais convincente. Parar para escutar o ponto de vista dos outros, dialogar tranquilo. A simplicidade da conversa a dois ou três.

Não é questão de argumentar, não faltam argumentos. É o que está por trás. É preciso avaliar o momento. Argumento sem amor fere. Filosofia sem graça seca. E uma coisa é dar as razões da fé, outra é aceitar a competição intelectual.

É preciso levar Jesus à sério. Pérola não combina com porco.

Pra mim é simples: Deus em mim gera a paz. E só um ser pacificado pode mostrar aos outros onde achar a Paz. O resto é ostentação.

Defender Deus com uma pancada de argumentos não é defesa da fé, é defesa da violência, da intolerância.

É defesa do diabo.


4 comentários:

Blog da Márcia disse...

Olá Herisson, gostei muito de alguns pontos das suas colocações. Principalmente esse trecho: "Não é questão de argumentar, não faltam argumentos. É o que está por trás. É preciso avaliar o momento. Argumento sem amor fere. Filosofia sem graça seca. E uma coisa é dar as razões da fé, outra é aceitar a competição intelectual".

A questão da defesa da fé, digo defesa, referindo-me as "defesas" do tipo as que Paulo fez. Em casos como este de Paulo a "defesa" seria justa?

Deus realmente não precisa de ninguém para advoga-lo, Cristo nos disse que seriamos testemunhas e que o próprio Espírito Santo nos conduziria a fala nessas questões. Talvez toda a questão se resuma na mudança do "cenário", mas a causa não seria a mesma?

Tirando algumas frases, digamos, "mal colocadas" no filme, defender com uma "pancada" em alguns casos não torna-se valido? Visto que algumas pessoas reagem positivamente a demonstrações de amor, outras porém necessitam de um "choque elétrico".

Dentro do contexto colocado no filme não houve reação desproporcional, em alguns pontos o jovem foi até passivo demais ao ser confrontado pelo professor nos corredores do campus.

Enfim, se for possível, gostaria de uma retorno sobre os pontos que coloquei, pois sinceramente falando, gostei de suas exposições.

Herisson Pereira disse...

Oi Márcia, é um prazer poder conversar com vc. Agradeço desde já seu carinho e, sem dúvida, gostei muito das questões com as quais vc ampliou o assunto aqui.

Antes de tentar pensar algo sobre os pontos que vc levantou, é necessário lembrar que este texto teve como ambiente de análise o filme “Deus não está morto”. Sei que vc sabe disso, mas meus argumentos e crítica só tem sentido completo a partir do que o filme expõe. E foi assim que o analisei: como contendo um roteiro, personagens construídos (ainda que baseados ou não no real) e histórias paralelas que afunilam o objetivo central do diretor.

Neste sentido, achei-o um filme fraco, com fortíssimo apelo emocional, dirigido a um público pouco intelectualizado (mas com um leve verniz de discussão filosófica - perdoem-me os que não concordam), e que, a meu ver, incita certa rivalidade entre ateus e cristãos.

Assim, tentei escrever um texto acessível, reflexivo e direto.

Agora vamos aos pontos que vc levantou.

Acho que, ao falar de “defesa”, nos vem à mente textos como “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). Sim, a nossa existência é feita de embates, possuir caráter é defender princípios. Paulo certamente se viu obrigado a lidar com tentativas de adulteração do evangelho, dos quais suas cartas contém centenas de lições de como devemos também nos posicionar. O próprio Jesus não teve medo de atacar os líderes que abusavam da lei e, pelo próprio significado do evangelho, denunciou ideologias, modismos e práticas de exploração.

Porém, perceba sempre o ambiente (“cenário”) em que isso se dá. É sempre uma postura de anúncio do evangelho, ainda que isso ocorra na pregação dele ou em defesa de seu conteúdo. Postura que é fruto do amor prático, que mesmo na denúncia/defesa carrega a disposição de acolher o outro – pois Jesus nunca não amou.

Entretanto, quando o ambiente é a mera discussão intelectual, onde pouco ou nada tem a ver com a vida prática, a coisa é diferente. Paulo, aos coríntios, afirma: “anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo” (1Co 2.1-2). Jesus mesmo não perdeu tempo com este tipo de ilação, não o vemos com metafísicas sobre a existência. Frequentemente Ele se desvia das discussões e polêmicas, e quando não responde uma pergunta com outra, Ele simplesmente não responde - “também eu tampouco vos responderei”.

Assim, não encontro nada em Jesus que apoie uma “militância da fé”. Digo isso porque vejo todos os dias Deus ser defendido à “pancadas” de argumentos. E essa é a reflexão central do meu texto. Muito já se articulou em discursos e projetos na história da cristandade, e, frequentemente, se esqueceu que o convencimento é ação pura do Espírito. Não é negligenciar os meios, é se submeter à ação do Vento, dirigido pelo amor do evangelho.

Resumindo, anunciar o evangelho é preciso, desde que se lembre que evangelho é amor.

Isso tudo eu digo sem levar em consideração que, filosoficamente, a questão central do filme é auto-excludente: Deus não é passível de provas – nem de existência, nem de não-existência. Deus não existe, porque Deus é absurdo. Afirmar a existência de Deus é limitá-lo a lógica humana, e então, esse deus-lógico já não é Deus. Até a própria lógica é limitada. Deus existe porque me transcende, e toda evidência da sua existência vai de encontro ao que sou capaz de conceber. Ora, se a nossa própria existência é absurda – porque mesmo o universo que nos circunda transcende nossa capacidade de compreensão, certamente (penso eu) há Deus. Mas esse Deus, o Deus mesmo, não existe. Deus é.

Mas, é claro, qualquer um pode discordar de mim. Contudo, amar o próximo não é discussão, é atitude prática.

Abração pra vc.

Fique na paz.

Blog da Márcia disse...

Oi, olha eu de novo aqui rsrs!

Muito boa sua resposta, encaixou muito com outras questões que tinha que responder no meu blog. Principalmente porque ontem pela manhã, antes de ler a palavra fiz uma oração pedindo a Deus que me ajudasse a entender sua Palavra e que minha fé não se apoiasse na sabedoria humana que eu poderia adquirir, mas acima disso fosse baseada no poder Deus. Esta oração, fiz porque havia terminado de ler I Coríntios e ia começar II Coríntios.

Obrigada por sua atenção.
A paz do Senhor Jesus!
Maranata!!!

Herisson Pereira disse...

Fico muito feliz com isso.
Abraço carinhoso.

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