quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sem medo não há nada a perder

Medo do que os outros pensam, medo de cair no ridículo. Medo daquilo que não se entende, mas se faz a maior força pra mostrar o contrário. Medo de ficar só. Medo do diferente, medo do estranho, do oposto. Medo de ser contrariado, e na verdade, medo de se flagrar estando errado. Tem aquele medo de se expor e correr o risco, mas há o medo de quem dá a cara a bater e acha que aguenta qualquer pancada.

Medo é aquela sensação que faz a mente sufocar – parece que a alma não consegue respirar. E sentimos medo desde que nos lembramos gente, até que vira coisa indesejável. O medo se impõe. Por isso, se torna a nossa sensação mais básica, até quando não parece ser medo.

É medo todo o desfile de vaidades e importâncias que fazemos constantemente. Sim, é medo, só que fantasiado de elegância polida ou coragem apatetada. Pode vir acompanhado de raiva, tristeza, euforia, ou orgulho, mas continua sendo medo. Isso porque o medo foi e sempre será o resultado básico da nossa presunção, de se julgar o sabedor do bem e do mal, lá no primeiro Éden e no Éden que se repete todo dia na vida humana.

Medo é a declaração de todas as nossas carências não confessadas. De o quanto a gente é frágil enquanto se idolatra. De como se resolve a própria existência correndo pra bem longe do que se é de verdade. E nunca faltam argumentos, há uma reputação a zelar. Afinal, não é justo que se pise no meu nome, não é? Puro medo. O medo é apenas não querer se enxergar.

Porém, o mais cômico em relação ao medo, seja ele uma fobia ou só impulso, é que ele parece se agarrar a tudo o que nos possui. É pensar no salário que se ganha, e ele aparece agarrado, ou se irritar com as pessoas e ele acena do lado. Medo corrói como câncer. Assim, só se perde o medo quando já não há mais nada a perder. É preciso mesmo perder tudo, tudo o que nos possui.

Sem auto-bajulação e justificativas, sem argumentos e razões, sem fantasias, sem esconderijos o medo vai embora. É a entrega total do coração a Deus. É saber que o que me pertence é a vergonha da nudez com a qual nasci e com a qual voltarei ao pó. Porque no evangelho, quem quiser preservar a sua vida tem que perdê-la. E quem, no pânico, vai juntando ao seu redor o mundo inteiro, acaba por perder a própria alma mesmo. Quem vence não é o que sai por cima, é aquele que se entrega.

Vencer o medo exige fé. O oposto do medo é a confiança. É a certeza daquilo que se espera, mesmo que o caminho vire a reunião de todos os que te odeiam num corredor polonês no vale da sombra da morte. É esperar que, para além da aparência, há aquilo que de fato é.

O oposto do medo é a convicção. É estar convencido da Verdade, mesmo todo quebrado, rendido e vencido por ela, e mesmo quando um Maracanã lotado te diga o contrário e te desafie pra briga. É ver a vida pelos olhos Daquele que é.

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Foto: sementes de Lótus, planta real.

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