domingo, 9 de março de 2014

Dia da mulher e mulher todo dia

Sinto muito por aqueles que não concordam comigo. Mas também só sinto. Passei mais um dia internacional da mulher tendo que assistir as manifestações que movimentam a memória e, principalmente, o mercado em torno da mulher. Aliás, mais um dia pra gastar bastante com flores, bombons e jantares, e continuar a fazer da mulher o instrumento de lucro mais rentável da nossa sociedade.

O que eu acho do dia da mulher? Uma hipocrisia masculina. Mais um buquê de cemitério, um desencargo de consciência num mundo que continua machista. Dia 8 de março é o dia de fazer a média pro resto do ano, pois já virou clichê a homenagem romântica ao sexo oposto. É legal, o cara ganha status, sai bem na fita. Mas fica tudo no papel. A maioria, no dia seguinte, vai esquecer do que falou e tudo volta ao normal mais uma vez.

O mesmo bonitão que rasgou elogios é aquele que não consegue passar na rua sem olhar a bunda de uma garota, que não faz nada em casa pra ajudar nem a mãe, quanto mais a tia, a irmã ou a avó, que não vê na mulher nada além de um objeto. É o mané que se julga deus, patrão e senhor da mulher. É o homem – me desculpe usar essa expressão aqui, não acredito que isso seja homem – que, dia após dia, continua sem saber mostrar afeto algum, que humilha e agride de diversas formas a esposa, que não sabe nem mesmo dar carinho à própria filha.

Dia da mulher é o dia que se separa pra apagar da memória a impressão incômoda de que, nós homens, vivemos às custas do universo feminino. E é por isso que contra a mulher persistem os assédios, estupros e feminicídios. Apesar deste dia, em todos os outros, a mulher continua sendo descaradamente violentada. Elas têm superado os homens no mercado de trabalho e continuam subvalorizadas. Demonstram sensibilidade de alma, capacidade de liderança e percepção acima da média, mas ainda são um alguém que, algum dia, irá finalmente se tornar humano.

É por essas e outras que o dia da mulher, na farsante visão do mercado, não me entra. Não, eu conheço a história de lutas por trás da comemoração, sou sóbrio e ciente da sinceridade de muitos que concordariam aqui comigo. Mas me recuso a dissimular no dia da mulher. Dar um dia é fácil, o difícil é ser mulher todo dia. Ver-se relegada às tarefas domésticas e no final do dia ainda ter fôlego deslumbrante. Conviver com cólicas, dores de cabeça, náuseas e ainda enfrentar rotina e responsabilidades com naturalidade. Carregar o mundo inteiro com o amor uterino e não deixar de abrir um sorriso – tudo isso todo dia.

Não, um dia não, mais que um dia. Porque sem mulher não há vida, em pleno sentido. Não há graça nem leveza, não há amor. E enquanto houver um dia da mulher, infelizmente, lembrarei de o quão longe a mulher continua de encontrar dignidade, de quanta diferença ainda persiste. Contudo, esse dia carrega a consciência histórica de que a igualdade a ser efetivada precisa ocorrer em cada um de nós.

No fim, acho que um homem só será capaz de saber o que é ser humano de verdade quando reconhecer o quanto sua própria existência deve a qualquer mulher.

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