segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Carência como definição humana

O que é carência?

Sendo bem reducionista, todas as nossas relações partem da nossa insuficiência.

Precisamos de outros.

Daí que, se gostar é manifestar necessidade, a violência é a forma negativa deste precisar.

É carência, só que frustrada. Uma carência exclusivista.

E tantas outras possibilidades.

Por isso me parece que a carência define muita coisa do que nós somos.

Mas isso não é tudo.

Geralmente se pensa em homens e mulheres sob aspectos biológicos.

Mas eles são de uma constituição tão difusa, que seria bobagem reduzir tudo à sexualidade.

Então, carências são posturas diferentes de homens e mulheres.

E ainda há mais.

Se afeto e violência, amor e ódio, são a ponta externa das carências, o que é a ponta interna?

O indivíduo. O começo, o gerador das carências.

Carências que se definem nele, partem dele e dele fazem parte.

Já que quanto mais carências, mais insuficiências.

Carência que carece de segurança no indivíduo, virando dependência.

Então, carecemos, mas em níveis diferentes.

E há quem careça tanto de outros pra apenas fugir de si mesmo, de encarar a própria insuficiência.

Por outro lado, há quem tenha tanto medo de carecer, que vira o próprio cárcere narcisista.

Portanto, carência é desejo, é encontro.

Mas carecer da carência é doença, é fuga.

É não querer se enxergar.

É autoviolência.

É carecer do bom senso.

É parasitar.

É morrer.

Carência carece mesmo de quem a assuma, de quem na segurança de si a si mesmo se doa, sem se doer.

Carências provam o caráter.

E nos dizem, no fim das contas, o que há por trás do que tanto desejamos ter.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Idas e vindas no evangelho

O significado último da vida de Jesus tem sido materializado através de uma palavra que nem aparece em seus lábios: "missão" – ou "missões".

"Missões" carrega em si uma série de procedimentos, logística e treinamento que, no fim último, parecem tornar o evangelho uma prática profissional.

Mas, quando falamos de Jesus, falamos de um Homem que não tinha onde reclinar a cabeça, servido pela espontaneidade de recursos, cercado de gente simples, movido por compaixão e graça.

Nosso problema – numa comparação óbvia – está em ainda entender o evangelho com as categorias fixas da religião – contra as quais o mesmo Jesus lutou.

Paulo e a igreja primitiva tinham circunstâncias diferentes das nossas, claro. Um mundo instável, fortemente supersticioso e seres humanos extremamente afeitos a religiosidade.

Mas se engana quem pensa que o mundo foi evangelizado somente por Paulo.

Temos um ambiente cultural diferente. Vivemos num mundo judaico-cristão.

Que, por ser cristão, deveria bastar-se.

Mas, pra além do judaico, o que há são as estruturas do cristianismo.

E estas, ironicamente, é que justificam hoje a necessidade do evangelho.

Posto que as palavras de Jesus não são estruturas, mas Espírito e vida. E a vida é movimento pulsante. O Espírito não possui itinerário.

Assim, a Igreja envia porque é de sua natureza – como o é na de Seu Mestre – seguir em movimento. Igreja não é um lugar pra ir – é encontro. Todo encontro-igreja se dá na vida, no dia a dia, no caminho.

Toda relação de um cristão é um culto, e todas as suas palavras e atos são "evangelizações" do Espírito.

Assim, mesmo que se some esforços em logística, missão não é nada mais do que um meio. Um instrumento, entre tantos outros.

Neste seguir ninguém é excluído, porque a mensagem do evangelho é a própria necessidade de ir a Jesus em todo tempo. É receber Jesus e voltar para compartilhá-lo com outros.

Idas e vindas no evangelho, sempre.

Portanto, o chamado é contínuo, individual e intransferível. Não se delega uma relação pessoal a outro.

Quem de Jesus é, por Jesus vive.

O carrega consigo enquanto é carregado nessa vida por Ele.

E isso é mais que "missão", é encarnação de Cristo em nós.

domingo, 5 de outubro de 2014

Fim de eleição

Fim de apuração. O sentimento é de inquietude, de incompreensão.

De repente, toda sede de mudança, todo o bom senso, toda necessidade de alternância se diluiu.

E não se encontra ligação com os protestos de julho do ano passado, aliás em passado algum.

A democracia brasileira foi à mídia, fez dela seu palco.

Estarreceu-se diante da morte prematura de um prensidenciável, diante da comoção de uma nação.

Criou expectativas, promoveu debates, vaticinou resultados com os oráculos viciados de suas pesquisas de opinião.

E manipulou. Na simples observância da profissão de reportar fatos, na seleção das condições úteis da informação.

Do espaço no horário político às mentiras permitidas, desde que marqueteiros e publicitários as reinventassem com efeitos especiais de televisão.

Afinal, tempo e dinheiro fazem tudo, dão até nova impressão.

E dessa forma, nos deformam.

Democracia que mostra a sua face mais oculta, onde o poder da “cracia” ainda é oligárquico, e só se liga ao povo do “demo” porque continua a demo-dominá-lo.

E não nos permite nem ao menos a opção.

Resta sempre a não aceitação, o não conformismo.

Resta o lúcido espírito da subversão.

Que venha a mudança, completa e profunda. Mas que ela venha, mais do que nunca, do fundo da alma de cada brasileiro da nossa nação.

sábado, 4 de outubro de 2014

Fora e dentro da urna

O grito da vez, nas eleições, se tornou paradoxalmente político. Fora com a oposição, nada de propostas, sem conversas, nenhum diálogo.

Infelizmente, fora é o lugar onde se lança o divergente – e imprestável.

Fora é a cerca em volta do incômodo, é o muro de Berlim da consciência, o campo de concentração do diferente.

Fora é o lugar de onde, com muitos esforços, tentamos resfolegar ações pra entender porque um país como o Brasil tem que andar – depois de anos de redemocratização – às custas de pão e circo.

Fora é onde a gente se sente, e se vê obrigado a sentar a ver bate-bocas sem sentido apelidados de debate.

Outro deboche eleitoreiro, que estuda a tática da hora pra subir nas pesquisas.

Enfim, fora da urna parece que tudo é permitido, tudo é desmentido.

Mas é dentro, e sempre de dentro, que tudo muda.

Desculpem-me a franqueza, mas chega de fora.

Quem quiser mudança, que faça de seu voto sua consciência entregue ao Brasil.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O ópio de Karl Marx

Karl Marx foi um dos teóricos modernos que mais influenciou o pensamento ocidental. Suas contribuições se desdobram em várias áreas e alguns de seus termos ainda são fundamentais na compreensão das sociedades. Controverso, permanece atraindo diversas interpretações, sobretudo no forte teor de suas proposições.

Uma delas é a que segue. Para entendermos o que Marx quis dizer com "a religião é o ópio do povo", precisamos lembrar de sua história.

Marx era judeu, filho de uma família judia que foi obrigada a converter-se ao luteranismo por causa da perseguição étnica. Por isso mesmo, ele vê na história da humanidade o que viu a religião fazer na história de sua própria família.

Se pudéssemos resumir o que a expressão quer dizer seria que Marx está falando da religião como instrumento histórico de dominação social.

Pois nada é tão instintivo no ser humano quanto o desejo de extrapolar seus limites.

Em todos os tempos, essa instintiva religiosidade humana foi convergida para um sistema de religião específico, em cada circunstância histórica específica, pelos grupos que dominam as variadas sociedades.

Sistema de religião porque a religião petrifica a religiosidade, uma vez que se torna o fim – o reservatório – de uma pulsão que se necessita em fluxo. Em outras palavras: a religião assenta, a religiosidade salta.

Esse processo ocorre sempre sob a pretensão de dominar e não de levar à consciência, e sob o pretexto da ajuda, nunca para a emancipação. É interessante notar que o próprio Marx – a despeito da análise da relação histórica entre religião e poder – não conseguiu fugir da relação religião/religiosidade.

Ele, como qualquer homem, se viu mergulhado em seu próprio processo histórico, entre acertos e contradições.

Marx enuncia a dominação por estruturas religiosas, mas ele mesmo não se desvincula totalmente delas. Seu modelo de interpretação histórica trabalha com categorias como escatologia (chegada do tempo revolucionário), predeterminação (a classe eleita), e por fim, propõe a diluição total do indivíduo no coletivo, num sacrifício pessoal (em prol da revolução).

E o fim de sua vida é curiosamente marcado por sombras. Sua antiga criada conta que, já em sua velhice, Marx costumava fazer rituais estranhos com velas a meia luz¹.

Fato que demonstra como não se pode combater um extremo pulando para o outro. Querer extirpar religião junto com religiosidade é absurdo, é propor lobotomia para a humanidade.

A dominação pela religião não suprime a religiosidade, apenas a condiciona. Do mesmo modo, a destruição da religião não extingue a religiosidade, apenas a escamoteia.

O que talvez não se perceba é que não pode haver revolução sem que haja a emancipação da religiosidade, através da consciência – autonomia da própria espiritualidade. Tratar do ópio atirando-o aos pés resulta apenas em ficar dopado ao avesso.

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¹In: Riis, Sergius Martin. Karl Marx: Master of Fraud. Jon P. Speller (editor): New York, 1962.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Deus não está morto

Com a recente onda de temas religiosos rondando Hollywood - como o filme Noé - fui estimulado a assistir o filme "Deus não está morto". O filme não me impressionou, nada novo. Seguem abaixo algumas impressões que tive:

• Filme com drama tipicamente americano (o mesmo roteiro de dilema e superação com final feliz);

• Ateísmo - o filme expressa a concepção particular de um professor (nos meios acadêmicos não existe mais essa "fé na ciência" - desde 1950 já há uma forte crítica ao método científico como critério de conhecimento válido). Contesto. A teoria quântica é o paradigma que mais aproxima a comunidade científica da concepção de existência de um Absoluto que liga todas as coisas - inúmeros cientistas já a consideram evidência, ainda que não personifiquem esse Absoluto como um Ser eterno;

• Não existe incompatibilidade entre fé e ciência. O que de fato existe é, de um lado, um reducionismo de Deus ao livro Bíblia, e de outro, uma crença fanática na produção científica;

• Compensação da "fragilidade" da fé cristã com uma sutil comparação ao rigor do islamismo e ao estilo business de vida - como se a incoerência de um justificasse o outro, um nivelamento por baixo.

Teria mais a dizer, mas isso é suficiente. O jogo expresso no filme, em si, já é o atraso. Um deus que precise de mim pra advogá-lo é, no mínimo, ridículo. Aliás, quem precisa advogar sua própria causa não é juiz, é parte em conflito. Se põe em pé de disputa com a idiotice humana. E Deus, convenhamos, tem mais o que fazer.

Somos tentados a defender Deus todos os dias. E, sinceramente, cair nessa tentação gera algo muito pior.

Acho até que algumas coisas são desnecessárias, são até anti-propaganda de Jesus. Não imagino Jesus fazendo certas coisas com o próprio nome ...

Sei que aquilo que exala de mim é infinitamente mais convincente. Parar para escutar o ponto de vista dos outros, dialogar tranquilo. A simplicidade da conversa a dois ou três.

Não é questão de argumentar, não faltam argumentos. É o que está por trás. É preciso avaliar o momento. Argumento sem amor fere. Filosofia sem graça seca. E uma coisa é dar as razões da fé, outra é aceitar a competição intelectual.

É preciso levar Jesus à sério. Pérola não combina com porco.

Pra mim é simples: Deus em mim gera a paz. E só um ser pacificado pode mostrar aos outros onde achar a Paz. O resto é ostentação.

Defender Deus com uma pancada de argumentos não é defesa da fé, é defesa da violência, da intolerância.

É defesa do diabo.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Sobre dormir e comer

Parece que na vida tudo se alterna. Abre-se a boca na fome, fecha-se os olhos no sono.

Numa hora a alegria é partir pra dentro. Noutra, a tristeza é ter que cair fora.

E assim, dormir e comer estranhamente explicam porque na vida tudo é tão inesperado e contraditório.

Comer é um prazer que tem limite no espaço. Já dormir, esbarra sempre no tempo.

E de pratos e sonhos o mundo tá cheio.

Mas nem todo mundo tem estômago pro belo. Não é todo mundo que enxerga sabor.

Ir dormir, muitas vezes, é o anseio pelo aconchego. O cheiro gostoso da paz do travesseiro. Abraçar as cobertas até beijar a lona. Capotar no silêncio dos barulhinhos do sono.

Ir comer, com certeza, é a satisfação do encontro. Salivar as carícias de temperos na boca. Um prazer molhado a bocados salgados e doces. Do azedinho e do amargo. De brincar com as misturas, virar os olhos com delícias e descansar nas bordas da mesa.

Do colchão ao garfo, é assim que se mede o que é gostoso na vida.

Comida boa é como um sonho: você não quer que acabe. Sono bom é como uma refeição: a gente sempre quer repetir.

E quando se encontra um alguém tão bom assim?

A gente diz que é de encher os olhos e que quer dormir agarrado.

Mas também se perde o apetite e se sonha acordado.

Porque comida e cama a gente até deixa de lado. Mas gente assim desse jeito a gente não quer largar nunca.

Por isso, todos os dias tenho fome, todos os dias tenho sono.

E, todos os dias, quero ter você.

Quem sabe dormir, sabe sentir. Quem sabe comer, sabe viver.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A energia das palavras

Pergunta: Se você vem andando, mas distraído, chuta com força seu dedo mindinho na quina da parede e fala: "pqp"!!!
O que deve fazer?

a) Pedir perdão a Deus.
b) Apertar o mindinho e pedir perdão a Deus.
c) Esperar a dor passar e pedir perdão a Deus.
d) Deve agradecer a Deus, afinal, em tudo dai graças.
e) N. D. A. e justifique.

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Resposta:

Eu escolheria a letra (e) e vou justificar.

Palavras são nossa principal forma de expressão no universo humano.

O problema é que palavras são apenas extensões daquilo que acontece no coração.

E nem sempre revelam o que há nesse coração.

Jesus sempre dirigiu seus olhos para o coração dos homens. Tanto que Ele conseguiu ver o diabo onde ninguém mais via: nos senhores da religião.

Aquela mesma raça de hoje em dia: muito polida, discreta e com jargões bem decorados.

Contudo, tudo se resume à intenção, ao estado do coração.

Portanto, só o ato de falar o palavrão não se constitui pecado, porque é o que sai do coração (e não da boca) o que purifica o homem.

E assim, tem muita gente falando "evangeliquês", mas soltando os piores palavrões do inferno contra os outros ...

Uma "paz do Senhor" cheia de ódio, com odor de inveja, de quem carrega o hálito da matança nas entranhas.

Por outro lado, tive e tenho amigos que falam palavrões, mas como coisas do dia a dia, na maneira como foram criados.

Coisa leve e sem maldade.

O que define mesmo um palavrão é a energia com a qual é falado.

Por isso, Jesus disse: quem chamar seu irmão de raca ("tolo" - literalmente "um nada, um bosta") é réu do inferno.

Porque não é o vocábulo, mas o que ele, de nós, carrega consigo!

Pedir perdão então, nesse caso, tem a ver com a energia que saiu de mim e não necessariamente com o palavrão.

Ou com o fato de tentar ser esperto e trocar "pqp" por "misericórdia".

Cuidado mesmo é com a energia das palavras.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Dizem que a vida é um eterno aprendizado

Dizem que a vida é um eterno aprendizado, mas isso depende. Depende de situações, de tempo e acima de tudo, depende da gente. O que define o significado de uma experiência, seu marco como lição, é a capacidade de cada um de nós mergulhar nela. Posto que somente o que é feito com a entrega de nós mesmos retorna para nós como algo propriamente nosso.

Daí que, quem entrega não possui mais domínio sobre si, e sobre o que virá sobre si. Não há matemáticas para a consequência de atos, porque, nessa conta, as pessoas é que são as incógnitas. Do bem se recebe tanto o bem quanto o mal. Porém, em cada retorno a gente pode ter a certeza do inesperado. Afinal, nem tudo o que parece é. E é assim que a gente aprende que nem tudo o que é em um minuto o será também para o resto da vida. Talvez essa seja a lição mais difícil de viver: a de escapar da lógica das aparências.

Então, tudo o que acontece recebe a dimensão do comprometimento. Não há como agir e querer deixar de firmar uma relação de continuidade, de percepção, com tudo o que se seguirá indefinidamente. Essa é a parte visceral da didática da vida. É, para bem e para mal, assumir essa posição de aprendente, onde nós mesmos somos desafiados a relacionar tempos da nossa vida, reinterpretar significados, corrigir posturas com base em outras. Enfim, aprender é fazer de si mesmo a maior lição a ser encarada.

Mas se a vida é aprender, erros e acertos serão sempre conquistas difíceis. Acertos precisam ser encarados na fragilidade com que nos iludem. Erros precisam ser assumidos através da pureza que podem extrair do buraco mais profundo de nós.

E de todas as lições que aprendi até agora, a mais intensa talvez seja essa: que a força do meu desejo não pode ser maior que a força da minha paciência. Que não há coragem que se sustente sem que haja, antes de tudo, compreensão.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Apenas assim

Faça tudo o que você sabe. Não crie argumentos para não agir. Do contrário, você passaria a vida inteira sem fazer o que é preciso com a desculpa de ter que saber mais. Quem deseja saber, faz. Só se descobre o que é mundo na prática, girando com ele. Não parado no tempo, no espaço e na consciência.

Não procure explicações pra tudo o que acontece em sua vida. Explicações são opiniões, limitadas por pontos de vista de alguém. A vida não, nunca terá explicação. Tem a leveza de surpreender, a audácia de confundir, a simplicidade de ser mais forte que palavras. Porque viver é se abrir para todas as perspectivas, e até ficar perplexo diante dos maiores absurdos.

Procure algo que te realize, mas não se enfie de cabeça numa coisa só. O que sobraria de você pra todo o resto de possibilidades? Isso seria um aleijão na sua alma, arrancaria de você centenas de outras ligações vitais que te mantém como é. Ao invés disso, deseje se doar por inteiro, mas se manter inteiro em cada situação.

Queira muito, muito mesmo alguém. Mas não queira tudo de uma vez, queira devagar. Percorra cada centímetro, perceba cada movimento. Aprenda a saborear o instante. Se entregue em cada prazer único que cada único momento pode te proporcionar. Isto, com certeza, é a parte mais intensa e linda de amar. 

Lembre de onde você veio e quem você é. Porque ter caráter é fazer jus ao caminho trilhado e a todos que passaram por você nele, e te marcaram, e te refizeram como você é hoje. Manter memória não é saudosismo, é gratidão que deseja melhorar os outros que admiramos em nós. Saber a origem é buscar o fim certo.

Apenas assim.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A essência de ser um

A vida é feita de muitos recomeços.

E cada um deles reflete a nossa história.

Enquanto existe vida, histórias não tem fim.

Umas mais longas, outras mais curtas.

Mas a melhor delas é escrita quando dois se tornam um, e eles, um com Deus.

Por isso, a vida é UMnica.

Aproveite o tempo pra que um seja a essência do que você e quem você ama são em Deus.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sobre o que só Ele sabe

As disputas humanas sobre Deus terminam, fatalmente, na sentença sobre o fim alheio. Todo o que assume para si o direito de defesa, guarda também a lógica triunfante do argumento final.

Passada a discussão, o que sobra? No fim, quem pode dizer quem é de Deus ou não? Quem se habilita?

Só Ele. Ele – o mesmo que, segundo as Escrituras, deseja que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade. Aquele que tudo fez, incluindo o céu.

Céu que não é meu nem seu – não dá pra mandar ninguém pra lá. Muito menos mandar sair. Mas é um céu que já habita todo filho d’Ele, ainda que aos olhos humanos não passe de abominação.

Deus, porém, não faz acepção de pessoas. Cristo é a luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem.

Ademais, Jesus continua o mesmo.

O mesmo que continua andando com prostitutas e cobradores de impostos. Que continua fazendo do samaritano desprezado, do centurião odiado e da mulher desvalida exemplares da fé.

O mesmo Jesus que vê o que o olho não viu e sabe o que por ninguém foi discernido.

Para além das aparências,

para além dos equívocos,

para além das crenças.

Porque só Ele sabe o que verdadeiramente é.

E por isso, para além de todos os “ismos” da religião, principalmente, os do cristianismo. Pois é o coração o lugar da revelação divina e aquilo que, sempre, nos define diante de Deus e dos homens.

Eu, contudo, não sou. Hoje só estou sendo, por Ele, aquilo que um dia serei n’Ele e fui chamado a ser para Ele, quando ainda nem mesmo me reconhecia.

O que me silencia.

Crer nas mais elaboradas confissões de fé, dominar a semiologia dos anjos, tornar-se hábil em dons e conhecimentos elevados. Ser inflamado num ato altruísta que sacrifique o próprio corpo. Tudo isso é humanamente possível.

E ocasião passível de toda disputa.

Mas, se não tiver ... igreja? Bíblia? Padre, pastor, algum outro?

Não. Se não tiver amor, nada disso terá proveito algum. Isto porque o amor é a essência de todas as nossas impossibilidades. É o ato eterno que nos torna um com o próprio Deus e, portanto, com o próximo.

Todo aquele que ama é nascido de Deus, porque Deus é amor.

E no amor não há disputa, não há argumento, não há nem mesmo fim. Há apenas, enquanto se vive, a fé e a esperança de um coração que se rende ao fato de que nada sabe sobre o que só Ele sabe, pois só Ele é Aquele que é.

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Imagem: nebulosa de Hélix, chamada de “olho de Deus”. Nebulosas planetárias são formações gasosas que só aparecem no fim da vida de uma estrela, quando ela está morrendo. Belezas apenas visíveis quando aquilo que era já não é mais.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sem medo não há nada a perder

Medo do que os outros pensam, medo de cair no ridículo. Medo daquilo que não se entende, mas se faz a maior força pra mostrar o contrário. Medo de ficar só. Medo do diferente, medo do estranho, do oposto. Medo de ser contrariado, e na verdade, medo de se flagrar estando errado. Tem aquele medo de se expor e correr o risco, mas há o medo de quem dá a cara a bater e acha que aguenta qualquer pancada.

Medo é aquela sensação que faz a mente sufocar – parece que a alma não consegue respirar. E sentimos medo desde que nos lembramos gente, até que vira coisa indesejável. O medo se impõe. Por isso, se torna a nossa sensação mais básica, até quando não parece ser medo.

É medo todo o desfile de vaidades e importâncias que fazemos constantemente. Sim, é medo, só que fantasiado de elegância polida ou coragem apatetada. Pode vir acompanhado de raiva, tristeza, euforia, ou orgulho, mas continua sendo medo. Isso porque o medo foi e sempre será o resultado básico da nossa presunção, de se julgar o sabedor do bem e do mal, lá no primeiro Éden e no Éden que se repete todo dia na vida humana.

Medo é a declaração de todas as nossas carências não confessadas. De o quanto a gente é frágil enquanto se idolatra. De como se resolve a própria existência correndo pra bem longe do que se é de verdade. E nunca faltam argumentos, há uma reputação a zelar. Afinal, não é justo que se pise no meu nome, não é? Puro medo. O medo é apenas não querer se enxergar.

Porém, o mais cômico em relação ao medo, seja ele uma fobia ou só impulso, é que ele parece se agarrar a tudo o que nos possui. É pensar no salário que se ganha, e ele aparece agarrado, ou se irritar com as pessoas e ele acena do lado. Medo corrói como câncer. Assim, só se perde o medo quando já não há mais nada a perder. É preciso mesmo perder tudo, tudo o que nos possui.

Sem auto-bajulação e justificativas, sem argumentos e razões, sem fantasias, sem esconderijos o medo vai embora. É a entrega total do coração a Deus. É saber que o que me pertence é a vergonha da nudez com a qual nasci e com a qual voltarei ao pó. Porque no evangelho, quem quiser preservar a sua vida tem que perdê-la. E quem, no pânico, vai juntando ao seu redor o mundo inteiro, acaba por perder a própria alma mesmo. Quem vence não é o que sai por cima, é aquele que se entrega.

Vencer o medo exige fé. O oposto do medo é a confiança. É a certeza daquilo que se espera, mesmo que o caminho vire a reunião de todos os que te odeiam num corredor polonês no vale da sombra da morte. É esperar que, para além da aparência, há aquilo que de fato é.

O oposto do medo é a convicção. É estar convencido da Verdade, mesmo todo quebrado, rendido e vencido por ela, e mesmo quando um Maracanã lotado te diga o contrário e te desafie pra briga. É ver a vida pelos olhos Daquele que é.

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Foto: sementes de Lótus, planta real.

domingo, 9 de março de 2014

Dia da mulher e mulher todo dia

Sinto muito por aqueles que não concordam comigo. Mas também só sinto. Passei mais um dia internacional da mulher tendo que assistir as manifestações que movimentam a memória e, principalmente, o mercado em torno da mulher. Aliás, mais um dia pra gastar bastante com flores, bombons e jantares, e continuar a fazer da mulher o instrumento de lucro mais rentável da nossa sociedade.

O que eu acho do dia da mulher? Uma hipocrisia masculina. Mais um buquê de cemitério, um desencargo de consciência num mundo que continua machista. Dia 8 de março é o dia de fazer a média pro resto do ano, pois já virou clichê a homenagem romântica ao sexo oposto. É legal, o cara ganha status, sai bem na fita. Mas fica tudo no papel. A maioria, no dia seguinte, vai esquecer do que falou e tudo volta ao normal mais uma vez.

O mesmo bonitão que rasgou elogios é aquele que não consegue passar na rua sem olhar a bunda de uma garota, que não faz nada em casa pra ajudar nem a mãe, quanto mais a tia, a irmã ou a avó, que não vê na mulher nada além de um objeto. É o mané que se julga patrão, dono e deus da mulher. É o homem – me desculpe usar essa expressão aqui, não acredito que isso seja homem – que, dia após dia, continua sem saber mostrar afeto algum onde vive, que humilha e agride de diversas formas a esposa, que não sabe nem mesmo dar carinho à própria filha.

Dia da mulher é o dia que se separa pra apagar da memória a impressão incômoda de que, nós homens, vivemos às custas do universo feminino. E é por isso que persistem os estupros, assassinatos e toda violência contra a mulher. Apesar deste dia, em todos os outros, a mulher continua sendo sutilmente subvalorizada. Mulheres tem superado homens no mercado de trabalho, mais continuam sendo sub-remuneradas. Demonstram sensibilidade de alma, capacidade de liderança e compreensão pra além da maioria, mas ainda são um alguém que, um dia, vai finalmente se tornar humano.

É por essas e outras que o dia da mulher, na pura visão de mercado, não me entra. Não, eu conheço a história de lutas por trás da comemoração, sou sóbrio e ciente da sinceridade de muitos homens que concordariam comigo. Mas me recuso a dissimulação no dia da mulher. Dar um dia é fácil, o difícil é ser mulher todo dia. Ser abandonada nas tarefas domésticas e no final do dia ainda se ter fôlego deslumbrante. Viver de cólica em cólica, de dor de cabeça à náusea e ainda enfrentar a rotina e as responsabilidades com naturalidade. Carregar o mundo inteiro com o amor uterino e não deixar de abrir um sorriso – tudo isso todo dia.

Não, um dia não. Mais que um dia. Porque sem mulher não há vida, em todos os sentidos. Não há graça nem leveza, não há amor. E enquanto houver um dia da mulher, infelizmente, me lembrarei de o quão longe a mulher continua de encontrar dignidade, de quanta diferença ainda persiste. Contudo, o dia carrega a consciência histórica de que a igualdade ainda está para ser efetivada.

No fim, acho que um homem só será capaz de saber o que é ser humano de verdade quando reconhecer o quanto sua própria existência deve a qualquer mulher.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Problemas ensinam tanto quanto exigem

Aquilo que incomoda pra você é um problema? Reclama a atenção, suga energias, exige paciência? Vira um teste sucessivo de capacidade de reação, um sentimento insistente de agonia? Até parece um pacote acompanhado de dor de cabeça, pontadas na coluna, sudorese e insônia?

Sim, todo mundo tem problemas. Mas não sei se ter problema é mesmo o problema. Na verdade, acredito que não há problema nenhum nisso. O que é viver senão uma troca diária de situação? E de onde virá a inovação, se não houver o descaminho?

Fato é que estamos convivendo com um mundo de gente que tem perdido a capacidade de lidar com problemas. Hoje se celebra a habilidade ou competência na resolução imediata da dificuldade, o culto ao instantaneísmo. Mas não se encontra mais a ponderação séria, a reflexão profunda de quem se entende afetado pelo que a vida tem a ensinar em cada desafio.

Lamento a imensa falta de coragem de muitos pra encarar a existência. Toda fuga da realidade, por mais satisfatória que aparente, é sempre evasão da própria vida. É abando, desistência. É um desespero piorado na rendição à tudo que faça cócegas, anestesie e iluda. Afinal, sorrir e chorar demandam um ser que ainda tem alma.

Só que problemas ensinam tanto quanto exigem de nós. É saber que nem sempre companhia significa ajuda. Que solidão não é necessariamente estar sozinho. Se ver incapaz é descobrir-se incompleto, é ter a chance de se melhorar. Permite a descoberta de que felicidade não é gargalhar, é ter a coragem de continuar crendo. Que nem todo choro é de tristeza, também é regar a alma com esperança.

Se a vida exige de nós cada lição, aprendê-las é estar pronto a se dar por inteiro.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Caminhos do vento

Quando o vento sopra produz leveza no ar. Mesmo invisível, por onde passa se percebe os seus caminhos, que mudam tudo o que tocam. Andar com Deus é como ser nascido do vento. Não sabes de onde vem, nem para onde vai. E se a gente confiasse n’Ele assim, todo momento seria ser levado por Ele aonde Ele quer, mesmo sem nunca entender, mas percebendo em seu caminho o rastro da graça se derramando por onde Ele passa.

São diferentes as intensidades e muitos os destinos, mas o vento é o mesmo. E essa capacidade multiforme de soprar em diversas direções, de fazer voltas e não seguir padrões define bem a vida. Quem vai com o vento precisa deixar-se levar por Ele, abrir mão de razões e lógicas rígidas e aprender a maleabilidade de encontrar essa vida nos contornos mais inusitados. De se deixar surpreender pelo contraditório. De valorizar o irrepetível. De abrir o coração e se dar.

Ser levado pelo vento é ver a vida de outra maneira. É aprender que nem mesmo sofrer é o fim da linha. O sofrimento produz em nós a perseverança, a incrível capacidade de persistir. Essa persistência vai somando diversas situações, que vão nos tornando cada vez mais experientes. E só a experiência faz nascer em nós a esperança, a leveza de caminhar pra onde ainda não se chegou.

Assim, sou sempre soprado, enchido e conduzido pelo amor. Amo porque Ele me amou primeiro. Sinto e provo sua brisa em mim todo dia. Então, amo os outros não pelo que eles são, mas pelo que eu sou n’Ele. Amor tem a ver com quem eu sou e não com quem o outro é. Todo aquele que ama é nascido de Deus, porque Deus é amor. Sendo assim, amor não sou eu. Amor é Deus em mim, se derramando de mim para os outros. E para além, sempre me soprando pra fora de mim mesmo, em direção às proximidades da vida ao meu redor.

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