quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Insensibilidade mórbida

Cada dia que passa mais me choco com as pessoas. Já não consigo definir até que ponto essa massa de gente que nos circunda ainda pensa, percebe, sente. Parece até que todo nosso avanço tecnológico se processa sob a imposição irrefreável de uma mentalidade de rebanho. Meia dúzia de cursos, domínio técnico de procedimentos e uma constante qualificação instrucional são suficientes para fabricar um ser humano hoje em dia. E assim se programa a nova humanidade. Mas que outra coisa é possível se tornar além de humano, a não ser desumano?

Como é sofrido ter que conviver com a legalização da indiferença. Se o outro padece, passa fome e dorme no frio da calçada, não é culpa nossa. Nunca. Já chegamos à maturidade racional de entender como ocorrem os processos sociais. Inventamos até um ente coletivo, pra podermos de maneira objetiva denunciar as atrocidades e expressar nossa ojeriza: é o Governo! Nenhum de nós é culpado. E com a transferência da culpa, vai-se também de nós toda responsabilidade, decepa-se a capacidade de sentir a dor do outro. Afinal de contas, a omissão corrupta que o Estado promove a nível geral ninguém repete no dia a dia, não é?

É insuportável ter que presenciar a virtualização das relações. Já é possível fazer transplante de personalidade com meia dúzia de fotos produzidas e frases recortadas. Mais. É possível estar em vários lugares ao mesmo tempo e conversar com um sem número de pessoas. Bem pouco é necessário pra ser muito “curtido” e ostentar uma imensa lista de contatos. Só não se descobriu ainda como se bloqueia o desagradável contato físico com pessoas de verdade, ou como se apaga do histórico as coisas que mexem com a consciência. Será que um dia algum provedor de internet vai inventar um antipoup-up pra essas coisas?

Duro é ter que lidar com a insensibilidade mórbida. Quando chegam num determinado estado, as pessoas esquecem completamente do que é vida e se desconectam do ambiente em que existem. Não lembram mais que já foram crianças incapazes, que viveram anos e anos de total despreocupação com moradia, comida, saúde e lazer à custa do suor de outros, e nem ao menos atentam para fato de que elas é que, logo logo, serão os incômodos idosos frágeis. Conquista-se independência, caem as censuras e permite-se toda insanidade. A violência é consenso pra quem só enxerga diante de si gente que não mais é gente: virou bicho, bicho que não é mais bicho: é apenas saco de lixo. Natureza morta. Será esse o concreto que sustentará o desenvolvimento sustentável?

Basta. Meu Deus, quem diria um dia? A coisa mais rara a se encontrar na terra é um ser humano. Um que, ao menos, seja humano. E você meu amigo(a), por favor, me responda. Quem não consegue se flagrar diante dessas coisas, o que é?

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