segunda-feira, 15 de julho de 2013

A morte de correntes invisíveis

Em todas as conversas que tive, de todas as palavras que já escutei, pouquíssimas foram as vezes em que a dor não foi a referência. Sofrer é, ao mesmo tempo, batalha renhida que se contorce numa fúria interna e uma torrente de angústia que vaza da alma. É um não-lugar tão obscuro aos olhos alheios que chega a ser até intraduzível. Das situações mais duras que presenciei nenhuma parece nos empurrar pra um veio tão profundo do ser. É a condição que o ser humano mais teme em vida e o encontro do qual mais deseja fugir no leito de morte.

Não posso dizer que não sofro. Sofro e muito. E é justamente por sofrer que sou humano e prossigo me humanizando. Nessa condição-ponte, que me faz ser-sentir quem eu sou e os outros, é que inúmeras vezes me deparei com a dificuldade humana de lidar com o sofrimento. Tanto por não sabermos dimensionar seu real impacto na progressão da vida, como por não entender seu significado último – o que talvez, de fato, seja a verdadeira força de todo sofrimento.

Toda dor é uma anti-sensação – sentida para ser não sentida – que por isso mesmo nos atordoa. Em seu estado natural, a dor não pode ser considerada maléfica. Ela é um mecanismo de defesa do organismo para preservar a saúde e uma proteção que mantém o alerta no ambiente em que se vive. E não vejo forma mais natural de entender o sofrimento também. Porém, o gigantismo de todo sofrer se constrói na medida de sua própria experienciação. O sofrimento constantemente se instala de maneira a induzir à sensação de que é permanente. O caos psicológico, a confusão emocional e a incapacidade racional de reação são agravantes que tornam a situação intransponível, convencendo que aquela dor não passará.

E ainda há os fulcros abertos por todas as experiências de dor. No universo humano, o sofrimento é condicionado também pela escolha. E aí jaz o trauma maior. Das dores sentidas na situação de sofrimento, certamente nenhuma se mostra mais forte e persistente do que a da culpa – reação à falência pessoal. É a sensação elástica da falha, mas é também a dor da conclusão não concluída, do se ver sequestrado pela acusação num suplício vitalício. É quando o tempo passa e parece nos arrastar com ele em correntes invisíveis. Então a dor nos inutiliza. A vida se torna uma roda de ramster e o erro se torna um carma.

Sofro, mas não da dor da martirização. O que mais me faz sofrer é a incapacidade, a indiferença e, sobretudo, a incompreensão – minha e dos outros. Contudo não, não há lamento. Sei que se assim não fosse eu talvez jamais fosse quem sou. As dores que carrego vergam na minha alma toras profundas de caráter que nenhum outro meio seria capaz. Sol que castiga o rosto, pedras que ferem os pés e espinhos que cortam o corpo são os desvios na estrada que endireitam o meu caminho interior. Afinal, o que é viver se não morrer a cada dia? E cada lampejo de vida que nasce em mim é fruto da morte. Mas vivemos matando em nós toda morte, sem perceber que assim também matamos em nós toda vida. Se existe vida após a morte? Sim, muita vida. Chego à conclusão que só existe vida de verdade quando se é capaz de morrer. É preciso morrer constantemente pra viver a vida.

Acredite, há uma paz inexplicável pra quem caminha assim. Um descanso sem travesseiro, calor sem cobertor, a companhia do Mestre. Mas é preciso morrer, morrer pra si mesmo. Decida morrer, amar menos os seus caprichos e suas carências. Decida deixar tudo isso pra trás. A fazer de Jesus, e de nada mais, sua razão diária de estar vivo. E então a graça vai brotar no seu coração. E cada experiência de dor e sofrimento será um encontro com Deus, que vai te levar a fundir-se n’Ele. Mas decida receber a graça de Deus, mesmo que ela se manifeste como sofrimento. Sem relutância nem reservas, morra com Ele a Sua morte pra viver n’Ele a vida d’Ele.

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