sexta-feira, 21 de junho de 2013

Onda de protestos que manifestam o Brasil que somos

Parece até clima de final de Copa do Mundo, mas não é. O contexto também não poderia ser mais oportuno: em meio à Copa das Confederações e no exato momento em que se inauguram os novos e modernos estádios padrão FIFA. A cerca de duas semanas, o Brasil tem surpreendido o mundo com uma série de manifestações espontâneas, que geram questionamentos e espanto, tanto por sua repercussão internacional como pela renitência do governo brasileiro em não reagir a tudo isso.

A situação em que os protestos começaram é, sem dúvida, bastante sugestiva: vamos sediar a Copa do Mundo mais cara da história. Em abril, o governo estimava um custo total de R$ 25,5 bilhões. Essa semana, porém, Luis Fernandes – secretário-executivo do Ministério dos Esportes – anunciou que o valor subirá para R$ 28 bilhões. Só o custo do estádio de Brasília já o coloca entre os dez mais caros da história. E se compararmos com outros mundiais o susto é ainda maior: o da Alemanha (em 2006) considerado um dos melhores em infraestrutura, custou R$ 10,7 bilhões, o da Coréia e do Japão (2002) R$ 10,1 bilhões e o da África (2010) R$ 7,3 bilhões. Some-se o fato de que, no Brasil, a FIFA estima faturar 3 vezes mais do que na última Copa, na África.

Da mesma forma que este fenômeno repentino causa perplexidade, ao mesmo tempo revela claramente alguns aspectos do Brasil em que vivemos hoje. Podemos notar o grande poder de mobilização que temos como povo. Conscientização e convocações iniciam-se nas redes sociais e, rapidamente, alcançam as ruas. E um movimento que começou de forma pontual logo alcançou o país inteiro. Impressiona também a objetividade das reinvindicações: do aumento abusivo das tarifas dos transportes, os protestos se direcionaram para a educação, a saúde e a corrupção política. E a tensão gerou os primeiros frutos: cerca de 11 capitais já prescindiram do aumento do transporte público.

Por outro lado, fato que insistentemente tem se repetido é o vandalismo oportunista. Obviamente, a turbulência que incomoda e lança uma sombra sobre legitimidade das manifestações é causada por uma minoria. Contudo, a violência dos protestos tem se seguido sem que seja coibida diretamente, nem pelos manifestantes pacíficos nem pela polícia. Isto se revela duplamente sintomático: mostra a grande alienação que ainda toma conta da população – por depredar aquilo que paga com o próprio dinheiro ou por se manter confortavelmente "neutra" – e prova que o momento histórico que vivemos é crítico, culminando em revolta violenta.

É oportuno falar também da nossa polícia. A grande mobilização social tem permitido notar o tipo de proteção que está a nossa disposição. Na Europa, cidadão na rua é manifestante, mas no Brasil é vândalo. Nossa polícia é excessivamente militarizada, se não tanto em sua formação, ainda muito em sua prática. Falta-lhe a capacidade de identificar o cidadão e dialogar pacificamente. E tratar cidadãos pacíficos como se fossem milicianos é o retrato mais nítido da nossa inversão ética: uma extensão de nossas casas legislativas, que tratam cidadãos como palhaços (aliás, crime hediondo deveria ser a corrupção de nossos políticos, que além de toda blindagem e aparatos de desfaçatez, ainda contam com foro privilegiado).

Ainda é muito cedo pra dizer que o Brasil está mudando, mas um novo passo foi dado. Diante do turbilhão que se levanta, resta-nos acompanhar e nos engajar. Porém, uma coisa é certa: é preciso ter VOZ pra ter VEZ. Pense e seja.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Almas antigas em tempos pós-modernos

Uma amiga minha me perguntou – num desses papos bem rápidos que a gente tem via chat em sites de relacionamento – o que eu achava dessa correria da pós-modernidade. Parei pra pensar e, mergulhado na própria correria, tentei falar para ela aquilo que transcrevo abaixo:

“Posso falar rapidamente. Acredito que essa pressa é um fenômeno experimentado em todos os tempos, mas, na sociedade capitalista, a mecanização tem causado a sensação da “aceleração do tempo”. Jesus já dizia pra Marta: “estás ocupada com muitas coisas”. E isso no Israel da Antiguidade.

Acho que a questão toda gira em torno de duas coisas: 1. A VISÃO ARTIFICIAL DA VIDA – a vida é o aqui e agora, e ganhar é sempre o objetivo máximo de cada experiência; e 2. A FOBIA DA MORTE – mesmo inconscientemente, a maioria das pessoas vive sua vida sob o medo de morrer. Como? Tudo precisa ser feito logo e toda experiência é válida e aproveitável, afinal de contas, a gente tá envelhecendo e não fazer agora é burrice, pois a morte acaba com qualquer oportunidade.

Assim, o “HOMEM PÓS-MODERNO” é um cara articulado, esperto, audacioso, que não tem tempo a perder. E não percebe que correr loucamente assim atrás de tudo é, na verdade, o PERDER TEMPO, porque o fruto disso já foi declarado: “O que adianta ao homem GANHAR O MUNDO INTEIRO, E PERDER A SUA ALMA?”.

Deus me livre de perder a minha ALMA – no sentido mais essencial da palavra – porque essa correria rouba de nós a graça, a leveza e a sensibilidade, e não apenas a vida com Deus – a salvação da alma. Por isso mesmo, são os pobres os que herdam o Reino. Eles não tem nada, só almas ricas. São os que tem fome que acabam fartos e os que choram os que encontram consolo. Porque a vida é exata e estranhamente isso.

Como saber o valor da comida sem a experiência da fome, ou do conforto do abraço sem se ver sozinho e desolado? Como saber a necessidade que se tem do Eterno, se cada segundo é medido pelo dinheiro? É a experiência da pacificação da alma, adquirida na certeza do “tudo tem seu tempo”, que nos leva ao encontro da verdadeira vida e do Deus verdadeiro”.

Acrescento apenas que – caminhando em um mundo que corre para ultrapassar a pós-modernidade – me sinto cada dia mais “jurássico”, pois insisto em carregar dentro de mim uma alma antiga: onde o tempo para e o valor de tudo não é medido por ganho ou perda, mas pelo simples fato de poder ser vivido.


Imagem:
Retrato de Florence Owens Thompson, com vários de seus filhos, após a Grande Depressão de 1929, nos Estados Unidos. Foto de Dorothea Lange.
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