sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um lugar na mesa de Abraão

A vida é inevitavelmente marcada pela repetição cíclica de muitos processos biológicos, físicos e até sociais. A rotina, os costumes e o constante apelo ao senso comum são exemplos de como nos baseamos em um “chão social” pra viver. Com razão, pensar em relações humanas é falar sobre a instituição de mecanismos que garantam a harmonia e manutenção da sociedade. Portanto, muito do que nos define é aquilo que se torna usual, cotidiano e alinhado ao padrão.

Nos evangelhos, porém, encontramos em Jesus diversos encontros que destoam do senso comum e até simbolizam total rompimento com ele. Um desses encontros, em Mt 8.5-13, nos narra a história de um centurião romano, inusitado em vários aspectos. É da boca de um chefe de exército de ocupação – naturalmente inclinado à impiedade pelas lides do seu ofício, forjado numa cultura de estrutura polimorfa, hedonista e desregrada – que surgem as palavras que ultrapassam a simpatia humana – alcançam a relação da fé. É este homem – que não era judeu, que não era filho de Abraão nem estava sob o sacerdócio levítico de Moisés, que não conhecia a aliança da circuncisão nem a lei ou os profetas – o homem que causa a inesperada admiração em Jesus.

“Nem mesmo em Israel achei fé como esta”, Ele afirma. Sim, de Israel é que se esperaria um espírito assim, mas nem mesmo ali alguém parecido foi achado. E o que se torna mais admirável é o que se segue a essa declaração. Jesus passa do plano terreno para o celestial e começa – a partir daquele encontro inusitado – a expor a natureza do céu. “Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”. Muitos, como o centurião, aparecerão naquele mesmo dia para o gozo dos filhos de Abraão, das promessas – mas, sobretudo, da fé. E o que se estabelece aqui é que nenhuma instituição ou vínculo visível pode caracterizar um filho da fé. Não é o estar em Israel, não é o ser filho do sêmen de Abraão. Jamais seria também o estar na igreja/templo, nem adotar suas confissões ou costumes. É tão somente ser do mesmo espírito desta fé.

Muitos virão, naquele dia, dos lugares mais impensáveis. De prostíbulos, centros de macumba, salas de reunião espíritas, templos satanistas, sinagogas judaicas e – por mais incrível que pareça – de igrejas evangélicas. Porque para Deus não há acepção de pessoas. De fato, graças a Deus que Ele não sofre da limitação dos nossos piedosos preconceitos. Bem assim, não se utiliza dos pálidos parâmetros humanos de julgamento. Ele tão somente é. Uma multidão de santos anônimos se levantará naquele dia e, entre eles, este centurião romano. Jesus o põe na mesa da família de Deus, junto com o mesmo Abraão, que antes tinha sido o pagão Abrão, mas veio a se tornar – por outro encontro inusitado – o pai da fé. Ele, e tantos outros párias da religião, se tornarão – para o escândalo de uns e enlouquecimento de outros – os herdeiros do Reino, e isto pela sabedoria do conselho do Eterno.

Aliás, tudo o que Jesus diz a respeito desse dia é sobre surpresa. Para os chamados “filhos do reino” – aqueles que se autoconcebem proprietários dos portais da eternidade e se fazem juízes dos segredos dos homens – a estes, é reservado o espanto das trevas, do choro e do ranger de dentes. E aqui eu tiro minhas sandálias e simplesmente me calo. Entendo apenas que o que Jesus estabelece é a relatividade absoluta de qualquer paradigma humano. E nisso, estou plenamente convicto que, ao invés do preocupar-se com o destino dos outros ou com os mistérios que Deus tem com determinados seres humanos, é suficientemente necessário pra mim que eu me preocupe comigo mesmo. Esta é a incômoda verdade para todos nós que – por causa da presunção do “eu já estou lá” – nos julgamos os legítimos filhos de Deus.

Em Deus não há regra nem exceção. O único padrão que n’Ele prevalece é o amor, que cobre uma multidão de pecados.

Deus nos abençoe no amor de Cristo.
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