quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Momento e movimento

Momento é a parte do tempo que mais foge ao cronômetro. Movimento é a ação sob a qual a realidade se segmenta. Em todo tempo há um movimento, que no momento em que move o tempo, move também o momento para qual o tempo deixa de existir.

Enquanto há vida, há movimento. E os momentos mais vividos são as somas de todos os movimentos realizados que permitem surgir um momento. Momentos que, às vezes, brotam em nossa frente pela leveza dos movimentos, na sincronia de se deixar mover ou pela sinergia experimentada pela gente, num momento em que apenas se sente. Às vezes, todo movimento é força para nada fazer, além de deixar o momento acontecer.

Mas morte também é momento. Não é apenas quando o corpo para o seu movimento. É, sobretudo, o momento da alma em movimento. Porque na vida se morre quando é preciso se por em movimento em busca de outro momento, principalmente, quando um momento se quebra movido à forças alheias de qualquer estranho movimento.

Dessa forma, momento e movimento vivem juntos e sepultam em nós sementes que morrem para gerar vida. Não qualquer momento, mas aqueles em que os movimentos se locupletam. Movimentos doídos que se transmutam nas doçuras de um momento, momentos silenciosos que nos movem sabiamente para além das fronteiras do próprio tempo.

Tempo, cujo alento só vem quando se discerne a beleza do movimento e do momento.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Deus é amor e nada mais é necessário

Assim é o amor. Nasce despretensioso como grão de areia na praia e se estabelece com a força de um oceano. Transborda o olhar de quem vê um sorriso de criança e consegue encharcar de beleza as rugas do idoso. Caminha entre a poesia e a realidade. É decisão, porém. Nada além de ser verdadeiro ou aquém de ser sábio. É ter coragem de ser, muito antes de querer o próprio amor.

Assim é Deus. É o encontro da alma com a vida, é a síntese em mim do ser habitado pelo invisível e pela eternidade. Eu, porém, não posso contê-Lo. E não há nada que n’Ele não esteja agora mesmo existindo. Deus é o que de mim verte mais puro, e assim sou eu até contra mim mesmo. Deus é em mim e por isso eu sou n’Ele em amor. Hoje só sou o que sou porque decidi não mais ser quem sou pra ser somente o que sou n’Ele.

Amor é, não se explica. A gente só sabe quando mergulha a alma n’Ele. Digo n’Ele porque o amor não é sentimento, o amor é Deus. E quando Deus flui de nós pra fora e pra tudo aquilo que nos cerca, temos o vislumbre daquilo que É. Assim, todo aquele que ama é nascido de Deus, porque Deus é amor. Quem ama é-sendo amor pra si e pros outros.

E Deus? Deus não se explica, Deus não se prova, Deus é. E todo aquele que vai conhecendo-O só O sabe porque vai sendo n’Ele também, e discerne Sua presença não em palavras e conceitos, mas naqueles fatos entranhados e indizíveis de verdade e vida.

Assim, Deus é amor e nada mais é necessário.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Efeitos da implementação da Lei Seca no Brasil (ENEM 2013)


   A implementação da Lei Seca no Brasil revela-se mecanismo legal bastante oportuno. Dada a recente proporção de acidentes envolvendo o alcoolismo, tal ação se constitui não apenas em medida coercitiva que incide sob o preocupante fenômeno social mencionado, mas também em instrumento que tenciona reduzir o impacto imposto ao erário público, como se constata da resultante onerosa que esta mortandade precoce demanda do governo.
   Tratando-se do hábito de ingestão de bebida alcoólica, observa-se alguns fatos que elucidam o posicionamento tomado pelas instâncias de poder e sugerem os veios donde procedem tal costume social.
  Recentemente, a publicidade em torno dos produtos alcoólicos alcançou considerável crescimento por meio das mídias de comunicação, sobretudo da televisão aberta. No entanto, a propagação publicitária de tais produtos é veiculada de modo caricato e estereotipado. Em um processo sutil, a tendência da propaganda, nesta fatia mercadológica, é sugerir ao consumidor uma imagem de completo bem estar social e atração sexual ligada e advinda de seu produto.
   Existe ainda outro fator complicador. Depreendido da própria força usada na instituição da referida lei, nota-se a cultura negativa do legislativo brasileiro em inverter a logística de conscientização, instituindo leis antes de promover ações que proporcionem a reflexão por parte da sociedade. Os esforços legais mencionados estão, constantemente, desvinculados de medidas que estimulem a participação e questionamento da população.
  Logo, ainda que haja reconhecível eficácia na implementação desta lei, é necessário conjugar a aplicação do dispositivo legal a um conjunto de ações que vise instituir culturalmente a criticidade na sociedade brasileira, como condição para a efetiva transformação social e sob pena de, ignorando-se o proposto, perpetuar-se o verdadeiro anestésico da consciência humana.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Mentira, verdade e suas aparências

Num mundo cercado de luzes, imagens e anúncios, é natural que se conviva com a influência da aparência. As pessoas se habituaram a fazer das impressões sensoriais seus primeiros censores de contato com tudo a sua volta. Estética e plasticidade, hoje em dia, são padrões quase que incontestáveis de aceitação social, pelo mesmo motivo que usamos o espelho: para admirar a forma. O que surge daí é aquele ímpeto de sustentar uma imagem de impacto. Quase nunca ela é o que somos, mas sempre expressa o que, de maneira inversa, fazemos questão de esconder.

Essa fuga da realidade produz a falsificação que chamamos de mentira. Mentira é tudo o que é do lado de fora, mas não corresponde ao que é do lado de dentro. E mentir vicia. Há quem minta apenas pra escapar de uma situação difícil, mas há também quem nem saiba mais quem é, já que o seu mundinho se define pelo vício de “manipular informações mentalmente”. O certo é que nenhum de nós está imune ao fato. E todos acabamos voltando ao velho dilema ético dos antigos filósofos e grandes pensadores, que se resume na pergunta de Pilatos a Jesus: “o que é a verdade?”.

Mentira e verdade são termos de fácil apreensão, mas que, por conta do moralismo histórico/religioso no qual estamos mergulhados, se tornaram de difícil compreensão. Basta pensarmos rapidamente no oposto da mentira, como falsificação da realidade, e chegaremos à sinceridade. Mas nem sempre é ético ser sincero. Sabemos que no afã do sincerismo de sempre dizer a verdade, algumas pessoas cometem um mal pior do que se julga da mentira. São verdadeiros “sincericídios”, palavras que entram como uma britadeira de goela à baixo e acabam com a existência do outro – e tudo sob o pretexto ético da verdade. Portanto, é impossível julgar imutavelmente mentira como um mal e verdade como um bem – não pelo que aparentem. Lembre que pra Jesus as sombras estão do lado de fora, e a luz, do lado de dentro!

O fato que mais me choca, no contexto da Bíblia, é o de a mentira ter sido um meio de fazer o bem, e mais, de tornar uma prostituta uma heroína da fé. Se você não conhece Raabe (Js 2:1-3, 6:25), ela é aquela figura que põe todo o moralismo teológico desta questão no lixo. Poucos se atrevem a analisar a mentira que ela contou para salvar os espias do ponto de vista de a própria Bíblia condenar a mentira. Porém, Raabe é o exemplo de que verdade e mentira pertencem a estâncias muito mais profundas do ser. Raabe me mostra que a mentira se relativiza moralmente quando, eticamente, produz o bem e o que é vida.

Se tentarmos ser bem práticos, podemos pensar em mentira como estando em dois níveis. Muitos pensam que a mentira tem apenas a ver com o que não é real – sua falsificação da realidade. Mas, se formos bem sinceros, temos que admitir que mentimos “dentro de nós”, que é a maior mentira que cometemos: o auto-engano. Vivemos fingindo que “não foi com a gente”, que “eu é que tinha a razão” ou “pensando melhor, não foi bem assim” e acabamos criando o “mundinho pessoal da nossa mente” que já falei. O problema é que mentira tem a ver com verdade também. E realidade e verdade nem sempre são a mesma coisa.

Realidade tem a ver com o dado factual, a informação circunscrita à exatidão do espaço e do tempo, à circunstancialidade. Por isso, toda realidade é aparência. Mas a verdade não. A verdade está radicada no âmago do ser, ela é o que é pra além da aparência. E quando falamos de mentira como falsificação da verdade, aí então, encontramos o pior dos males. Não sobra nada quando se falsifica a verdade, nem mesmo o vácuo. Isto porque a mentira mata. Isto porque só a verdade liberta.

Daí então, se torna prático lidar com mentira e verdade. Verdade é tudo que produz o bem, procura a vida, mesmo quando se utiliza da mentira – informação falsificada da realidade – para fazer acontecer. É o caso de Raabe e de tantos outros, quando uma mentira se torna um mal menor do que se tornar cúmplice da morte. Por outro lado, mentira também se utiliza da verdade pra matar – e não apenas fisicamente – quando o disfarce, na realidade, acontece na intenção do coração.

Sábio é aquele, como diz o provérbio, que sabe o tempo e o modo das coisas desta vida (Ec 8:5). Não há sentido na falsificação, mas há muita sabedoria naquele que omite. Sim, a verdade liberta, mas até ela tem seu tempo e modo. Num mundo caído, cada coisa deve ser medida por sua propriedade e até a verdade precisa ser conduzida em amor pela sabedoria. É por isso que Jesus mesmo disse aos seus discípulos: “Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade” (Jo 16:12-13).

Aquele que for sábio entenda e assim haja.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Insensibilidade mórbida

Cada dia que passa mais me choco com as pessoas. Já não consigo definir até que ponto essa massa de gente que nos circunda ainda pensa, percebe, sente. Parece até que todo nosso avanço tecnológico se processa sob a imposição irrefreável de uma mentalidade de rebanho. Meia dúzia de cursos, domínio técnico de procedimentos e uma constante qualificação instrucional são suficientes para fabricar um ser humano hoje em dia. E assim se programa a nova humanidade. Mas que outra coisa é possível se tornar além de humano, a não ser desumano?

Como é sofrido ter que conviver com a legalização da indiferença. Se o outro padece, passa fome e dorme no frio da calçada, não é culpa nossa. Nunca. Já chegamos à maturidade racional de entender como ocorrem os processos sociais. Inventamos até um ente coletivo, pra podermos de maneira objetiva denunciar as atrocidades e expressar nossa ojeriza: é o Governo! Nenhum de nós é culpado. E com a transferência da culpa, vai-se também de nós toda responsabilidade, decepa-se a capacidade de sentir a dor do outro. Afinal de contas, a omissão corrupta que o Estado promove a nível geral ninguém repete no dia a dia, não é?

É insuportável ter que presenciar a virtualização das relações. Já é possível fazer transplante de personalidade com meia dúzia de fotos produzidas e frases recortadas. Mais. É possível estar em vários lugares ao mesmo tempo e conversar com um sem número de pessoas. Bem pouco é necessário pra ser muito “curtido” e ostentar uma imensa lista de contatos. Só não se descobriu ainda como se bloqueia o desagradável contato físico com pessoas de verdade, ou como se apaga do histórico as coisas que mexem com a consciência. Será que um dia algum provedor de internet vai inventar um antipoup-up pra essas coisas?

Duro é ter que lidar com a insensibilidade mórbida. Quando chegam num determinado estado, as pessoas esquecem completamente do que é vida e se desconectam do ambiente em que existem. Não lembram mais que já foram crianças incapazes, que viveram anos e anos de total despreocupação com moradia, comida, saúde e lazer à custa do suor de outros, e nem ao menos atentam para fato de que elas é que, logo logo, serão os incômodos idosos frágeis. Conquista-se independência, caem as censuras e permite-se toda insanidade. A violência é consenso pra quem só enxerga diante de si gente que não mais é gente: virou bicho, bicho que não é mais bicho: é apenas saco de lixo. Natureza morta. Será esse o concreto que sustentará o desenvolvimento sustentável?

Basta. Meu Deus, quem diria um dia? A coisa mais rara a se encontrar na terra é um ser humano. Um que, ao menos, seja humano. E você meu amigo(a), por favor, me responda. Quem não consegue se flagrar diante dessas coisas, o que é?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A morte de correntes invisíveis

Em todas as conversas que tive, de todas as palavras que já escutei, pouquíssimas foram as vezes em que a dor não foi a referência. Sofrer é, ao mesmo tempo, batalha renhida que se contorce numa fúria interna e uma torrente de angústia que vaza da alma. É um não-lugar tão obscuro aos olhos alheios que chega a ser até intraduzível. Das situações mais duras que presenciei nenhuma parece nos empurrar pra um veio tão profundo do ser. É a condição que o ser humano mais teme em vida e o encontro do qual mais deseja fugir no leito de morte.

Não posso dizer que não sofro. Sofro e muito. E é justamente por sofrer que sou humano e prossigo me humanizando. Nessa condição-ponte, que me faz ser-sentir quem eu sou e os outros, é que inúmeras vezes me deparei com a dificuldade humana de lidar com o sofrimento. Tanto por não sabermos dimensionar seu real impacto na progressão da vida, como por não entender seu significado último – o que talvez, de fato, seja a verdadeira força de todo sofrimento.

Toda dor é uma anti-sensação – sentida para ser não sentida – que por isso mesmo nos atordoa. Em seu estado natural, a dor não pode ser considerada maléfica. Ela é um mecanismo de defesa do organismo para preservar a saúde e uma proteção que mantém o alerta no ambiente em que se vive. E não vejo forma mais natural de entender o sofrimento também. Porém, o gigantismo de todo sofrer se constrói na medida de sua própria experienciação. O sofrimento constantemente se instala de maneira a induzir à sensação de que é permanente. O caos psicológico, a confusão emocional e a incapacidade racional de reação são agravantes que tornam a situação intransponível, convencendo que aquela dor não passará.

E ainda há os fulcros abertos por todas as experiências de dor. No universo humano, o sofrimento é condicionado também pela escolha. E aí jaz o trauma maior. Das dores sentidas na situação de sofrimento, certamente nenhuma se mostra mais forte e persistente do que a da culpa – reação à falência pessoal. É a sensação elástica da falha, mas é também a dor da conclusão não concluída, do se ver sequestrado pela acusação num suplício vitalício. É quando o tempo passa e parece nos arrastar com ele em correntes invisíveis. Então a dor nos inutiliza. A vida se torna uma roda de ramster e o erro se torna um carma.

Sofro, mas não da dor da martirização. O que mais me faz sofrer é a incapacidade, a indiferença e, sobretudo, a incompreensão – minha e dos outros. Contudo não, não há lamento. Sei que se assim não fosse eu talvez jamais fosse quem sou. As dores que carrego vergam na minha alma toras profundas de caráter que nenhum outro meio seria capaz. Sol que castiga o rosto, pedras que ferem os pés e espinhos que cortam o corpo são os desvios na estrada que endireitam o meu caminho interior. Afinal, o que é viver se não morrer a cada dia? E cada lampejo de vida que nasce em mim é fruto da morte. Mas vivemos matando em nós toda morte, sem perceber que assim também matamos em nós toda vida. Se existe vida após a morte? Sim, muita vida. Chego à conclusão que só existe vida de verdade quando se é capaz de morrer. É preciso morrer constantemente pra viver a vida.

Acredite, há uma paz inexplicável pra quem caminha assim. Um descanso sem travesseiro, calor sem cobertor, a companhia do Mestre. Mas é preciso morrer, morrer pra si mesmo. Decida morrer, amar menos os seus caprichos e suas carências. Decida deixar tudo isso pra trás. A fazer de Jesus, e de nada mais, sua razão diária de estar vivo. E então a graça vai brotar no seu coração. E cada experiência de dor e sofrimento será um encontro com Deus, que vai te levar a fundir-se n’Ele. Mas decida receber a graça de Deus, mesmo que ela se manifeste como sofrimento. Sem relutância nem reservas, morra com Ele a Sua morte pra viver n’Ele a vida d’Ele.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Onda de protestos que manifestam o Brasil que somos

Parece até clima de final de Copa do Mundo, mas não é. O contexto também não poderia ser mais oportuno: em meio à Copa das Confederações e no exato momento em que se inauguram os novos e modernos estádios padrão FIFA. A cerca de duas semanas, o Brasil tem surpreendido o mundo com uma série de manifestações espontâneas, que geram questionamentos e espanto, tanto por sua repercussão internacional como pela renitência do governo brasileiro em não reagir a tudo isso.

A situação em que os protestos começaram é, sem dúvida, bastante sugestiva: vamos sediar a Copa do Mundo mais cara da história. Em abril, o governo estimava um custo total de R$ 25,5 bilhões. Essa semana, porém, Luis Fernandes – secretário-executivo do Ministério dos Esportes – anunciou que o valor subirá para R$ 28 bilhões. Só o custo do estádio de Brasília já o coloca entre os dez mais caros da história. E se compararmos com outros mundiais o susto é ainda maior: o da Alemanha (em 2006) considerado um dos melhores em infraestrutura, custou R$ 10,7 bilhões, o da Coréia e do Japão (2002) R$ 10,1 bilhões e o da África (2010) R$ 7,3 bilhões. Some-se o fato de que, no Brasil, a FIFA estima faturar 3 vezes mais do que na última Copa, na África.

Da mesma forma que este fenômeno repentino causa perplexidade, ao mesmo tempo revela claramente alguns aspectos do Brasil em que vivemos hoje. Podemos notar o grande poder de mobilização que temos como povo. Conscientização e convocações iniciam-se nas redes sociais e, rapidamente, alcançam as ruas. E um movimento que começou de forma pontual logo alcançou o país inteiro. Impressiona também a objetividade das reinvindicações: do aumento abusivo das tarifas dos transportes, os protestos se direcionaram para a educação, a saúde e a corrupção política. E a tensão gerou os primeiros frutos: cerca de 11 capitais já prescindiram do aumento do transporte público.

Por outro lado, fato que insistentemente tem se repetido é o vandalismo oportunista. Obviamente, a turbulência que incomoda e lança uma sombra sobre legitimidade das manifestações é causada por uma minoria. Contudo, a violência dos protestos tem se seguido sem que seja coibida diretamente, nem pelos manifestantes pacíficos nem pela polícia. Isto se revela duplamente sintomático: mostra a grande alienação que ainda toma conta da população – por depredar aquilo que paga com o próprio dinheiro ou por se manter confortavelmente "neutra" – e prova que o momento histórico que vivemos é crítico, culminando em revolta violenta.

É oportuno falar também da nossa polícia. A grande mobilização social tem permitido notar o tipo de proteção que está a nossa disposição. Na Europa, cidadão na rua é manifestante, mas no Brasil é vândalo. Nossa polícia é excessivamente militarizada, se não tanto em sua formação, ainda muito em sua prática. Falta-lhe a capacidade de identificar o cidadão e dialogar pacificamente. E tratar cidadãos pacíficos como se fossem milicianos é o retrato mais nítido da nossa inversão ética: uma extensão de nossas casas legislativas, que tratam cidadãos como palhaços (aliás, crime hediondo deveria ser a corrupção de nossos políticos, que além de toda blindagem e aparatos de desfaçatez, ainda contam com foro privilegiado).

Ainda é muito cedo pra dizer que o Brasil está mudando, mas um novo passo foi dado. Diante do turbilhão que se levanta, resta-nos acompanhar e nos engajar. Porém, uma coisa é certa: é preciso ter VOZ pra ter VEZ. Pense e seja.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Almas antigas em tempos pós-modernos

Uma amiga minha me perguntou – num desses papos bem rápidos que a gente tem via chat em sites de relacionamento – o que eu achava dessa correria da pós-modernidade. Parei pra pensar e, mergulhado na própria correria, tentei falar para ela aquilo que transcrevo abaixo:

“Posso falar rapidamente. Acredito que essa pressa é um fenômeno experimentado em todos os tempos, mas, na sociedade capitalista, a mecanização tem causado a sensação da “aceleração do tempo”. Jesus já dizia pra Marta: “estás ocupada com muitas coisas”. E isso no Israel da Antiguidade.

Acho que a questão toda gira em torno de duas coisas: 1. A VISÃO ARTIFICIAL DA VIDA – a vida é o aqui e agora, e ganhar é sempre o objetivo máximo de cada experiência; e 2. A FOBIA DA MORTE – mesmo inconscientemente, a maioria das pessoas vive sua vida sob o medo de morrer. Como? Tudo precisa ser feito logo e toda experiência é válida e aproveitável, afinal de contas, a gente tá envelhecendo e não fazer agora é burrice, pois a morte acaba com qualquer oportunidade.

Assim, o “HOMEM PÓS-MODERNO” é um cara articulado, esperto, audacioso, que não tem tempo a perder. E não percebe que correr loucamente assim atrás de tudo é, na verdade, o PERDER TEMPO, porque o fruto disso já foi declarado: “O que adianta ao homem GANHAR O MUNDO INTEIRO, E PERDER A SUA ALMA?”.

Deus me livre de perder a minha ALMA – no sentido mais essencial da palavra – porque essa correria rouba de nós a graça, a leveza e a sensibilidade, e não apenas a vida com Deus – a salvação da alma. Por isso mesmo, são os pobres os que herdam o Reino. Eles não tem nada, só almas ricas. São os que tem fome que acabam fartos e os que choram os que encontram consolo. Porque a vida é exata e estranhamente isso.

Como saber o valor da comida sem a experiência da fome, ou do conforto do abraço sem se ver sozinho e desolado? Como saber a necessidade que se tem do Eterno, se cada segundo é medido pelo dinheiro? É a experiência da pacificação da alma, adquirida na certeza do “tudo tem seu tempo”, que nos leva ao encontro da verdadeira vida e do Deus verdadeiro”.

Acrescento apenas que – caminhando em um mundo que corre para ultrapassar a pós-modernidade – me sinto cada dia mais “jurássico”, pois insisto em carregar dentro de mim uma alma antiga: onde o tempo para e o valor de tudo não é medido por ganho ou perda, mas pelo simples fato de poder ser vivido.


Imagem:
Retrato de Florence Owens Thompson, com vários de seus filhos, após a Grande Depressão de 1929, nos Estados Unidos. Foto de Dorothea Lange.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um lugar na mesa de Abraão

A vida é inevitavelmente marcada pela repetição cíclica de muitos processos biológicos, físicos e até sociais. A rotina, os costumes e o constante apelo ao senso comum são exemplos de como nos baseamos em um “chão social” pra viver. Com razão, pensar em relações humanas é falar sobre a instituição de mecanismos que garantam a harmonia e manutenção da sociedade. Portanto, muito do que nos define é aquilo que se torna usual, cotidiano e alinhado ao padrão.

Nos evangelhos, porém, encontramos em Jesus diversos encontros que destoam do senso comum e até simbolizam total rompimento com ele. Um desses encontros, em Mt 8.5-13, nos narra a história de um centurião romano, inusitado em vários aspectos. É da boca de um chefe de exército de ocupação – naturalmente inclinado à impiedade pelas lides do seu ofício, forjado numa cultura de estrutura polimorfa, hedonista e desregrada – que surgem as palavras que ultrapassam a simpatia humana – alcançam a relação da fé. É este homem – que não era judeu, que não era filho de Abraão nem estava sob o sacerdócio levítico de Moisés, que não conhecia a aliança da circuncisão nem a lei ou os profetas – o homem que causa a inesperada admiração em Jesus.

“Nem mesmo em Israel achei fé como esta”, Ele afirma. Sim, de Israel é que se esperaria um espírito assim, mas nem mesmo ali alguém parecido foi achado. E o que se torna mais admirável é o que se segue a essa declaração. Jesus passa do plano terreno para o celestial e começa – a partir daquele encontro inusitado – a expor a natureza do céu. “Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”. Muitos, como o centurião, aparecerão naquele mesmo dia para o gozo dos filhos de Abraão, das promessas – mas, sobretudo, da fé. E o que se estabelece aqui é que nenhuma instituição ou vínculo visível pode caracterizar um filho da fé. Não é o estar em Israel, não é o ser filho do sêmen de Abraão. Jamais seria também o estar na igreja/templo, nem adotar suas confissões ou costumes. É tão somente ser do mesmo espírito desta fé.

Muitos virão, naquele dia, dos lugares mais impensáveis. De prostíbulos, centros de macumba, salas de reunião espíritas, templos satanistas, sinagogas judaicas e – por mais incrível que pareça – de igrejas evangélicas. Porque para Deus não há acepção de pessoas. De fato, graças a Deus que Ele não sofre da limitação dos nossos piedosos preconceitos. Bem assim, não se utiliza dos pálidos parâmetros humanos de julgamento. Ele tão somente é. Uma multidão de santos anônimos se levantará naquele dia e, entre eles, este centurião romano. Jesus o põe na mesa da família de Deus, junto com o mesmo Abraão, que antes tinha sido o pagão Abrão, mas veio a se tornar – por outro encontro inusitado – o pai da fé. Ele, e tantos outros párias da religião, se tornarão – para o escândalo de uns e enlouquecimento de outros – os herdeiros do Reino, e isto pela sabedoria do conselho do Eterno.

Aliás, tudo o que Jesus diz a respeito desse dia é sobre surpresa. Para os chamados “filhos do reino” – aqueles que se autoconcebem proprietários dos portais da eternidade e se fazem juízes dos segredos dos homens – a estes, é reservado o espanto das trevas, do choro e do ranger de dentes. E aqui eu tiro minhas sandálias e simplesmente me calo. Entendo apenas que o que Jesus estabelece é a relatividade absoluta de qualquer paradigma humano. E nisso, estou plenamente convicto que, ao invés do preocupar-se com o destino dos outros ou com os mistérios que Deus tem com determinados seres humanos, é suficientemente necessário pra mim que eu me preocupe comigo mesmo. Esta é a incômoda verdade para todos nós que – por causa da presunção do “eu já estou lá” – nos julgamos os legítimos filhos de Deus.

Em Deus não há regra nem exceção. O único padrão que n’Ele prevalece é o amor, que cobre uma multidão de pecados.

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A agonia de um conflito

Toda pessoa é um universo particular. Sempre existem conexões em toda ação e palavra, é só saber olhar. Falo assim de análise como interpretação, não da ação clínica profissional, às vezes fria e estigmatizante, porque é impossível viver sem traçar uma relação de percepção com o mundo. Te convenci? Não? A realidade nunca corresponde à interpretação humana. Ela é muito mais complexa.

Acredito que só o tempo tem efeito transformador sobre o tempo. Ele nos faz ver o passado por uma perspectiva diferente, tornando possível ressignificar o presente e mudar o rumo do futuro. “Tempo que com o tempo só o tempo traz”, dizia uma velha canção. A verdade dói? A ilusão anestesia. Mas só o amor é que jamais acaba. Acaso? A verdade é sempre melhor. Minha confissão fundamental é que "só a verdade liberta". E só depois de tanto tempo é que comecei a enxergar Deus fora das quatro paredes. As paredes do templo das minhas verdades de estimação.

É natural se frustrar, faz parte de um processo de transformação. A raiva é também um tipo de negação: é a força inversa do real sentido de um sentimento. Fruto apodrecido de se achar maduro, ciente do mundo, mas não o ser. Quero criar sentido, explicar o hoje. Na verdade, ainda sou um menino. Só sei que há sensações que superam as palavras. Desculpe, mas não consigo ficar confuso. Consigo errar, acertar, não entender, mas não lido bem com a confusão. Isso não é problema. Hoje o dia, com tudo e em meio a tudo, valeu à pena.

Bem, não existe a pessoa perfeita. Aliás, existe, mas só no mundo encantado. Isso sempre acontece, recorrência insistente. A gente geralmente idealiza as nossas relações. Projeta no outro nossas expectativas e se o outro tiver um pouquinho do nosso sonho encantado, colamos nele o pacote inteiro. Daí, com o tempo, vão caindo no chão os pedaços das nossas projeções idealizadas e sobra a pessoa real. É tragédia que faz todo sentido.

Talvez não se deva buscar uma explicação. Há coisas do universo humano que transcendem o espaço-tempo. E o momento mais próximo da eternidade que o ser humano pode experimentar é o instante. O momento em que tudo para, parece flutuar, nos tira do espaço e do tempo e nos faz perder a noção de tudo. Não, não será o fim. Por isso agora o mistério do silêncio.

O tempo não pode ser congelado com o passado. Talvez se insista em manter uma imagem estática, uma fotografia mórbida de um fato. Onde – no fundo, no fundo – se julgue que tal fato não mereça ser nada além do que já foi. Diante disso, não adianta psicologizar qualquer ação interventiva pra poder continuar a vida. É fato. Se isso tudo é mentira, então simplesmente não é possível existir. Sou uma projeção arquetípica de suas pulsões psíquicas mais alojadas no seu ID, mais requeridas no seu Ego e mais censuradas no seu Superego. Só gente madura tem coragem de encarar a vida.

Sempre existe um porquê. Ele existe, mas talvez não possa ser entendido. Sabe o que eu descobri? A gente vive em Deus, e quem vive em Deus, vive no absurdo. Se Deus pudesse ser explicado, entendido, dissecado em laboratório, deixaria de ser Deus no mesmo instante. Por isso eu aceitei o absurdo. Aceitei que não sou capaz de entender. E olhe que eu não acho que tenha uma mente tão limitada assim. Pelo contrário, sou grato pelo que me foi dado. Mas não existe ser humano no mundo capaz de explicar o absurdo. A vida é um grande ato de fé. Fé de que a coisa mais lógica que existe é crer no absurdo de uma vida sutilmente guiada por nós e por um Criador. Quando se desiste de entender, se descobre a alegria de se deixar ser discernido.

Tempo, só o tempo ensina. Tenha coragem de aprender com o tempo, se não, inevitavelmente, você só poderá perdê-lo.

(Texto dedicado a uma surpresa inexplicável).

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cátedra vazia, lacuna na consciência

Início de ano incomum. Cientistas ingleses descobrem a maior estrutura jamais vista no universo, enquanto um meteoro explode no céu da Rússia e fere centenas de pessoas. Governos em todo mundo definem sua sucessão política e o Brasil conhece uma das maiores tragédias de sua história, num incêndio em Santa Maria. Em pleno carnaval brasileiro, a notícia da renúncia do Papa Bento XVI surpreende o mundo, causando espanto e questionamentos.

O impacto da decisão de Bento XVI é facilmente compreensível, notável no silêncio mórbido de alguns segmentos da sociedade e na vociferação de outros. O Vaticano é a sede de uma das instituições mais antigas e influentes do planeta, possuindo ramificações em todas as partes do mundo. Contando com mais de 1 bilhão de fiéis, o catolicismo romano é uma das religiões mais centralizadas em estrutura, constituindo também um Estado politicamente reconhecido e independente, organizado como cidade do Vaticano, no centro de Roma, e referido pela diplomacia internacional como a Santa Sé.

É aí que se justifica o clima de suspense. Trata-se, portanto, de uma lacuna aberta a múltiplas implicações. Bento XVI tem enfrentado uma série de desafios no curto período de seu pontificado. Escândalos de pedofilia, especialmente nos Estados Unidos – que receberam tratamento superficial e custaram milhões em indenizações à Sé romana – dificuldade em tratar de temas seculares e incapacidade de diálogo com outras religiões – sobretudo o islamismo – podem ser apontados como as causas imediatas da renúncia. Contudo, em meio aos problemas de saúde e a admiração ufanista de seu altruísmo e coragem, Bento XVI revela ao mundo razões súbitas e forças ocultas que o levam a deixar a cátedra papal vazia.

O Vaticano é um Estado, e o Papa, antes de ser líder de uma religião, é um chefe de Estado. E como todo Estado, não pode escapar a todos os interesses, conflitos e contradições envolvidos no controle do poder. Bento XVI denuncia em sua retirada, ainda que sutilmente, a falência interna de um sistema. Disputas, hipocrisia e falta de transparência são as palavras que ele usa para definir o nível da corrupção e politicagem. Temas nunca resolvidos pela igreja que agora afloram, mas que se tornaram parte de seus alicerces.

Mas antes que se pense em atacar e defender partidos, creio que a circunstância histórica que presenciamos revela não uma crise particular do catolicismo romano. Na grande conexão sob a qual vivemos, nos vemos todos mergulhados numa crise do ser. Um colapso global que atinge a integridade e validade das instituições, sejam religiosas, políticas ou sociais. Vivemos numa crise ética. Democracia não é sinônimo de liberdade, cidadania não garante direitos, religião não é a prática do amor. A cátedra vazia é o símbolo da lacuna aberta na consciência coletiva, que se desdobra num verdadeiro abismo na consciência de cada indivíduo.

A grande lástima é que nenhum pontífice está à altura dessa responsabilidade. Nenhum conclave pode determinar os rumos da história. Nenhuma reforma é suficiente pra alterar um quadro que exige uma revolução em cada ser humano. No fim das contas, Bento XVI  – ou o simples Joseph Alois Ratzinger – nos lembra que não se pode enfrentar a máfia – seja lá com que cara e onde ela se apresente – sem se tonar um mafioso. Ou há de se fugir dela, ou se acaba unido a ela, mesmo aos poucos, numa entrega homeopática de consciência. Mas Jesus mesmo não foi militante, nunca propôs um projeto de tomada de poder. Nele, não há sentido em engajar-se num cemitério.

Enquanto muitos esperarão a escolha do novo Papa e suas novas propostas, seguirei a proposta simples do evangelho: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, para que não incorras nas suas pragas” – Ap 18.4. Continuarei também saindo, toda vez que se tornar insuportável a convivência com a mentira, abandonando as relações que não se deixam mais influenciar pela simplicidade do amor e me desligando das convenções instituídas pela maldade, das tramoias combinadas na surdina, da vantagem imediata de se corromper. Início de ano incomum. E infelizmente, lacuna na consciência cada vez mais comum a todos.

E você, o que vai fazer? Fica ou escolhe sair?

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sociologia da solução

O século XIX foi um século marcado por transformações que mudaram o jeito como a humanidade enxerga o mundo. Precedido por uma revolução dupla – a Revolução Industrial de 1760 e a Francesa de 1789 – abriu espaço pra questionamentos que buscavam entender o novo tipo de sociedade que se construía a base de aço, eletricidade e petróleo.

Justamente neste século, o mundo viu o nascimento das chamadas Ciências Sociais. Diante das transformações que a industrialização provocava nas cidades e na vida diária das pessoas, no olhar de estranhamento dos europeus pra com os povos colonizados na África e Ásia, surge a necessidade de se entender como os seres humanos vivem em sociedade.

A Sociologia é a tentativa de entender a relação humana mais fundamental – como o indivíduo se relaciona com o outro e consigo mesmo. Ao lado de ramos como Antropologia, Direito e Economia, ela procura compreender como as sociedades humanas se formam e como se mantém. Mas falar de sociedade é impossível sem lembrar-se de três pensadores clássicos da Sociologia: Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. Eles são fundamentais não apenas por terem proposto as primeiras bases e métodos da sociologia como ciência, mas por terem abordado temas que ainda são imprescindíveis no entendimento da sociedade contemporânea.

Durkheim foi um discípulo inconformado de Auguste Comte, pois afirmava que o positivismo tinha falhado na pretensão de neutralidade científica. Ele, contudo, mantém a análise coletivista da sociedade e a enxerga como um grande organismo, onde cada indivíduo tem uma função social. Por isso, sua sociologia é chamada de funcionalista. Durkheim afirma que a sociedade é uma entidade tão poderosa que se sobrepõe ao indivíduo sempre – que ele propôs ser possível de perceber no que chamou de “fato social”.

Fato social é tudo aquilo que é externo ao indivíduo, age sobre ele por coerção e se encontra em toda sociedade. A junção dos fatos sociais é o que torna a sociedade unida, ou solidária, mas Durkheim também propôs que conjuntos de valores em choque dentro de uma mesma sociedade podem gerar a anomia – a dissolução da sociedade. Como a sociedade capitalista ainda permanece, apesar de todas as suas contradições, isto nos leva a questionar seu pensamento.

Karl Marx é um feroz crítico da sociedade industrial, pois percebe que as relações sociais que se formam nela não são apenas desiguais, são também disputas de poder conflituosas. Marx analisa a sociedade pelo seu elemento mais básico – a produção de mercadoria – e propõe que é a forma como o homem domina essa produção material que determina a sua existência histórica. Desta forma, sua sociologia é conhecida como materialismo histórico. Toda mercadoria necessita de meios para ser produzida, toda forma de produção precisa do controle de alguém. Então, Marx vê a sociedade dividida entre aqueles que controlam os meios de produzir mercadoria e aqueles que nada tem, a não ser sua força de trabalho para negociar – burgueses e proletários.

Como esta relação não é apenas objetiva, mas também se apoia em construções e justificativas ideológicas, a revolução é a única forma de se mudar a sociedade para ele. Chegará um momento na história em que a própria sociedade capitalista oferecerá os meios dessa revolução, pela união de todos os proletários numa violenta tomada de poder, para instaurar a sociedade comum – ou comunista. O problema é que a profecia de Marx não aconteceu e as experiências socialistas não deram certo, o que também tem levado seu pensamento a ser questionado.

Por sua vez, Max Weber é oposto de ambos. Ao invés de sobrevalorizar as instituições sociais ou o conflito vindo delas, ele propõe que a sociedade é um aglomerado de indivíduos. Cada indivíduo tem atuação de extrema significação para a sociedade, de maneira que essa só pode ser compreendida na análise da relação entre os indivíduos. Assim, a sociologia de Weber é chamada de compreensiva. Daí, o mecanismo de compreensão do indivíduo é a ação social – tudo o que alguém faz ou deixa de fazer tendo como referência os outros – o que Weber chamou de “ação reciprocamente referida”.

É da reação às ações e da interação entre indivíduos que surge a relação social. Para Weber, as relações sociais são geradas pelas ligações significativas entre as ações sociais individuais. As ideias coletivas existem pela reciprocidade de ação entre indivíduos dentro da sociedade. Weber tem se tornado um dos mais influentes pensadores, mas sua sociologia é muito mais compreensiva do que propositiva, o que nos leva a questionar seu pensamento também.

Isto tudo me leva a pelo menos duas conclusões. A primeira é que tornamos incapazes de compreender as causas essenciais de nossa própria degradação. Tais causas ocorrem por processos sutis e envolvem todo tipo de produção humana, adoecida até mesmo em sua pretensão de conhecimento e poder. Em consequência disto, a segunda é que nos encontramos em um estado lamentável de inaptidão para mudar. Avançamos em ciência e tecnologia, mas não distribuímos riquezas; produzimos conforto e sofisticação, mas não conseguimos parar de destruir o planeta; exploramos o espaço, mas não amamos o próximo. Acumulamos mais e mais formas elaboradas de explicação, mas nenhuma forma eficiente de solução.
Cada vez que o surto humano se manifesta aos olhos de todos, comprova-se que a transformação social nunca veio nem virá por via externa, mas que precisa ocorrer numa experiência pessoal, dentro de cada indivíduo. E se a força coletiva da sociedade tem falhado assim, isso só reforça a minha convicção de que Deus é - e sempre foi - o único caminho para uma sociedade mais digna e justa.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Thalles Roberto agora virou boneco

Aonde se chegará, afinal? Perdoem-me os politicamente corretos, mas não posso ficar calado. Sim, aonde se chegará, porque nunca abracei o desejo narcisista de ganhar visibilidade na mídia secular - o eterno “sonho gospel”. Nunca me prendi “em nome de Jesus” à megalomania ideológica nenhuma de conquista do universo. Nunca quis nem quero ser outra coisa, a não ser o simples ser que semeia, sem saber o que acontecerá com a semente – um “filho do Vento” (Jo 3.8).

Foi com desgosto que soube do surgimento de mais esta loucura. E ela se refere ao novo “fenômeno” do segmento gospel: Thalles Roberto. Isso mesmo, Thalles Roberto agora virou boneco. Pare um pouco e reflita: O QUE LEVA UMA PESSOA QUE DIZ CRER EM JESUS A FAZER UMA IMAGEM DE ESCULTURA DE SI MESMA? As palavras não são minhas, mas as repito sem hesitação.

O “Thalleco” é a ilustração mais visível da desgraça que se alastra no antro do coração da nossa cristandade. Música virou hit, adoração virou exibição técnica, e finalmente, “levita” virou ídolo – ainda que pareça “humíldolo”. E carregados nessa onda gospel vão milhares de “consumidores da fé”, comprando, idolatrando e se “bonequificando”. Afinal, é esse o resultado da idolatria: “Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem, e quantos neles confiam” (Sl 115.8).

Meu repúdio ao mercado gospel não se surpreende com mais um surto. Minha oração é pelo pastor-cantor-boneco (que a si mesmo faz boneco num mercado de ovelhas-fãs-idólatras), pedindo a Deus que o leve a se enxergar e ver o mal que faz a si mesmo e a tantos outros que o cultuam.

Deus tenha misericórdia de seu povo, no amor de Cristo.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...