sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Viajantes do espaço-tempo

Passam os anos e logo mudam os lugares e as pessoas. Desde que existe mundo, tempo e espaço traçam os limites de nossas existências. Mais do que isso até, sintetizam o que todos somos: seres ambiguamente livres em nossas contingências, mas também presos a elas. Imagens, ideias, sentidos e significados são nossa constante tentativa de fazer o link entre a imaginação e a realidade. Mas, e se a distância entre a fluidez da mente e a inércia física fosse apenas uma ilusão? E se esta viagem que cada um de nós faz entre o nascimento e a morte fosse algo muito além do que podemos ver?

Nada nisto é novo. Em 1905, Albert Einstein propôs uma das teorias que mais revolucionaram nossa forma de enxergar a realidade. É verdade que, desde Isaac Newton, entendemos o universo como uma espacialidade uniforme, regida por leis naturais universais. Newton acreditava que as mesmas leis universais que explicam o movimento dos planetas explicariam nossa relação com o espaço e o tempo. Tudo obedeceria a uma linearidade absoluta. Einstein, contudo, descobriu que não é bem assim. Ele percebeu que espaço e tempo não são independentes. São dimensões inseparáveis, que ele chamou de “contínuo espaço-tempo”. Isso porque a percepção do tempo muda – isso mesmo, muda – de acordo com nossa localização no espaço e a velocidade com a qual nos movemos. O que Einstein descobriu foi que o tempo não é igual para todo mundo: cada ser possui seu tempo particular.

Nossa dificuldade em perceber tal realidade está na baixa velocidade com a qual nos movemos. Quando se toma como referência a velocidade da luz – cerca de 300.000 km/s – se percebe melhor a ligação entre tempo e espaço. Por exemplo, sabemos que enxergamos apenas aquilo que a luz reflete aos nossos olhos. Mas a própria luz do sol leva cerca de 8 minutos para viajar até a Terra. E nós levamos cerca de 1 bilionésimo de segundo para ver o que está a 30 cm dos nossos olhos. Desse modo, para onde quer que olhemos, estamos sempre olhando para o passado. Porém, isso é mais profundo. De acordo com Einstein, o tempo é como o espaço. Já que cada parte do espaço existe aqui e agora, cada parte do tempo existe aqui e agora também. Assim, passado, presente e futuro são igualmente reais. O futuro existe tanto quanto o presente e o passado.

Entretanto, essa viagem é muito mais ampla. Em 1900, ao estudar a radiação eletromagnética, Max Planck lançou as bases do que conhecemos hoje por Física Quântica. O que ele e depois Einstein, Bohr, Dirac e tantos outros observaram é que nenhuma lei da física clássica se aplicava a moléculas, átomos e partículas subatômicas. O universo subatômico é totalmente imprevisível. Se no macrouniverso é possível determinar a posição e velocidade de todas as coisas – como onde eu e você estamos agora – no microuniverso isto é impossível. Esta impossibilidade de atribuir posição e velocidade exatas a uma partícula gerou o que Heisenberg chamou de “princípio da incerteza”. Mas o universo que conhecemos não é feito de átomos? Admitindo isto, a matéria deixa de ser algo estático e previsível. Já não há mais como considerar as condições materiais suficientes para explicar os fenômenos físico-humanos. Todo o determinismo se dissolve em probabilidade.

Existe ainda outro fenômeno impressionante no mundo quântico. Em 1970, David Bohm desenvolveu o conceito de “ordem implicada” ou implícita. Para ele, a totalidade da realidade existente é abrangente demais para ser manifestada a nós no espaço-tempo. Apenas uma parte dela se manifesta – que ele chamou de “ordem explícita”. Porém, a ordem mais profunda, a partir da qual o espaço e o tempo se tornam explícitos, estaria envolvida nela implicitamente – onde as partículas se ligam de maneira interdependente. Se cada um de nós é um conjunto de átomos, que formam células para formarem órgãos e comporem o que somos, chegamos a conclusão de que, a nível subatômico, vivemos sob uma interconexão em escala global – um universo integrado. A implicação disso é que o espaço-tempo não seria a realidade, mas apenas uma camada de realidade da realidade.

E Deus é em quem tudo isso acontece. “Nele vivemos, nos movemos e existimos” é a incrível afirmação de Paulo, pregando no Areópago grego (At 17.28). O que a revelação de Deus em Cristo nos faz entender é que não há sequer uma partícula subatômica no universo que não exista em Deus, porque “nele tudo subsiste” (Cl 1.17). O engatinhar de teorias científicas no mundo semi-invisível da física quântica tem concebido a materialidade como dimensão cada vez mais volúvel e a espiritualidade como dimensão cada vez mais concreta. Deus é o Absoluto – em quem passado, presente e futuro acontecem em simultaneidade incompreensível – e tudo mais se torna relativo diante Daquele que se autoidentifica por eternidade infixável: “Eu Sou” (Êx 3.14). Nós, seres humanos, presos ao esmagamento do espaço-tempo, somos tão somente viajantes transitando em meio à multidimensões visíveis e invisíveis. Contudo, a maior constatação possível ainda está para acontecer: a de que matéria e espírito, razão e fé sempre estiveram unidas, na consciência daqueles que possuem a “convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1).

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

Referências Bibliográficas e Vídeo-iconográficas:

EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
DALÍ, Salvador. Soft Watch at the Moment of First Explosion. Museu Salvador Dalí, St. Petersburgo, Flórida: USA. Tinta em papel. 1954.
GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO – Episódio 03: Viagem no tempo. Science Channel: USA. 2010.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...