terça-feira, 3 de julho de 2012

Lágrimas que regam a existência


Então, lá estava aquele texto em minha frente: “E morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada ao pé de Betel, debaixo do carvalho cujo nome chamou Alom-Bacute” (Gn 35.8). Frequentemente, estes textos não usuais me chamam muito a atenção, e logo procuro por seus detalhes. Quem seria esta “ama de Rebeca” e por que a sua morte foi narrada de maneira tão forte? Por que uma dentre tantas servas mereceu tamanho destaque? E por que isto ocorreu justo quando Jacó voltou à Betel, local onde tinha encontrado a Deus face a face?

A única coisa que sabemos dessa Débora é que ela era a ama de Rebeca – mãe de Jacó – e que a tinha acompanhado desde que ela saíra da casa de seu pai Betuel para casar-se com Isaque (como se supõe de Gn 24.59). Matthew Henry afirma que Rebeca provavelmente já havia morrido quando Jacó voltou pela primeira vez à Hebrom para encontrar Isaque, seu pai. Mas Débora, sua antiga ama, ainda estaria viva e ele a teria levado consigo para ser companheira de suas mulheres e instrutora de seus filhos. Aqui em Gênesis 35, enquanto eles estavam em Betel, ela veio a falecer, e sua morte foi grandemente lamentada. Na verdade, ela foi tão lamentada que Jacó chamou o carvalho sob o qual a enterrou de Alom-Bacuth – "Carvalho das lágrimas".

A morte é a última experiência que qualquer um quer conhecer de perto. Mas ela não conhece preconceito, nem hora e nem lugar. Porém, o que me impressiona neste versiculozinho é a força impactante da realidade que ele contém. Betel – a “Casa de Deus” – vira também o local de Alom-Bacuth – o “Carvalho das lágrimas”. E o El-Betel – “Deus de Betel” (Gn 35.7) – continua presente, o mesmo Deus que havia recebido os sacrifícios de Jacó, quando este chegou ali. Uma mistura de paradoxos, uma síntese de contradições e uma chuva de perplexidade convergem para este carvalho. É o momento em que a fé se torna o fiapo que nos une ao Eterno. Situação em que as palavras perdem o significado diante dos fatos. Ombros se tornam curtos e os minutos passam rasgando a alma. Sobram apenas as lágrimas. Pasme. É Deus falando do meio de um redemoinho (Jó 38.1).

Esta desconhecida Débora é uma figura ímpar na história patriarcal. Ela era apenas uma ama, serva dada para o auxílio vitalício de uma mulher daquele tempo. Porém Jacó possuía uma ligação tão vital e encarnada com aquela ama de sua mãe que ele chora sua morte como se ela fosse sua própria mãe. Do mesmo modo, Deus põe algumas dessas pessoas cativantes em nossas vidas. Há pouco tempo, perdi uma irmã em Cristo que eu considerava como uma mãe também. Ela era tão simples e meiga que me conquistou sem esforço nenhum. Eu me lembro de descer as escadas do Templo e a encontrar com aquele sorriso lindo de sempre, vindo me abraçar com um carinho tão gostoso, e me abençoar com as palavras e orações que ela costumava me dizer. Nunca tive a oportunidade de sentar com ela e conversar um bom pedaço, mas sou muito grato a Deus por tê-la conhecido. Mesmo que não se possa ver, eu a coloquei debaixo de um lindo carvalho em meu coração, e todas as vezes que lembro daquele cotoquinho de gente vindo me abraçar, rego o carvalho com lágrimas (...).

E lá estava Gn 35.8 em minha frente. Este costume hebreu de enterrar seus familiares em baixo de árvores me ensina uma lição simples e única. Tão visível e inamovível como um carvalho é, assim o é também a morte: ela não pode ser adiada, evitada, nem mesmo esquecida. Para aqueles que perdem uma parte de si mesmos com ela, nunca haverá transplante, enxerto ou compensação que a remova. Ela sempre estará ali, no caminho, lembrando-nos e nos fazendo voltar, mesmo enquanto seguimos à diante. Contudo, como árvore, a morte pode ser ressignificada como vida, e o tipo de vida que, aquele que foi, agora experimenta em toda a sua exuberância, frondosidade e frutificação. Se nós que habitamos a “esfera das raízes, pó e sombras” nos sentimos vivos, imagine aqueles que dão “o salto eterno para as profundezas do amor de Deus”?

O carvalho é emblema de uma existência em transição. Existência que não foge à dureza da realidade. Realidade que, por vezes, será discernida como lágrimas que regam a existência, não por conveniência ou por subserviência, mas por consciência. Consciência de que devemos crer e não ser egoístas a ponto de querer prender alguém a esta existência opaca e caída, enquanto lhe foi dada a manifestação da verdadeira vida em Cristo (1Tm 6.19). Se tivéssemos o mínimo vislumbre da essência do céu – não o céu do flanelógrafo das lições empoeiradas da igreja – mas o céu que é fundir-se pra sempre em Jesus e encontrar o prazer indizível que foge às nossas bobas capacidades sensoriais, enfrentaríamos a morte de maneira mais sóbria, mais humana, mais terna. Não sem dor nem choro, mas com inexplicável gozo e gratidão. Por isso, planto em mim todos os que fazem quem sou e regarei com lágrimas de alegria e sorrisos de lamento tudo o que são em mim. Porque o que foi cortado é levado pelo vento, mas o que foi plantado permanece com a força de um carvalho, por toda a vida, até que a verdadeira vida nos faça encontrarmo-nos eternamente no Amado.

(Texto dedicado à muito amada irmã Leninha, que agora vive eternamente no Senhor).

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

3 comentários:

Brunna Stefanya disse...

Pra variar, muito bom...
Amei!

NADJA disse...

Toda vez que venho tenho a certeza de que algo de edificante sera plantado no meu coração! Admiro sua visão em relação a determinados assuntos, que fazemos questão de não olhar, para não sermos confrontados!! Parabéns meu filho!!!kkkkk Se cuida!!

Paulo Duarte disse...

Cada vez melhor meu amigo, a sua sensibilidade e conhecimento sobre abordar textos da bíblia que na maioria das vezes passariam sem serem notados é fantástica.
Parabéns e que DEUS te abençõe ricamente.
Paulo Duarte

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