sábado, 5 de maio de 2012

Um fariseu dentro de nós

Naquele domingo, resolvi sentar em lugar diferente no templo de minha igreja. Eu não estava escalado para as habituais atividades do louvor e, por isso, tive um culto diferente, visto de outra perspectiva. Comecei a notar, do meio do templo, as pessoas chegando e se ajoelhando em oração, o pessoal do louvor tomando suas posições, a bela estrutura que impunha reverência. Senti-me em outro lugar. Na medida em que liamos os textos e cantávamos os hinos, fui me questionando sobre a forma como regularmente, culto após culto, eu fazia aquelas mesmas coisas. Foi então que me veio a dúvida: "Será que mantive um coração sincero todos estes anos?"

Na mesma semana, estudando a história dos hebreus, fui surpreendido pelo texto de Isaías 1. Este capítulo é bombástico. Sem o romantismo da chamada ou preocupação com cronologias, Isaías já começa com uma profecia condenatória, denunciando Israel como povo obstinadamente corrupto. Trocando o culto por um ritual hipócrita, suas reuniões religiosas são descritas como uma maquiagem para a corrupção (vs. 11-15). Nada além de ritos haviam sobrado de uma santa tradição de separação e privilégio. Mas, me permita perguntar: porque o ritualismo é assim tão detestável para Deus?

É preciso tentar entender o que é o ritualismo. De certa forma, todo ritual se constitui na redução da religiosidade aos seus suportes mais básicos, mais superficiais. Ele é, em outras palavras, uma sacralização de coisas, pessoas e costumes, tirando-os do uso normal e lhes atribuindo um "status sagrado". É como se fosse conferido um tipo de santidade própria, inerente, esquecendo-se que ela provém de Deus e só a Ele pertence. Nasce aí o rito. Num processo que não é possível analisar aqui, lentamente estes ritos vão sendo aceitos como prática comum e se estabelecem oficialmente na sociedade. Daí em diante, o ritual deixa de ser a "forma básica de uma religiosidade maior" e passa a ser a própria "forma verdadeira da religião", se tornando mais complexo e rígido.

Como mostra a história de Israel, o perigo do ritualismo é que ele nos faz inverter as coisas. Priorizam-se trivialidades – tais como horários, tipos de roupa e comportamentos – ao invés das essencialidades, como se aquelas fossem, de fato, a expressão externa da verdadeira adoração à Deus. E não há na Bíblia uma figura mais didática para o ritualismo que os fariseus. Eles nos fazem compreender como o ritualismo está ligado à corrupção da espiritualidade. Assumindo o rito, o fariseu é descrito como completamente mecânico. Coisas a fazer, regras para se observar: viver se torna o “seguir o script”. Ele é a pessoa cuja mente foi divorciada do coração, sobrando um ser pragmático e insensível. Seus atos são praticados como meras convenções – como se as intenções em nada os alterassem. Para ele, o rito oferece a aparência "politicamente correta" da qual tanto precisa para ser respeitado na sociedade, sem ter necessidade de se expor de forma demasiada.

Pior ainda é que o fariseu mostra como o ritualismo o distancia da própria realidade. Ele vive tão convicto da eficiência de seu costume diário, tão seguro de sua “santidade adquirida” que não consegue mais enxergar quem é de fato. Uma crosta muito grossa de modismos limita sua percepção e atrofia sua autoconsciência. Ele cria, então, um perfeito “eu-fantasia”. É aí que o olhar cai sempre no lado de fora. Vive sempre concentrado no método, na aparência e no concreto. Vira o objeto de sua própria adoração. O resultado é que não resta ninguém além dele, a não ser que seja igual a ele. Assim, os fariseus são sempre os primeiros a acusar os verdadeiros discípulos (Lc 6.1-2). Infelizmente, zelo sem entendimento não é nada (Rm 10.2). Normalmente, o resultado deste rigorismo todo é a quebra do décimo mandamento. Os evangelhos mostram estes homens como tomados pela cobiça (Lc 16.14) – porque, enfim, viver do esforço pessoal tem que ser lucrativo.

É por isso que o ritualismo é a detestável religião das aparências – “a espiritualidade do faz de conta”. Mas não se engane. Esta é a nossa realidade. Nossa sociedade se preocupa muito em manter um aspecto de integridade e honra, mas pouco faz para viver o que aparenta. O real entre nós acontece sempre por trás de máscaras sociais. E especialmente nós, cristãos, – que vivemos em “ambientes sagrados” – possuímos cadeira cativa no “palco das teatralidades da alma”. Como afirma Caio Fábio: “Nós nos tornamos discípulos dos fariseus e negamos o evangelho de Jesus. Nós nos tornamos idólatras daqueles que mataram a Jesus. Nós somos pastoreados por aqueles que perseguiam a Jesus. Nós somos filhos na fé daqueles que questionavam a Jesus, de tal modo que a igreja é a cara dos fariseus e totalmente diferente de Jesus”. A verdade é inegável. Afinal, quem seria louco a ponto de conviver com pessoas que batem no próprio peito, não tendo vergonha de esconder suas fraquezas diante da sociedade (Lc 18.13)? Deus? Porém, que todos lembrem: Deus não se deixa enganar. “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação” – diz o Senhor em Lc 16.15.

Naquele domingo, percebi que o que tem me sustentado todos estes anos não é o participar de ministérios, ter cargos destacados ou entoar hinos antigos com técnica apurada. Não é o possuir excelente dicção para declamar versículos ou retórica para explicar textos bíblicos. Lembrei-me que é preciso curvar mais que joelhos e cabeças para adorar a Deus e que de nada serve o embelezar templos com granito e mármore. O que tem me sustentado é o coração. Não eu, mas o que o Espírito faz ali em mim. E a minha responsabilidade é não ritualizá-Lo, mas “deixar os rios de água viva jorrarem para fora” (Jo 7.38) – pois Ele não pode ser preso nem constrói represa. Sim, é preciso amar a Deus de todo o coração, sem fingimentos, com uma alma rasgada e um espírito quebrantado (Jl 2.13; Sl 51.17) porque este é o maior mandamento (Mc 12.30). Que os rios fluam, mesmo que, ao saírem de mim, a impureza do barro fique visível na cor da água.

Mas não para aí. A verdadeira adoração honra a Deus onde Ele estiver, ainda que se apresente a nós na face do próximo (Mt 25.34-46). Por isso, não existe espiritualidade válida onde se engana e despreza o outro. A adoração a Deus acontece também no amor ao próximo, que é a Sua imagem, porque este é o segundo mandamento (Mc 12.33). Ela extrapola as paredes dos templos e acontece na vida diária do filho de Deus, de modo que sua existência é o próprio culto. E num mundo onde o próximo está cada vez mais distante, amar a Deus no amor este próximo se torna missão. Adoração é o amor a Deus posto em ação. Sem atitudes não existe amor a Deus e, sem amor, tudo o que sobra é mera “a-tu-ação” (o espetáculo que promove a nós mesmos – 1Jo 4.20, 1Co 13), de tal maneira que “dentro e fora” são inseparáveis. E se assim não for, poderemos até exibir um santo no lado de fora, mas teremos um fariseu dentro de nós. A Igreja somos nós, individualmente membros de um corpo de muitos (1Co 12.14, 27). O templo é o meu corpo indo ao encontro dos homens (1Co 6.19; 2Co 4.10). E a verdadeira adoração não possui limites (Jo 4.20-24). Só nos resta concordar com Isaías: até quando, Israel, tentarás ludibriar Deus?

Deus nos abençoe no amor de Cristo.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...