domingo, 12 de fevereiro de 2012

O joio e o trigo, a terra e o fruto

Se ainda persistem mistérios nas relações que cercam os seres humanos – sejam elas emocionais, físicas ou psicológicas – com certeza um dos maiores deve estar na imagem que construímos uns dos outros. Mais do que muitos estão dispostos a admitir está o fato de que somos extremamente afetados pelo próximo em nossa autopercepcão. Talvez a questão não seja tanto o quanto do outro me influencia – pois o bombardeio que sofremos é intenso e ininterrupto através da mídia, do ambiente de trabalho, do círculo de amigos e por aí vai. Pra mim, trata-se muito mais que meras alterações no modo de pensar e agir do dia a dia. O que me intriga mesmo é o quanto de mim define quem é ao meu lado e vice-versa.

Não, não é erro de concordância verbal. Quem é e não quem está ao lado, leia-se. Falo do ser, da alma, do que define a própria humanidade humana – desculpe-me a redundância. Refiro-me ao caráter, tal como Cristo expôs na parábola do joio e do trigo. Ali, vemos o Mestre revelando a realidade humana com clareza chocante. O joio, o trigo, lado a lado na mesma terra. Um se definindo em oposição ao outro, mas, ao mesmo tempo, sendo visivelmente indistinguíveis. O joio, diz a parábola (cf. Mt 13.24-30), aparece oportunamente quando a erva cresce e dá fruto. O trigo fica de tal forma cercado por ele que a tentativa de separá-los seria mais danosa que a própria erva daninha o é. E assim convivem.

Da terra brota o fruto, a sutil diferença. O joio se passa por trigo, sufoca-o e se possível arranca-lhe para fora as raízes. O trigo, porém, procura o pó no fundo da terra, buscando experimentar uma mortificação mais intensa a cada dia, para que assim, possa dar muito mais fruto. Quem, porém, pode determinar quem é quem? Como não arriscar queimar o trigo novo e frágil enquanto se recolhe joio robusto? A relação conflituosa entre ambos deve existir para que o trigo, como semente, não se esqueça que tem que morrer. O joio, porém, deve se lembrar que sua farsa não poderá alterar seu destino. O joio, por mais vistoso que aparente ser, jamais será trigo. Nada lhe resta senão a foice e a fogueira.

O mistério é a verdade pura e dura de que somos quem somos no final das contas. Não existe engano, nem engodo, máscara ou mal entendido. É possível fingir ser o que não é, mas não se pode fugir de si mesmo. Aquele que sabe quem é ou não tem a pretensão de ostentar a si mesmo – porque é trigo – ou se recusa a realmente se mostrar como é – porque é joio. Assim permanece o silêncio. Contudo, o fim chegará para ambos. Como diz um antigo provérbio: "Semeie um pensamento e colha um ato. Semeie um ato e colha um hábito. Semeie um hábito e colha um caráter. Semeie um caráter e colha um destino". O joio e o trigo, a terra e o fruto. Cada vida foi lançada à terra a seu tempo. Cada erva segue o curso de sua própria natureza. Mas o mistério de quem somos na verdade só será revelado por Deus, Aquele que é.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

1 Comentário:

Míriam Lima disse...

Já tava com saudade de ler os seus textos,Herisson!Eles edificam,confrontam...Rsrsrs
Que Deus continue a usá-lo através desse blog.

Abraço!

=D

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário! Ele é um meio de você contribuir com este blog e uma avaliação muito importante pra mim.

Comentários com conteúdo ofensivo, que não estejam relacionados com o post ou que peçam parceria não serão publicados. Comentários de "anônimos" não serão necessariamente postados.

Fique na paz.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...