sábado, 8 de dezembro de 2012

E Deus se fez ... menino?

“Um menino nos nasceu ...”, assim anuncia a profecia sobre o Cristo que viria ao mundo (Is 9.6). Natal é época em que a história de Jesus é de novo lembrada pela humanidade. O “menino Jesus” vira suvenir de mercado e o pagamento anual de isenção de consciências culpadas. Contudo, o impacto da encarnação de Deus entre nós é muito pouco compreendido.

No Menino, Deus instituía historicamente uma relação de salvação baseada no paradoxo. “Da boca dos pequeninos suscitaste força” (Sl 8.2) – de uma criança de peito se levanta a fortaleza para esmagar impérios infernais. Sob a impotência da mais frágil condição humana, o Criador faz surgir o triunfo sobre principados e potestades, tronos e soberanias. Eis o doce sarcasmo divino: “a fraqueza de Deus é mais forte que os homens” (1Co 1.25).

Cristo, Menino-Homem-Deus, era o emblema do ato mais chocante do Eterno. O infinito habita o limítrofe e o finito é tomado de imensurabilidade. O Menino é o evangelho encarnado na mais pura verdade do Verbo: da menor das sementes se ergue a árvore mais frondosa, que é capaz de abrigar multidões sob sua sombra (Mc 4.31). Desde então, a inversão absoluta de valores se estabelece. A relação entre Deus e homens se faz eternamente absurda.

Arrependei-vos, porque é chegado o Reino! Reino em que o menor de todos é que é grande (Lc 9.48). Onde o pobre é rico, o faminto é farto e o que chora, sorri (Lc 6.20-21). Reino sem território geográfico, sem aparato constitucional, jurídico ou econômico, mas espalhado em amor nos corações pela face da terra, pulsantes de vida abundante. E das sentenças mais surpreendentes se diz a mais maravilhosa: aquele que não recebe este Reino como uma criança não pode entrar nele (Mc 10.15).

O Deus-Menino é o susto que denuncia a loucura e escândalo de toda via de pensamento humano. É o enigma que faz do objeto de morte cruciante o ato final da glorificação rediviva. É o fim que nos faz voltar sempre ao começo. É o organismo que desfaz inimizades e preconceitos, em que cada um é um em Cristo e Cristo é tudo em todos (Cl 3.11). E pra confundir ainda mais a cabeça dos que se julgam sábios, é “o Cordeiro que foi morto ANTES da fundação do mundo” (Ap 13.8).

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Viajantes do espaço-tempo

Passam os anos e logo mudam os lugares e as pessoas. Desde que existe mundo, tempo e espaço traçam os limites de nossas existências. Mais do que isso até, sintetizam o que todos somos: seres ambiguamente livres em nossas contingências, mas também presos a elas. Imagens, ideias, sentidos e significados são nossa constante tentativa de fazer o link entre a imaginação e a realidade. Mas, e se a distância entre a fluidez da mente e a inércia física fosse apenas uma ilusão? E se esta viagem que cada um de nós faz entre o nascimento e a morte fosse algo muito além do que podemos ver?

Nada nisto é novo. Em 1905, Albert Einstein propôs uma das teorias que mais revolucionaram nossa forma de enxergar a realidade. É verdade que, desde Isaac Newton, entendemos o universo como uma espacialidade uniforme, regida por leis naturais universais. Newton acreditava que as mesmas leis universais que explicam o movimento dos planetas explicariam nossa relação com o espaço e o tempo. Tudo obedeceria a uma linearidade absoluta. Einstein, contudo, descobriu que não é bem assim. Ele percebeu que espaço e tempo não são independentes. São dimensões inseparáveis, que ele chamou de “contínuo espaço-tempo”. Isso porque a percepção do tempo muda – isso mesmo, muda – de acordo com nossa localização no espaço e a velocidade com a qual nos movemos. O que Einstein descobriu foi que o tempo não é igual para todo mundo: cada ser possui seu tempo particular.

Nossa dificuldade em perceber tal realidade está na baixa velocidade com a qual nos movemos. Quando se toma como referência a velocidade da luz – cerca de 300.000 km/s – se percebe melhor a ligação entre tempo e espaço. Por exemplo, sabemos que enxergamos apenas aquilo que a luz reflete aos nossos olhos. Mas a própria luz do sol leva cerca de 8 minutos para viajar até a Terra. E nós levamos cerca de 1 bilionésimo de segundo para ver o que está a 30 cm dos nossos olhos. Desse modo, para onde quer que olhemos, estamos sempre olhando para o passado. Porém, isso é mais profundo. De acordo com Einstein, o tempo é como o espaço. Já que cada parte do espaço existe aqui e agora, cada parte do tempo existe aqui e agora também. Assim, passado, presente e futuro são igualmente reais. O futuro existe tanto quanto o presente e o passado.

Entretanto, essa viagem é muito mais ampla. Em 1900, ao estudar a radiação eletromagnética, Max Planck lançou as bases do que conhecemos hoje por Física Quântica. O que ele e depois Einstein, Bohr, Dirac e tantos outros observaram é que nenhuma lei da física clássica se aplicava a moléculas, átomos e partículas subatômicas. O universo subatômico é totalmente imprevisível. Se no macrouniverso é possível determinar a posição e velocidade de todas as coisas – como onde eu e você estamos agora – no microuniverso isto é impossível. Esta impossibilidade de atribuir posição e velocidade exatas a uma partícula gerou o que Heisenberg chamou de “princípio da incerteza”. Mas o universo que conhecemos não é feito de átomos? Admitindo isto, a matéria deixa de ser algo estático e previsível. Já não há mais como considerar as condições materiais suficientes para explicar os fenômenos físico-humanos. Todo o determinismo se dissolve em probabilidade.

Existe ainda outro fenômeno impressionante no mundo quântico. Em 1970, David Bohm desenvolveu o conceito de “ordem implicada” ou implícita. Para ele, a totalidade da realidade existente é abrangente demais para ser manifestada a nós no espaço-tempo. Apenas uma parte dela se manifesta – que ele chamou de “ordem explícita”. Porém, a ordem mais profunda, a partir da qual o espaço e o tempo se tornam explícitos, estaria envolvida nela implicitamente – onde as partículas se ligam de maneira interdependente. Se cada um de nós é um conjunto de átomos, que formam células para formarem órgãos e comporem o que somos, chegamos a conclusão de que, a nível subatômico, vivemos sob uma interconexão em escala global – um universo integrado. A implicação disso é que o espaço-tempo não seria a realidade, mas apenas uma camada de realidade da realidade.

E Deus é em quem tudo isso acontece. “Nele vivemos, nos movemos e existimos” é a incrível afirmação de Paulo, pregando no Areópago grego (At 17.28). O que a revelação de Deus em Cristo nos faz entender é que não há sequer uma partícula subatômica no universo que não exista em Deus, porque “nele tudo subsiste” (Cl 1.17). O engatinhar de teorias científicas no mundo semi-invisível da física quântica tem concebido a materialidade como dimensão cada vez mais volúvel e a espiritualidade como dimensão cada vez mais concreta. Deus é o Absoluto – em quem passado, presente e futuro acontecem em simultaneidade incompreensível – e tudo mais se torna relativo diante Daquele que se autoidentifica por eternidade infixável: “Eu Sou” (Êx 3.14). Nós, seres humanos, presos ao esmagamento do espaço-tempo, somos tão somente viajantes transitando em meio à multidimensões visíveis e invisíveis. Contudo, a maior constatação possível ainda está para acontecer: a de que matéria e espírito, razão e fé sempre estiveram unidas, na consciência daqueles que possuem a “convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1).

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

Referências Bibliográficas e Vídeo-iconográficas:

EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
DALÍ, Salvador. Soft Watch at the Moment of First Explosion. Museu Salvador Dalí, St. Petersburgo, Flórida: USA. Tinta em papel. 1954.
GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO – Episódio 03: Viagem no tempo. Science Channel: USA. 2010.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Descobertas humanas

Descobri um dia desses que metade da minha vida já tinha passado. Metade é modo de dizer, porque sinto que já vivi uma vida inteira sem nem ter vivido a vida ainda. Percebi o quanto o tempo é elástico. Às vezes, ele parece se encolher nos momentos mais profundos e parece se alongar nos momentos mais cruciantes da vida.

De fato, a vida não para. Nunca é algo que ainda está para acontecer, ou mesmo algo que já se foi e não voltará jamais, como muita gente espera que seja. A vida é hoje. E o hoje é o único elo que pode dar significado ao tempo, se tão somente vivermos o ontem, o agora e o amanhã de maneira simples e intensa, como a vida na verdade é.

Percebi tantas outras coisas. Busquei muitas que não podia e tive tantas que não queria. Fui entender que aquilo que mais parece fútil e insignificante terá toda a importância no momento em que eu não consiga mais fazer, sentir ou ter comigo. Que os produtos mais sofisticados não abraçam, não conversam, não sorriem, são só pedaços de coisas vazias. Cheias são as pessoinhas simples, que você não precisa juntar muito dinheiro pra usufruir nem ter muito conhecimento pra entender. Elas apenas são. Sem razão e sem preço, mas tantas vezes sem valor algum pra muitos de nós. Quanto mais complexas as coisas ficam, mais desejo a simplicidade.

Compreendi que a matemática da vida tem sentenças gramaticais cujas metamorfoses escapam às lógicas, equações, e até à localização espacial nos orbitais de qualquer átomo – ou seja, a vida é simplesmente impossível de se explicar. Porém, tudo isso é parte do sermos humanos, mas é aprendizagem a que nem todos estão dispostos.

Aliás, existem lições difíceis de aprender. A gente descobre que se julga padrão de ser humano em inúmeras situações, e mesmo acreditando sermos humildes, somos muitas vezes arrogantes. Enxergamos pessoas pela aparência, mesmo sabendo o que é preconceito. Admitimos atitudes pela pressão da circunstância, mesmo sabendo o que é coerção. Acreditamos em belas palavras, mesmo sabendo o que é mentira. No final, nos tornamos o que detestamos e ainda nos convencemos de que não o somos. Percebi então que os meus piores momentos não foram aqueles em que sofri muito, mas os momentos em que meu bem estar me anestesiou, enquanto eu caía de cara na sarjeta. Nessas horas, vi que o que eu deveria ter feito em prol dos outros, fiz pra mim mesmo, e o que deveria ter feito pra meu próprio prazer, fiz por causa da opinião alheia.

Aprende-se, também, que amar é uma decisão de vida. Sim, decisão e não um sentimento. E sendo decisão, já não se pode passar a vida inteira esperando encontrar alguém sem, primeiro, encontrar-se consigo mesmo. Sendo decisão, não se pode colocar nas costas de ninguém a responsabilidade de nos fazer felizes. Nenhum ser humano tem a capacidade de fazer o outro feliz. Felicidade é um encontro pessoal. Encontro meu com quem realmente sou e encontro desse meu eu-real com o Criador. Sendo decisão, amar é um ato que acontece por causa do que nós somos e não por causa do que o outro é. Foi aí que percebi que o que eu imagino e espero dos outros é de fato aquilo que eu imagino e espero de mim, porque a única base que conheço pra julgar alguém sou eu mesmo. Os outros e eu somos todos carentes.

Caí e me levantei muitas vezes e me perguntei por quê. Descobri assim que nem todo bem é bom e nem todo mal é mau. Há males que vem para o bem, é claro, mas o que tanto me incomoda é que há bens que me fazem muito mal. A gente cai por que é gente, mas também pra entender que a ferida aberta revela melhor a nossa fragilidade. Porque a carne exposta nos torna mais sensíveis, pela experiência da dor, às pessoas e coisas ao nosso redor. Porque o pó nos humaniza. Porque o chão é o nivelador das nossas existências, tornando seres tão diferentes tão iguais. E compreendi desse jeito que por mais que venham quedas e levantamentos, males e bens, nesta vida nunca me faltarão os porquês.

Descobri muitas coisas e até que há coisas que nem consigo expressar. Tudo isso é parte do sermos humanos, mas é descoberta que nem todos estão dispostos a fazer. Muitos são os homens e as mulheres, poucos são os humanos. Enfim descobri que apesar de ter descoberto tanto, o que eu descobri ainda é nada. Contudo, a maior das minhas descobertas é suficiente. Descobri que dentro de mim há tanto espaço quanto há fora. E essa eternidade que carrego é viver a existência para descobrir e, ao mesmo tempo, ser descoberto.

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Carta aberta à Igreja Evangélica Brasileira













     À Igreja Evangélica Brasileira, remeto:
     O que fizestes à GRAÇA
     e onde estará a PAZ do Senhor Jesus Cristo?
     É admirável o modo como tão prontamente alcançastes
     os extremos mais distantes da vossa dita fé evangélica.
     Não somente isto,
     mas que também ultrapassastes todos os limites
     do que até o pagão chamaria bom senso.
     Quando te apegas à letra, que sozinha mata,
     sois tão rigorosos que fariseu algum vos rejeitaria por rabi.
     E quando te lanças sobre teu espírito, que isolado enlouquece,
     sois tão infantis que nem assim se porta o mais irracional dos animais.
     Nas disputas sobre quem detém o poder de Deus, quanto vigor!
     Nos embates sobre doutrinas e importâncias teológicas, quanta destreza!
     No desprezo à órfãos e viúvas, incomparáveis!
     Digo-te que nem em Babel
     houve tanta engenhosidade em elevar-se ao céu!
     Onde aprendeste a fundir a cruz com a moeda?
     E porque dela ergueis teus insanos empreendimentos de fé?
     Para cada benção pusestes um preço
     e ao que Cristo comprou com Seu sangue
     vós revendeis com juros e cartões de crédito!
     A vossa fé é transação,
     vossa oração é promissória divina,
     e a palavra é o lucro neste teu EVANJOIO.
     Um pouco para alargar o espaço,
     um pouco para dar conforto
     e um pouco para embelezar ...
     Assim queimais em nome de Deus o sustento e socorro da Igreja
     na construção de vossas Sinagogas de Satanás!
     E para o escândalo, que trabalhos!
     Para as injúrias, doutores da lei!
     Para os negócios com Mamom sois mestres, não vos faltam mais ardis.
     Proclamas descaradamente de teus púlpitos:
     "vinde a mim todos os que tem dízimos
     e eu vos sobrecarregarei"!
     Escutai, escutai,
     escutai quem ainda não vendeu os ouvidos.
     A vós remeto minha tristeza, minha dor e minha luta.
     A vós remeto minha indignação.
     Teus discursos eloquentes, tão cheios de óleo e unção,
     não poderão jamais esconder de Deus
     a rapina e malícia que chamais de oração:
     “Meu pai que estás no céus,
     blasfemado seja o teu nome.
     Venha pra mim um reino,
     seja feita a minha vontade
     assim no céu como eu te disser na terra ...
     Meu pão de cada dia prospera hoje
     pra que eu não tenha que te pedir de novo depois de amanhã.
     Que as culpas de minhas ofensas nunca apareçam
     assim como eu corrompo a quem nem tem me ofendido.
     E não me deixes sair da tentação
     nem livrai-me de ser mau.
     Porque teu é o engano,
     a propina e a escória,
     para sempre,
     amém”.

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc 4.9; Ap 3.22).

domingo, 26 de agosto de 2012

Uma parte de mim

Alma rasgada em meio a lágrimas,
ânimo desfeito em meio a dor.
Já não há choro que defina nem sentido que acalente.
Vai-se um sorriso, um afago, uma mãe, um amor.
E leva consigo uma parte de mim, que de agora em diante,
vive somente na eternidade.

Descanse em paz, minha voinha Alzira.

Em Deus, a esperança se experimenta em certeza, e toda lágrima se ampara num sorriso de saudade.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Jesus do Caminho

Jesus tem sido uma experiência transformadora para milhões de pessoas na história deste mundo. Tanto na vida como na morte, o mais conhecido de todos os judeus possui incrível capacidade de atração. As palavras que proferiu têm provocado admiração e controvérsia em todos os seguimentos de sociedade humana. Seus ensinos tem sido referência para incontáveis estilos de vida. Suas reações às situações presentes no dia a dia têm inspirado instituições, ideologias e indivíduos, além de gerar debates diversos. E sua morte como malfeitor tem sido o emblema mais forte de sua existência, provocando tanto convicção quanto ceticismo.

O fato é que, incontestavelmente, não há acaso algum no trato da história ocidental para com Jesus de Nazaré. Passados mais de 2 mil anos, Jesus permanece sendo uma bifurcação de caminhos, um eixo definidor de vivências. Em seu nascimento, dividiu a história humana e estabeleceu-se nela como “vértice”, de modo que o tempo-espaço que todos conhecemos converge para Ele. Nele, pensamento, ação e intenção tornaram-se revolucionariamente um. Ateus e apóstatas, fanáticos e fiéis, mesmo sem se dar conta, vivem a vida diária em função de sua passagem histórica entre nós. O pobre e desprezível judeu, nascido no tempo do antigo Império Romano, continua dando significados à existência de nosso mundo hoje. Quer queiramos ou não, Jesus não foi. Ele é.

É em Sua morte, porém, que tal impacto é mais amplamente sentido. Morte que se mostra ambivalente, como tragédia e glória deste Jesus. Na cruz, tal força encontra a debilidade de um fim precoce. O Rabi dos gestos e palavras surpreendentes, que calava eruditos e maravilhava multidões, é condenado em meio ao desprezo e vergonha. Laceração, escárnio e sangue vertem num espetáculo exposto sem censura. Bem assim, esta mesma morte tornou-se a mais pública de todas as suas histórias e nenhuma outra revestiu-se de tamanha dimensão. Nada possui mais da substância do espanto: seguidos três dias, onde jaz Jesus? O escândalo é afirmado e a sabedoria humana é mais uma vez confundida: Ele ressuscitou. A morte, em meio à Sua morte, morre. Nela, Jesus divide não cronologias ou crenças religiosas. Não. Esta morte é o argumento final contra a nossa utopia diária. É a divisão da humanidade nela mesma. Nela, o que é humano morre. O que é divino permanece.

Para além das conjecturas, foi estabelecido pela vida e pela morte o que Jesus diz de si mesmo. Ele é tão somente o que afirma ser: “Sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6). Verbo encarnado na linguagem grega, Emanuel na linguagem judaica – Ele é o elo entre o visível e o invisível, entre o mortal e o eterno, entre a criatura e o Criador. E agora, numa história que transcende a História, Elo entre morte e vida. Daí, então, se torna simplesmente impossível admitir o que Ele fez – seja por via histórica, filosófica, sociológica ou qualquer outra – sem crer no que Ele disse. Eis o vértice de definição. Sendo Jesus quem é, sua humano-divindade lança um novo caminho de existência – o Caminho de Jesus. Da vida para a morte e da morte para a vida: d’Ele para o Pai e somente por Ele. N’Ele o caminho, por Ele a verdade, com Ele a vida. E este é o Jesus do Caminho (At 24.14). Fora d’Ele, sem Ele e contra Ele só restam mesmo as conjecturas.

Portanto, se Jesus não ressuscitou, Ele não era Deus. E se Ele não era Deus, não era nada mais que um embusteiro mentiroso. Mas tão certo como vida e morte, em Jesus, o caminho não tem atalho, a verdade não se relativiza e a vida não morre. Ele é O Caminho, A Verdade e A Vida. É fato que cada um de nós traça o seu próprio caminho, vivido, por vezes, entre verdades mentirosas e verdadeiras mentiras. Contudo, Jesus, pela realidade da vida e incontestabilidade da morte, estabeleceu-se de uma vez por todas como O Caminho. E a partir d’Ele, caminho, verdade e vida se tornam maravilhosamente um. Não sobra espaço para a inércia. Nas palavras de Caio Fábio: “Esse é um princípio universal para a alma de todo homem: o único caminho é o da verdade e é somente a verdade que realiza aquilo que se pode chamar de vida”. Diante disso, a humanidade é ressignificada de maneira plena. Ser humano só se torna possível no Ser de Deus. E eu hoje, pela fé nas palavras e atos do Eterno Jesus de Nazaré, ouso confessar sem atalho, relativismo ou morbidez: só existe vida de verdade no Caminho.

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Lágrimas que regam a existência


Então, lá estava aquele texto em minha frente: “E morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada ao pé de Betel, debaixo do carvalho cujo nome chamou Alom-Bacute” (Gn 35.8). Frequentemente, estes textos não usuais me chamam muito a atenção, e logo procuro por seus detalhes. Quem seria esta “ama de Rebeca” e por que a sua morte foi narrada de maneira tão forte? Por que uma dentre tantas servas mereceu tamanho destaque? E por que isto ocorreu justo quando Jacó voltou à Betel, local onde tinha encontrado a Deus face a face?

A única coisa que sabemos dessa Débora é que ela era a ama de Rebeca – mãe de Jacó – e que a tinha acompanhado desde que ela saíra da casa de seu pai Betuel para casar-se com Isaque (como se supõe de Gn 24.59). Matthew Henry afirma que Rebeca provavelmente já havia morrido quando Jacó voltou pela primeira vez à Hebrom para encontrar Isaque, seu pai. Mas Débora, sua antiga ama, ainda estaria viva e ele a teria levado consigo para ser companheira de suas mulheres e instrutora de seus filhos. Aqui em Gênesis 35, enquanto eles estavam em Betel, ela veio a falecer, e sua morte foi grandemente lamentada. Na verdade, ela foi tão lamentada que Jacó chamou o carvalho sob o qual a enterrou de Alom-Bacuth – "Carvalho das lágrimas".

A morte é a última experiência que qualquer um quer conhecer de perto. Mas ela não conhece preconceito, nem hora e nem lugar. Porém, o que me impressiona neste versiculozinho é a força impactante da realidade que ele contém. Betel – a “Casa de Deus” – vira também o local de Alom-Bacuth – o “Carvalho das lágrimas”. E o El-Betel – “Deus de Betel” (Gn 35.7) – continua presente, o mesmo Deus que havia recebido os sacrifícios de Jacó, quando este chegou ali. Uma mistura de paradoxos, uma síntese de contradições e uma chuva de perplexidade convergem para este carvalho. É o momento em que a fé se torna o fiapo que nos une ao Eterno. Situação em que as palavras perdem o significado diante dos fatos. Ombros se tornam curtos e os minutos passam rasgando a alma. Sobram apenas as lágrimas. Pasme. É Deus falando do meio de um redemoinho (Jó 38.1).

Esta desconhecida Débora é uma figura ímpar na história patriarcal. Ela era apenas uma ama, serva dada para o auxílio vitalício de uma mulher daquele tempo. Porém Jacó possuía uma ligação tão vital e encarnada com aquela ama de sua mãe que ele chora sua morte como se ela fosse sua própria mãe. Do mesmo modo, Deus põe algumas dessas pessoas cativantes em nossas vidas. Há pouco tempo, perdi uma irmã em Cristo que eu considerava como uma mãe também. Ela era tão simples e meiga que me conquistou sem esforço nenhum. Eu me lembro de descer as escadas do Templo e a encontrar com aquele sorriso lindo de sempre, vindo me abraçar com um carinho tão gostoso, e me abençoar com as palavras e orações que ela costumava me dizer. Nunca tive a oportunidade de sentar com ela e conversar um bom pedaço, mas sou muito grato a Deus por tê-la conhecido. Mesmo que não se possa ver, eu a coloquei debaixo de um lindo carvalho em meu coração, e todas as vezes que lembro daquele cotoquinho de gente vindo me abraçar, rego o carvalho com lágrimas (...).

E lá estava Gn 35.8 em minha frente. Este costume hebreu de enterrar seus familiares em baixo de árvores me ensina uma lição simples e única. Tão visível e inamovível como um carvalho é, assim o é também a morte: ela não pode ser adiada, evitada, nem mesmo esquecida. Para aqueles que perdem uma parte de si mesmos com ela, nunca haverá transplante, enxerto ou compensação que a remova. Ela sempre estará ali, no caminho, lembrando-nos e nos fazendo voltar, mesmo enquanto seguimos à diante. Contudo, como árvore, a morte pode ser ressignificada como vida, e o tipo de vida que, aquele que foi, agora experimenta em toda a sua exuberância, frondosidade e frutificação. Se nós que habitamos a “esfera das raízes, pó e sombras” nos sentimos vivos, imagine aqueles que dão “o salto eterno para as profundezas do amor de Deus”?

O carvalho é emblema de uma existência em transição. Existência que não foge à dureza da realidade. Realidade que, por vezes, será discernida como lágrimas que regam a existência, não por conveniência ou por subserviência, mas por consciência. Consciência de que devemos crer e não ser egoístas a ponto de querer prender alguém a esta existência opaca e caída, enquanto lhe foi dada a manifestação da verdadeira vida em Cristo (1Tm 6.19). Se tivéssemos o mínimo vislumbre da essência do céu – não o céu do flanelógrafo das lições empoeiradas da igreja – mas o céu que é fundir-se pra sempre em Jesus e encontrar o prazer indizível que foge às nossas bobas capacidades sensoriais, enfrentaríamos a morte de maneira mais sóbria, mais humana, mais terna. Não sem dor nem choro, mas com inexplicável gozo e gratidão. Por isso, planto em mim todos os que fazem quem sou e regarei com lágrimas de alegria e sorrisos de lamento tudo o que são em mim. Porque o que foi cortado é levado pelo vento, mas o que foi plantado permanece com a força de um carvalho, por toda a vida, até que a verdadeira vida nos faça encontrarmo-nos eternamente no Amado.

(Texto dedicado à muito amada irmã Leninha, que agora vive eternamente no Senhor).

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Lembranças do amanhã

















          Lembranças são como eternas saudades
          que a gente abraça e sustenta no peito;
          como as tragédias que nunca se entende,
          cuja dor foi sentida e não se quer mais levar.
          São o mundo em que vivemos um dia,
          mas também são um túmulo que com o tempo se fez
          pra mesmo a vida hoje poder continuar.
          Amigas e vilãs, veladas e levadas ao extremo:
          sonho que um dia foi ontem
          medo do que poderá ser amanhã.
          Lembrar pode ser não querer esquecer,
          mas pode ser também o querer ser outro ser
          e inventar tudo aquilo que não se pode apagar.
          Afinal, como lembrar que se deve esquecer,
          sem antes não se esquecer do que é preciso lembrar?
          Lembranças não morrem, nos lembram que existem,
          e se esquecem que nos fazem sorrir e chorar
          quando se discerne que elas na verdade insistem,
          e que dentro de cada um de nós persistem
          nos ensinando que é preciso esquecer e lembrar.
          Não feche o sorriso com o tempo que passa,
          não impeça a lágrima com os anos que embrutecem,
          não negue o afago com as recompensas que não justificam.
          Viva, refaça e seja outra vez.
          Você faz da vida as eternas lembranças
          dos tempos idos e daqueles que, esperas, virão.
          E, então, somente terás um dia vivido
          se puderes das lembranças que carrega consigo
          fazer do teu ontem mais hoje e amanhã,
          um dia onde tudo e todos em você se encontrarão.


Deus nos abençoe no amor de Cristo.

sábado, 5 de maio de 2012

Um fariseu dentro de nós

Naquele domingo, resolvi sentar em lugar diferente no templo de minha igreja. Eu não estava escalado para as habituais atividades do louvor e, por isso, tive um culto diferente, visto de outra perspectiva. Comecei a notar, do meio do templo, as pessoas chegando e se ajoelhando em oração, o pessoal do louvor tomando suas posições, a bela estrutura que impunha reverência. Senti-me em outro lugar. Na medida em que liamos os textos e cantávamos os hinos, fui me questionando sobre a forma como regularmente, culto após culto, eu fazia aquelas mesmas coisas. Foi então que me veio a dúvida: "Será que mantive um coração sincero todos estes anos?"

Na mesma semana, estudando a história dos hebreus, fui surpreendido pelo texto de Isaías 1. Este capítulo é bombástico. Sem o romantismo da chamada ou preocupação com cronologias, Isaías já começa com uma profecia condenatória, denunciando Israel como povo obstinadamente corrupto. Trocando o culto por um ritual hipócrita, suas reuniões religiosas são descritas como uma maquiagem para a corrupção (vs. 11-15). Nada além de ritos haviam sobrado de uma santa tradição de separação e privilégio. Mas, me permita perguntar: porque o ritualismo é assim tão detestável para Deus?

É preciso tentar entender o que é o ritualismo. De certa forma, todo ritual se constitui na redução da religiosidade aos seus suportes mais básicos, mais superficiais. Ele é, em outras palavras, uma sacralização de coisas, pessoas e costumes, tirando-os do uso normal e lhes atribuindo um "status sagrado". É como se fosse conferido um tipo de santidade própria, inerente, esquecendo-se que ela provém de Deus e só a Ele pertence. Nasce aí o rito. Num processo que não é possível analisar aqui, lentamente estes ritos vão sendo aceitos como prática comum e se estabelecem oficialmente na sociedade. Daí em diante, o ritual deixa de ser a "forma básica de uma religiosidade maior" e passa a ser a própria "forma verdadeira da religião", se tornando mais complexo e rígido.

Como mostra a história de Israel, o perigo do ritualismo é que ele nos faz inverter as coisas. Priorizam-se trivialidades – tais como horários, tipos de roupa e comportamentos – ao invés das essencialidades, como se aquelas fossem, de fato, a expressão externa da verdadeira adoração à Deus. E não há na Bíblia uma figura mais didática para o ritualismo que os fariseus. Eles nos fazem compreender como o ritualismo está ligado à corrupção da espiritualidade. Assumindo o rito, o fariseu é descrito como completamente mecânico. Coisas a fazer, regras para se observar: viver se torna o “seguir o script”. Ele é a pessoa cuja mente foi divorciada do coração, sobrando um ser pragmático e insensível. Seus atos são praticados como meras convenções – como se as intenções em nada os alterassem. Para ele, o rito oferece a aparência "politicamente correta" da qual tanto precisa para ser respeitado na sociedade, sem ter necessidade de se expor de forma demasiada.

Pior ainda é que o fariseu mostra como o ritualismo o distancia da própria realidade. Ele vive tão convicto da eficiência de seu costume diário, tão seguro de sua “santidade adquirida” que não consegue mais enxergar quem é de fato. Uma crosta muito grossa de modismos limita sua percepção e atrofia sua autoconsciência. Ele cria, então, um perfeito “eu-fantasia”. É aí que o olhar cai sempre no lado de fora. Vive sempre concentrado no método, na aparência e no concreto. Vira o objeto de sua própria adoração. O resultado é que não resta ninguém além dele, a não ser que seja igual a ele. Assim, os fariseus são sempre os primeiros a acusar os verdadeiros discípulos (Lc 6.1-2). Infelizmente, zelo sem entendimento não é nada (Rm 10.2). Normalmente, o resultado deste rigorismo todo é a quebra do décimo mandamento. Os evangelhos mostram estes homens como tomados pela cobiça (Lc 16.14) – porque, enfim, viver do esforço pessoal tem que ser lucrativo.

É por isso que o ritualismo é a detestável religião das aparências – “a espiritualidade do faz de conta”. Mas não se engane. Esta é a nossa realidade. Nossa sociedade se preocupa muito em manter um aspecto de integridade e honra, mas pouco faz para viver o que aparenta. O real entre nós acontece sempre por trás de máscaras sociais. E especialmente nós, cristãos, – que vivemos em “ambientes sagrados” – possuímos cadeira cativa no “palco das teatralidades da alma”. Como afirma Caio Fábio: “Nós nos tornamos discípulos dos fariseus e negamos o evangelho de Jesus. Nós nos tornamos idólatras daqueles que mataram a Jesus. Nós somos pastoreados por aqueles que perseguiam a Jesus. Nós somos filhos na fé daqueles que questionavam a Jesus, de tal modo que a igreja é a cara dos fariseus e totalmente diferente de Jesus”. A verdade é inegável. Afinal, quem seria louco a ponto de conviver com pessoas que batem no próprio peito, não tendo vergonha de esconder suas fraquezas diante da sociedade (Lc 18.13)? Deus? Porém, que todos lembrem: Deus não se deixa enganar. “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação” – diz o Senhor em Lc 16.15.

Naquele domingo, percebi que o que tem me sustentado todos estes anos não é o participar de ministérios, ter cargos destacados ou entoar hinos antigos com técnica apurada. Não é o possuir excelente dicção para declamar versículos ou retórica para explicar textos bíblicos. Lembrei-me que é preciso curvar mais que joelhos e cabeças para adorar a Deus e que de nada serve o embelezar templos com granito e mármore. O que tem me sustentado é o coração. Não eu, mas o que o Espírito faz ali em mim. E a minha responsabilidade é não ritualizá-Lo, mas “deixar os rios de água viva jorrarem para fora” (Jo 7.38) – pois Ele não pode ser preso nem constrói represa. Sim, é preciso amar a Deus de todo o coração, sem fingimentos, com uma alma rasgada e um espírito quebrantado (Jl 2.13; Sl 51.17) porque este é o maior mandamento (Mc 12.30). Que os rios fluam, mesmo que, ao saírem de mim, a impureza do barro fique visível na cor da água.

Mas não para aí. A verdadeira adoração honra a Deus onde Ele estiver, ainda que se apresente a nós na face do próximo (Mt 25.34-46). Por isso, não existe espiritualidade válida onde se engana e despreza o outro. A adoração a Deus acontece também no amor ao próximo, que é a Sua imagem, porque este é o segundo mandamento (Mc 12.33). Ela extrapola as paredes dos templos e acontece na vida diária do filho de Deus, de modo que sua existência é o próprio culto. E num mundo onde o próximo está cada vez mais distante, amar a Deus no amor este próximo se torna missão. Adoração é o amor a Deus posto em ação. Sem atitudes não existe amor a Deus e, sem amor, tudo o que sobra é mera “a-tu-ação” (o espetáculo que promove a nós mesmos – 1Jo 4.20, 1Co 13), de tal maneira que “dentro e fora” são inseparáveis. E se assim não for, poderemos até exibir um santo no lado de fora, mas teremos um fariseu dentro de nós. A Igreja somos nós, individualmente membros de um corpo de muitos (1Co 12.14, 27). O templo é o meu corpo indo ao encontro dos homens (1Co 6.19; 2Co 4.10). E a verdadeira adoração não possui limites (Jo 4.20-24). Só nos resta concordar com Isaías: até quando, Israel, tentarás ludibriar Deus?

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Em silêncio












          Falta apenas um minuto
          para a recontagem das horas
          pouco tempo para o novo dia.
          Ele começa escuro, frio
          e com um silêncio quase ensurdecedor.
          Mas é nesta circunstância que minh’alma descansa
          não em meu leito, mas completamente,
          e os meus olhos se fecham sem se vencer pelo sono,
          sonhando as palavras que rompem o silêncio.
          E em meio ao frio sou envolvido totalmente,
          no momento em que a mente encontra o coração.
          Nos olhos nasce o rio
          que derrama o suspiro mais profundo de amor,
          e os lábios se esforçam ao máximo no sorriso mais sincero.
          O calor invade o corpo, acelerando a pulsação,
          ao tempo em que as palavras são ditas mais intensamente,
          apesar de não poderem dizer tudo o que quero.
          Se dirigem ao lugar onde sonhar é mais que real,
          é infinitamente além do impossível.
          Onde o refúgio e o abrigo são inabaláveis.
          Onde o amor e a paz são sempiternos.
          Onde a fé e a razão são unicamente a oração.
          Neste instante descubro a mais linda das verdades:
          Deus está comigo.

João Pessoa – PB,
de 04 para 05 de outubro de 2001.

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

sábado, 17 de março de 2012

O fim que devemos esperar


Poucas coisas mexem tanto com a imaginação humana como o amanhã e não muitas conseguem exercer sobre nós um fascínio tão incontrolável. Subjugando tudo e todos, o futuro é o “senhor de todas as possibilidades”. O previsível e o inimaginável convergem nele. Fração de tempo elástica, suspensa sobre a curiosidade humana, é capaz de surpreender-nos quanto ao que esperamos da vida. E se há algo que me impressiona quanto ao que virá pela frente, é justamente o fato de que – não importando o que vier – o amanhã teima em permanecer indomável. Então, o que esperar do futuro?

A preocupação humana com o amanhã parece sempre ter existido. Foi assim com os antigos Maias – que, depois de Nostradamus, se tornaram a mais recente expectativa sobre o fim do mundo com o filme “2012” – e também o foi nos dias de Jesus. Lembro-me da ocasião em que os próprios discípulos perguntaram ao Mestre como seria o fim de todas as coisas – como em Marcos 13. A questão surge das duras palavras de Jesus sobre o Templo de Jerusalém, símbolo do orgulho judeu. Assustados ao saber que ele seria destruído com a queda da cidade, os discípulos se viram tomados pela dúvida angustiante sobre quando isto ocorreria.

A pergunta é inevitável: será também que o futuro que nós esperamos vai mesmo acontecer? Numa realidade não muito distante, testemunhamos o surgimento de pregadores que, aclamados por multidões, apregoam a vinda do avivamento em todas as direções, criando uma expectativa de conversão mundial. Pela “palavra profética”, declaram que estamos vivendo um tempo de milagres e renovação – apesar de os efeitos não serem muito visíveis na sociedade. Estariam eles corretos? A “bela reforma” que afirmam estar acontecendo neste “templo” dará algum resultado? As profecias bíblicas são capazes – como no caso dos discípulos – de fazer ruir nosso presunçoso “achismo” sobre o futuro, ainda que ele demonstre imponência como a beleza daquele Templo e pareça estar totalmente estabelecido como pareciam seus fundamentos.

Em Mc 13.5-7, dois grandes fatos são afirmados pelo Senhor como sendo a tônica do fim. O primeiro deles é o aparecimento do erro: “e enganarão a muitos”. Cristo afirma que, no fim, o engano se espalharia tomando moldes de religiosidade e seu alcance seria generalizado. Se seus discípulos estivessem esperando sucesso e prosperidade, ficariam desapontados. Mais do que isso, ao invés de esperar a vitória imediata da verdade, Jesus os alerta a esperar uma sociedade cada vez mais mergulhada na loucura, injustiça e imoralidade.

Estamos – nas palavras de Jesus – vivendo o tempo da falência da igreja como veículo de disseminação da verdade. No entanto, não me refiro aqui à Igreja Invisível, que é a “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3.15). Esta jamais sucumbirá. Falo da igreja-instituição, que se encontra em colapso gradativo em pleno século XXI, perdendo há muito as credenciais que caracterizavam sua influência na sociedade. Confiabilidade, alento, orientação, exemplo – aonde? Seja em que face se apresente, a essência da religião tem sido deflorada e se encontra ruindo. Não poucos homens fidedignos atestam que já estamos sob um quadro global de crise: o cristianismo nominal é dominante na Europa e América do Norte, enquanto a África e a América Latina mergulharam em um “cristianismo místico”. No Brasil, os arraiais religiosos, mais do que nunca, estão tomados pela corrupção, manipulação psicológica e estelionato. O próprio evangelicalismo jaz em descrédito, e uma fé que antes era odiada pelo puritanismo de seu posicionamento, agora é ridicularizada por sua fraudulência descarada.

Hoje, e agravando-se para o futuro, assistimos ao renascimento do cientificismo, que dominará ainda mais todo o meio acadêmico, expulsando de vez o sobrenatural de qualquer categoria de pensamento válido. O homem se torna deus e, na quebra sucessiva de paradigmas científico-tecnológicos, arroga o direito de manipular a vida. Logo os limites impostos pela moral serão reputados como costumes primitivos e a ciência poderá dar à luz sua monstruosidade insana. A religiosidade, porém, será tolerada como um fenômeno social necessário – mal necessário, entenda-se. Deste lado, o crescente avanço do misticismo, inserindo-se nas diversas manifestações de religiosidade, produzirá um sincretismo tão plural que, no final, toda religião será reduzida a uma mesma coisa. O fanatismo será a conduta de fé normal e a superstição a única forma de conceber a espiritualidade. Experiências de êxtase serão – se já não o são – o encontro real com “Deus”, uma fuga emocional de um mundo que não tem nem terá mais razão, num abandono total da verdade.

Em segundo lugar, Cristo afirma o aparecimento de um caótico cenário de guerra: “ouvireis falar de guerras e rumores de guerra”. Ele se refere, de fato, à guerra propriamente dita, mas também a um estado de belicismo estabelecido. Se seus discípulos estivessem esperando paz e harmonia, ficariam chocados. Pelo contrário, os homens se tornarão tão sádicos que a sociedade se verá incapaz de refreá-los. Jesus os alerta a esperar um mundo cada vez mais embrutecido pelo ódio, violência e hostilidade.

Como consequência direta do repúdio à verdade, o ser humano perde sua própria humanidade. A busca desenfreada pela autossatisfação se mostrará insaciável. Em um ambiente onde é preciso provar constantemente que se é a melhor opção, a melhor ferramenta, enfim, que se é o candidato mais apto à sobrevivência, é exigida uma desumanização do ser. O mundo, então, se tornará uma gaiola onde bestas insensíveis se trombam toda hora, sem tempo, sem pudor e sem remorso. Uma “coisificação” experimentada friamente, onde a miséria do outro será o triunfo pessoal. A desgraça alheia será planejada, definida e executada, mas de maneira tão sagaz que além de aparentar ser mera tragédia, será também, na prática, uma jogada onde até oferecer ajuda se torne extremamente lucrativo – aliás, já o é. Só restará sentido no bel-prazer, não importando mais os meios para tanto. Assim surgirá a “sociedade insociável” – se é que o termo é possível.

Muros de concreto já não serão divisórias, porque as próprias ruas serão corredores invisíveis de isolamento, por onde passam cadáveres ambulantes, trancafiados na malícia e desconfiança. O desespero alcançará até a mais alta autoridade. A luta pela vida jorrará sangue pelas calçadas. Saques, vandalismo e assassinato serão o expediente diário de multidões, privadas de dignidade. A escassez de recursos eliminará de vez a ilusória igualdade de direitos. O “vício da vontade” será a única lei e a justificativa para matar. E em nome de si mesmo, na batalha pelo que se quer, as pessoas se tornarão ainda mais a dementes. A frequência e proximidade com que se verá o estupro, a agressão e o homicídio já não causarão asco, mas verdadeira obsessão – um prazer demoníaco pela carnificina. A violência será a desumanização materializada, numa ausência total do amor.

É chegado o tempo – e ainda o será mais intensamente – em que aqueles que perseveram na luta contra o erro e a violência serão reputados por loucos. Tempo em que a verdadeira voz profética será tida como inconvenientemente perturbadora (Is 30.10). “Ninguém vos engane” (Mc 13.5), porém, é o alerta que esmaga toda tentativa de suavizar o evangelho. Por isso, faço minhas as lúcidas palavras de J. C. Ryle: “Deixemos de esperar por um reino de paz em nossos dias. Pelo contrário, esperemos por guerras. Deixemos de imaginar que todos os homens se tornarão santos, por meio de qualquer instrumentalidade existente – escolas, missões, pregações ou de qualquer coisa desse tipo. Pelo contrário, devemos aguardar o surgimento do Anticristo [...] Não haverá paz universal enquanto o Príncipe da paz não voltar”. Este é o fim que devemos esperar. Cabe a nós orar, trabalhar e aguardar com paciência até que o Senhor venha. Manter esta convicção pode custar muito caro, mas, o fim provará quem está correto. Para além da imaginação, sem Nostradamus, Maias ou em 2012. A previsão já foi lançada por Quem conhece o fim desde o começo. O amanhã não trará surpresa, vertendo cada letra divina em realidade. Sobre isto, lancemos os olhos e reflitamos. Entretanto, quem ainda se deixa levar pela aparência e sonha acordado, na verdade, ainda está dormindo.

Deus nos abençoe no amor de Cristo.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O joio e o trigo, a terra e o fruto

Se ainda persistem mistérios nas relações que cercam os seres humanos – sejam elas emocionais, físicas ou psicológicas – com certeza um dos maiores deve estar na imagem que construímos uns dos outros. Mais do que muitos estão dispostos a admitir está o fato de que somos extremamente afetados pelo próximo em nossa autopercepcão. Talvez a questão não seja tanto o quanto do outro me influencia – pois o bombardeio que sofremos é intenso e ininterrupto através da mídia, do ambiente de trabalho, do círculo de amigos e por aí vai. Pra mim, trata-se muito mais que meras alterações no modo de pensar e agir do dia a dia. O que me intriga mesmo é o quanto de mim define quem é ao meu lado e vice-versa.

Não, não é erro de concordância verbal. Quem é e não quem está ao lado, leia-se. Falo do ser, da alma, do que define a própria humanidade humana – desculpe-me a redundância. Refiro-me ao caráter, tal como Cristo expôs na parábola do joio e do trigo. Ali, vemos o Mestre revelando a realidade humana com clareza chocante. O joio, o trigo, lado a lado na mesma terra. Um se definindo em oposição ao outro, mas, ao mesmo tempo, sendo visivelmente indistinguíveis. O joio, diz a parábola (cf. Mt 13.24-30), aparece oportunamente quando a erva cresce e dá fruto. O trigo fica de tal forma cercado por ele que a tentativa de separá-los seria mais danosa que a própria erva daninha o é. E assim convivem.

Da terra brota o fruto, a sutil diferença. O joio se passa por trigo, sufoca-o e se possível arranca-lhe para fora as raízes. O trigo, porém, procura o pó no fundo da terra, buscando experimentar uma mortificação mais intensa a cada dia, para que assim, possa dar muito mais fruto. Quem, porém, pode determinar quem é quem? Como não arriscar queimar o trigo novo e frágil enquanto se recolhe joio robusto? A relação conflituosa entre ambos deve existir para que o trigo, como semente, não se esqueça que tem que morrer. O joio, porém, deve se lembrar que sua farsa não poderá alterar seu destino. O joio, por mais vistoso que aparente ser, jamais será trigo. Nada lhe resta senão a foice e a fogueira.

O mistério é a verdade pura e dura de que somos quem somos no final das contas. Não existe engano, nem engodo, máscara ou mal entendido. É possível fingir ser o que não é, mas não se pode fugir de si mesmo. Aquele que sabe quem é ou não tem a pretensão de ostentar a si mesmo – porque é trigo – ou se recusa a realmente se mostrar como é – porque é joio. Assim permanece o silêncio. Contudo, o fim chegará para ambos. Como diz um antigo provérbio: "Semeie um pensamento e colha um ato. Semeie um ato e colha um hábito. Semeie um hábito e colha um caráter. Semeie um caráter e colha um destino". O joio e o trigo, a terra e o fruto. Cada vida foi lançada à terra a seu tempo. Cada erva segue o curso de sua própria natureza. Mas o mistério de quem somos na verdade só será revelado por Deus, Aquele que é.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...