quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lutando com Deus hoje

O momento mais difícil que um ser humano um dia pôde enfrentar havia chegado. O corpo surrado por horas de tortura insaciável talvez já não pudesse resistir à dor que se alastrava em cada nervo. Talvez a mente debilitada pelas dementes palavras de rejeição procurasse o refúgio que os olhos não podiam oferecer. Mas o céu escuro parecia uma cortina de ferro. Tudo lhe havia fugido. Nem calor humano, nem brilho do sol e, agora, nem mesmo o seu Deus estava ali. Uma angústia mortífera envolve o seu coração e dilacera sua alma completamente. E das poucas forças que ainda lhe restavam, ele lança ao céu um clamor: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Porém, desta vez, nenhuma resposta lhe viria além do silêncio.

Como é difícil acreditar que este é o final da vida terrena do Senhor Jesus! Estas célebres palavras encontradas no Salmo 22.1, que o próprio Davi escreveu, foram repetidas por Ele na cruz. Palavras intensas que misturam o sentimento de abandono com a certeza de que Deus está por perto – como isso seria possível? Vemos o Filho de Deus enfrentando o terror da cruz, porém sozinho. Sua alma desfalecida procura o auxílio divino, mas não consegue encontrá-lo. O que teria acontecido aos anjos que o assistiram na tentação do deserto ou ao anjo que o consolou no jardim? Onde estaria a voz que no batismo havia declarado ao mundo: “Este é meu Filho amado, em quem tenho prazer”? Porque Deus havia abandonado o Seu próprio Filho? Bem longe daquele romantismo que ouvimos na maioria das explicações por aí, aqui se revela a mais dura das realidades da vida do cristão: ele também se decepciona com Deus.

Sei que acabei de fazer declarações fortes. Mas não perdi a minha fé nem estou revoltado com Deus – aviso logo. Apenas me sinto, em alguns momentos, do mesmo jeito que o Senhor – abandonado no momento mais difícil da vida. E sei que esta experiência se repete, de maneiras diferentes, na vida de inúmeros cristãos no mundo. Solidão, mudanças sem lógica, frustração. Em cada uma dessas experiências atordoantes as mesmas perguntas ecoam pelo ar: “onde está Deus agora?”, “Deus se importa mesmo comigo?”, “porque Deus não faz nada?”. Perguntas sinceras, muitas vezes sufocadas nas “fórmulas mágicas evangélicas”, do tipo: “creia, pois se você não tiver fé o milagre não acontece!” ou “não aceite a situação, diga como Paulo: tudo posso naquele que me fortalece!”. Os fariseus de nosso tempo insistem em recriminar a dúvida, o questionamento e a decepção, e as expulsam da vida de um cristão verdadeiro. Para os “pilantras da fé”, o evangelho torna o crente imbatível contra a doença, a pobreza e o sofrimento. Mas, como o próprio Jesus nos mostra nesta experiência única – talvez eles não a tenham lido ainda – há mesmo momentos em que os cristãos irão ter a decepcionante sensação de que Deus está longe.

Devemos questionar a Deus? Por vezes, alguns nos repreendem com a velha e mastigada frase: “não pergunte a Deus o porquê. Pergunte pra que!” – acho que Jesus discordaria. E ainda que eu compreenda a boa intenção desses argumentos, sei que eles causam um dano muito maior do que querem evitar. Por conta da necessidade de se manter uma “fé inabalável”, o cristianismo de nossas igrejas tem entrado em colapso, confundindo fé com fanatismo e confiança com presunção – como se nós cristãos não estivéssemos sujeitos à fraqueza! Porém, a Bíblia não esconde essa verdade. Os mais santos homens de Deus também sofreram com seus questionamentos e “lutaram com Deus”, à semelhança de Jacó. Moisés e seu comovente pedido para entrar na Terra Prometida, Davi e sua oração pela vida do filho de seu adultério com Bate-Seba ou João Batista ao perguntar a Jesus se Ele era mesmo o Cristo. Todos eles questionaram a Deus pelo simples fato de serem humanos. Assim como eles, somos limitados, e ainda que a nossa lógica se firme sobre as mais complexas teorias, nunca poderemos compreender a Deus como de fato queremos. Aliás, este é o desafio de Deus para o sofredor Jó: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-me saber, se tens inteligência” (Jó 38.4).

Contudo, estes homens tiveram a coragem de expor a Deus os seus questionamentos mais cambaleantes e, pra nosso espanto, foram ouvidos por Ele. E como a luta corporal entre Jacó e o Anjo do Senhor simbolizava a guerra interior dele mesmo com o seu Deus, nossas lutas pessoais nos põem diante de Deus como realmente somos. Longe de nos afastarem do céu, elas confirmam a pureza de nossa fé, que mesmo fraca e limitada não consegue subsistir sem Deus. Apesar disso, sei que cristãos como estes serão menosprezados e até vistos com receio pelos outros. Mas, ainda assim, prefiro ser sóbrio e encarar a vida e a fé como um ser humano real, sem soluções fáceis e baratas. Somos humanos e por isso sofremos. Às vezes, precisamos dizer a Deus que é difícil seguir em frente ou simplesmente que não entendemos porque Ele está agindo de certa maneira. Como Jacó e tantos outros, lutamos com Deus hoje também. Perguntamos “por quê?” e nos revoltamos diante da injustiça como os salmistas. Entramos em depressão como Elias e temos surtos suicidas como Jonas. Até insistimos com Deus pra que Ele pare de nos tratar e retire logo o espinho que tanto incomoda a nossa carne, como fez Paulo! Então, por acaso somos melhores do que todos eles?

Porque ter que fingir que sou um crente imbatível? Não! Recuso-me a mascarar a minha fé. O meu Cristo sabe o que é o sofrimento, a angústia e a solidão. Não foi Ele quem no Getsêmani disse: "Se possível, passa de mim esse cálice"? E com isso estaria recusando aquela cruz? Nunca, jamais! Estava sendo genuinamente humano em sua agonia, muito mais do que qualquer um de nós poderá ser um dia. O escritor de Hebreus nos diz que Ele "ofereceu, com grande clamor e súplicas, orações a Deus, que era capaz de livrá-lo da morte" (Hb 5.7). Mas e então, Ele foi liberto? Não. Deus ouviu sua oração? Sim, mas Ele não foi liberto da morte. E não é assim conosco também? Não nos angustiamos com o silêncio de Deus – como se Ele se escondesse de nós? "Porque me desamparaste?", Ele clama na cruz. E se sentia desamparado mesmo. Na cruz vimos algo totalmente inédito: era Deus lutando com Deus! Pois Jesus, sendo Deus perfeito, era também o meu e o teu pecado sendo punidos pelo mesmo perfeito Deus! E a maior das angústias do Senhor não foi ter seu corpo despedaçado em feridas ou ver o seu nome difamado pela multidão, mas a interrupção de uma união eterna entre Ele, o Pai e o Espírito. Nosso pecado foi capaz de separar Deus de Seu Filho amado. Sim, Deus nos amou de tal maneira que deu Seu Filho. E Jesus nos amou de tal maneira que, ao entregar Sua vida, se tornou o pecado maldito, provando o que jamais mereceria: a separação e a ira do eterno Deus Pai.

Sei que terei que lutar muitas vezes e por isso recuso-me a me apegar a fórmulas simples de fé. Não vou fingir ser o que não sou e sentir o que não sinto, porque Deus não exige isso de mim. Ainda que a minha fé esteja por um fio e eu leve um coração angustiado, confuso ou decepcionado à Sua presença, sei que Ele me ouvirá, mesmo que eu não consiga entender como. Este pode não ser o caminho mais vistoso e admirado pelos homens, mas foi trilhado pelos verdadeiros filhos de Deus. Ser aquele que reconhece como Isaías: “E não há quem invoque o teu nome, que desperte, e te detenha; pois escondeste de nós o teu rosto e nos consumiste” (Is 64.7) é participar da mortificação de Cristo. E como bem disse Spurgeon: “A alguns espíritos selecionados é dado [...] o especial e tremendo conflito de entrar no círculo íntimo e ouvir as súplicas do Sumo Sacerdote sofredor; eles tem comunhão com Ele em seus sofrimentos, e se identificam com Ele em sua morte”. Tal caminho poucos tomam como um privilégio. Porém, a todos aqueles que lutam, Deus tem revertido suas feridas em marcas profundas de mudança. E assim como Jacó, estas marcas nos farão “lutar com Deus e com os homens e prevalecer” (Gn 32.28). Que o próprio Deus nos dê graça para isso.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!
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