sexta-feira, 11 de março de 2011

Raízes católicas de um Brasil intolerante

Festas locais e shows de bandas diversas misturados à celebração de missas, gestos do dia a dia repletos de superstições e ritos, estabelecimentos e repartições públicas “protegidos” por imagens de santos. Tudo isso se justificaria se o Brasil não fosse, há muito tempo, um Estado laico – sem religião oficial. A formação da cultura brasileira está profundamente arraigada ao catolicismo e isto se comprova na imensa “manifestação tradicional de fé católica”, tão facilmente visível na cultura popular. O Brasil é considerado hoje o maior país do mundo em população católica. Mas você sabe por quê? Já teve a curiosidade de compreender como o catolicismo se tornou uma entidade tão encravada na nossa identidade nacional?

Para entendermos como tudo isso aconteceu é preciso retornar ao tempo da Reforma, quando o Brasil começou a ser colonizado. Em 1517, Lutero tornava a Europa palco de transformações profundas e permanentes. Numa época onde religião e política estavam fortemente ligadas, a Reforma Protestante representava uma nova proposta de mundo. As idéias reformistas avançavam rápido, causando crescente preocupação à Igreja Romana. E foi justamente neste contexto de conflitos que se iniciaram os processos de colonização da América. Tanto para o Catolicismo Romano como para o Protestantismo Reformado, o novo continente se tornaria o elemento crucial na definição do futuro: ou se procurava expandir, acompanhando as expedições ao Novo Mundo, ou restava se concentrar na Europa, agravando mais ainda as tensões religiosas.

Enquanto a Reforma se espalhava por países como Alemanha, França, Inglaterra, Holanda e Suíça, a Contrarreforma teve mais êxito em Portugal e na Espanha, onde os ideais reformistas foram barrados através da Inquisição. Em meio a tudo isso, nascia a “Companhia de Jesus” – ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola em 1534 – cujos membros ficaram conhecidos como “jesuítas”. Osvaldo Hack afirma que Roma usou os jesuítas “como o exército de choque para combater os hereges mulçumanos, judeus e protestantes”, e que isto “representou uma tomada de posição quanto à expansão do catolicismo em termos de missões internacionais” (HACK, 2007, p. 43-44). Desta forma, como parte da proposta do Concílio de Trento (1545-1563), a Igreja Católica ganhava a sua tropa de elite, que reconquistaria seus espaços no mundo, sobretudo na América. O catolicismo se tornava pioneiro na evangelização da América e o instrumento usado para isso foi a tal Companhia.

Junto a Tomé de Souza, os jesuítas desembarcam no Brasil em 1549, liderados pelo padre Manoel da Nóbrega, e a partir de 1580, seriam seguidos por diversas outras ordens católicas. O estabelecimento dos jesuítas no Brasil significava a conquista de um território para Roma, e como tal, demandava defesa contra os inimigos. A Companhia de Jesus iria, então, inserir na colonização do Brasil um tom de “catequese cultural”, transferindo o conturbado ambiente político-religioso da Reforma para a nova colônia. Frans Schalkwijk, citado por Hack, revela que “desde o início, a consciência religiosa do recém-descoberto Brasil seria moldada sob o signo da contrarreforma católico-romana” (HACK, 2007, p. 71), apontando para a influência repressiva do catolicismo da Contrarreforma sobre a colônia. Maria Lucia Aranha, também citada por Hack, observa que os jesuítas “promoveram uma ação maciça na catequese dos índios, educação dos filhos dos colonos, formação de novos sacerdotes e da elite intelectual, além do controle da fé e da moral dos habitantes da nova terra” (HACK, 2007, p. 72), dominando a sociedade colonial em todas as áreas que lhes eram possíveis. Como se pode notar, são desta ordem católica os primeiros colégios e modelos de ensino, além das bases ideológicas que formariam a futura sociedade brasileira.

A partir daquele ano, com a fundação da Cidade de Salvador, Portugal procuraria intervir diretamente no governo da colônia, criando órgãos locais de administração – chamados no Brasil de “câmaras”. Então, começariam a se tornar mais visíveis os primeiros efeitos do catolicismo lusitano na sociedade brasileira que estava nascendo. Estas câmaras eram compostas com critérios rigorosos. Para ocupar cargo, era imprescindível que o escolhido fosse um português puro, do sexo masculino, católico, rico e defensor do rei – o chamado “homem bom”. Francisco da Silva destaca que Portugal “impunha a obrigação de ‘pureza de sangue’ para ser oficial da câmara, ou seja, não ter ‘mancha’ de sangue negro, judeu ou mouro” e completa que, no caso raro da escolha de mulatos, “fazia-se um notório esforço de estabelecer-se uma ascendência imaginária com índios, não discriminados pela legislação” (SILVA, 1990, p. 38). Como já era evidente desde a doação das capitanias, Portugal introduzia uma divisão étnico-social no Brasil, onde a inferioridade ganhava aspecto legal e justificativa ideológica.

A condição legal de escravo ou livre era a maior tipo de distinção social na colônia, mas haviam outras distinções que a completavam – como a cor de pele, o sexo, as posses, a profissão e, é claro, a religião. Stuart Schwartz destaca que “um tipo peculiar de sociedade desenvolveu-se” aqui, pois, “devido às distinções jurídicas entre escravos e livres, aos princípios hierárquicos baseados na escravidão e na raça, às atitudes senhoriais dos proprietários e à deferência dos socialmente inferiores”, como conclui, “o escravismo criou os fatos fundamentais da vida brasileira” (SCHWARTZ, 1998, p. 209). A junção entre características particulares da sociedade portuguesa, a existência de um número gigantesco de pessoas discriminadas legalmente e a presença de um órgão formador de opinião – o catolicismo – que “justificava através da fé” toda essa estrutura, resultou em marcos culturais que até hoje são sentidos na sociedade brasileira.

Com a proclamação da Independência, o Brasil ganhava sua primeira Constituição, em 1824. Entre outros pontos, o catolicismo era declarado religião oficial, ficando estabelecida também a liberdade religiosa. Contudo, as restrições aos não-católicos eram enormes: não se podia professar a fé publicamente e o culto só poderia ser praticado em locais particulares, sem aspecto externo de templo – como portar uma cruz, por exemplo. Hack observa que até esse tempo “os padres católicos exerciam forte vigilância em suas paróquias, aplicando várias punições para os que seguissem a orientação protestante”, que chegavam à excomunhão, “criando problemas posteriores, porque o excomungado não poderia casar legalmente, ficado sem o direito da herança familiar” (HACK, 2007, p. 167). Somente em 1863, com o decreto imperial n° 3069, os protestantes conseguiram o reconhecimento do registro de nascimento, casamento e óbito de pessoas que não professassem a religião do Estado. Apesar disso, violentas perseguições aos protestantes brasileiros continuariam acontecendo.

Desta forma, estavam fincadas as raízes católicas de um Brasil intolerante, que ainda discrimina racialmente seu povo, privilegia com base no compadrio e, como destaco aqui, possui uma aversão ao protestantismo historicamente construída – fruto direto da Contrarreforma. Em 1889, o Brasil proclamava-se República e separava o Estado da religião. Contudo, a influência descrita continuaria a desdobrar-se ao longo de toda a história do Brasil. Ser “brasileiro” – ou fazer parte da sociedade, porque ainda não havia um país aqui – durante mais de 300 anos significou ser católico. Não por acaso o evangelho enfrentou extremas dificuldades em terras brasileiras, e não sem razão existe ainda uma discriminação tão culturalmente difundida contra qualquer religiosidade não-católica. O brasileiro aprendeu de sua cultura a não só misturar “sua religião tradicional” às mais diversas coisas em sua vida – ainda que em nada comunguem com o catolicismo – mas também a rejeitar tudo que a confronte. Por isso mesmo, nossos meios de comunicação a difundem, nossos líderes a reverenciam e nossos costumes a perpetuam.

Sendo assim, o desafio de Rm 12.2 de “não se conformar com este mundo” tem um significado especial para nós cristãos brasileiros. Como igreja de Cristo, devemos notar que a nossa batalha não é somente espiritual, mas também cultural. Precisamos entender que nos cumpre “renovar a mente” de uma nação para que a transformação aconteça (Rm 12.2)! Será possível resgatar este país de um estado de cegueira tão estabelecido? Sim, mas somente se a igreja brasileira retomar a mais potente espada contra a tradição que a história já conheceu: a pregação da verdade sob os moldes da Reforma Protestante. O “antigo” evangelho, pregado de maneira pura, clara e ousada – como fizeram os reformadores – é a arma que “esmaga a cabeça da serpente”, seja qual for o tempo e lugar, pois, “nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2Co 13.8). Brasil, voltemos hoje à Reforma. Lutemos contra as cadeias que prendem esta “terra adorada” há tanto tempo. Reconstruamos a história desta “pátria amada” sob o seu lema: somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé e somente a Deus toda a glória. Amém.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

Referências Bibliográficas:
HACK, Osvaldo Henrique. Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial: uma releitura da história do cristianismo brasileiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Conquista e Exploração da América Portuguesa: in LINHARES, Maria Yedda (org). História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.

5 comentários:

Victor Cavalcante disse...

Muito legal e muito bem fundamentada sua explanação sobre as raízes católicas no Brasil! Realmente o catolicismo por ter entrado por osmose no Brasil Colônia se fortaleceu tomando como base sua doutrina como axioma. Muitas pessoas morreram e muitas escrituras foram perdidas... mas tudo isso está para cair por terra e em breve Jesus estará de volta e nos revelará toda a verdade que por hora não estamos preparados para recebê-la.
Jesus te abençoe e continue te dando sabedoria para levar a Palavra de Deus!
Forte abraço!

Jenuíno disse...

Muito bacana teu espaço...
Já estou seguindo!

" Analisando tudo, retendo o que é de proveito, pra ver se me recontruo ou fico guardado"

Abraços do Rafah
http://eternizadoempalavras.blogspot.com/

JUVENBAPI disse...

E aê meu irmão...
Por vezes, quando pequeno me perguntava porque a maioria das pessoas que eu conhecia eram católicas, porque nos colégios afirmar ser evangélico, não falo protestante porque acho que boa parte de nós perdeu essa linha, afinal "virou moda" ser crente, temos pessoas acomodadas, confortáveis em sua morosidade espiritual longe de serem "protestantes"... Mas retomando, ao me declarar evangélico percebia que era tratado diferente, o cenário a minha volta era católico e eu era evangélico, por quê? Por que a grande maioria das pessoas ao meu redor se declaram ser católicas? Cresci e aprendi que o evangelho está longe de tradições, dogmas humanos, de instituições alicerçadas na palavra distorcida e na força, assim como nos tempos anteriores ao de Jesus, onde a Lei de Moisés distorcida, virou um mecanismo de "domesticação", de contenção social, por parte dos fariseus, como esta escrito: a lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele (Lc 16:16);E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele.Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João (Mateus 11:12-13). Descobri que existe o "católico praticante", então eu me pergunto: o não praticante é o quê? Números para estatisticas que tentam fortalecer um instituição amarrada a mecanismos humanos, políticos, seculares. Descobri que a maioria deles não sabe nem o porquê de ser católico, alguns até tentam justificar: "Meus pais eram, eu sou também".
Cpntra fatos, não há argumentos... Gostei muito da sua alusão histórica... Professor é Professor...Rsrrsrsrsrsrsrsrs...
Embasa, em muito, o sermos "protestantes", pessoas que não devem se calar frente a cegueira espiritual do povo brasileiro. Sendo assim, devemos anunciar a palavra pura e genuína do Senhor, sem arrodeios doutrinários, mas pregando, mostrando a verdade da palavra de Deus a esse povo.

Deus continue te usando meu irmão...

Não vou continuar elogiando, apesar que eu sei que você sabe se defender de elogios... Rsrsrsrss..

Você é um benção!!!!!!!!

Abraço, fica na paz do Senhor...

Brunna disse...

Amigo, como sempre vc arrasa escrevendo!
Mesmo q em história eu seja leiga ao cubo...rs
Mas resumindo minha opnião:
Vem nossa "religiosidade", muito mais a influência das religiões e cultura africanas, do q qlqr outra religião ou cultura.
Não vejo o Brasil como um país católico, mas q se denomina católico. O Brasil é sim um país místico e superticioso, embaladado pelo sincretismo religioso nos braços da cultura afro. Somos regidos por um sincretismo religioso tão amplo q é impossível delinear filosofias distintas. A sombra da influência afro passeia pelas nossas mais diversas denominações religiosas, desde as pentecostais, passando pelas seitas e atingindo seu auge no catolicismo romano(tão místicos em seu culto e doutrinas, q suscitaria novos jesuítas para "recatequisá-los").
Enfim somos mais negros do q portugueses ou até mesmo índios.

Herisson B. Pereira disse...

"Recatequese jesuíta de católicos" hoje. Nossa Bruna, observação excepcional!
Deus abençoe tua vida, amiga!

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