segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

É permitido ser livre

“Meu Deus, devo ou não fazer isso?” – esta é, com certeza, uma das perguntas mais feitas pelos cristãos em todos os tempos. E eu, como qualquer um, já a fiz muitas vezes também. Durante muito tempo em minha vida, fui questionado sobre o que um crente pode ou não fazer – aliás, até hoje. Por isso, decidi escrever um pouco sobre esta difícil questão, que é vital para todo bom cristão. E você? Já tem plena certeza de que o que você faz é certo e de que tudo o que te disseram pra não fazer é mesmo proibido por Deus? Esta questão, geralmente chamada de “usos e costumes”, é extremamente polêmica – confesso. Depois dos dons espirituais, é a principal causa de divisões entre as igrejas evangélicas. Mas não pretendo ser menos polêmico em minha proposta. Estou convicto de que é possível saber com segurança o que podemos ou não fazer, ainda que não seja simples. Proponho que a resolução da aparente contradição da Bíblia em proibir e permitir está em agir de acordo, ao menos, com três diretrizes.

Não que eu tenha descoberto a solução definitiva para esta antiga discussão da Igreja – imagine. Apenas a considero uma tentativa atual e eclética de solução e, portanto, uma boa opção. Sendo assim, a primeira diretriz que proponho é a de Observar o Princípio Permanente dentro da Forma Cultural de Expressão Bíblica. E o que seria isso? Bem, é preciso entender que a revelação que Deus fez a nós não é exaustiva – ou seja, Deus não nos fez conhecer tudo sobre Ele. Deus selecionou apenas o que era necessário saber, principalmente, para podermos nos relacionar com Ele. Além disso, esta revelação foi dada dentro de uma determinada cultura e tempo. Por isso, para compreendermos a verdade bíblica, precisamos interpretar cada texto em seu devido contexto histórico – o significado que o escritor bíblico quis dar quando escreveu – e depois expressar o conteúdo de maneira culturalmente compatível com o nosso tempo. Estou me referindo à necessidade de contextualizar o ensino da Bíblia. Existe uma verdade eterna e imutável – um princípio permanente – na forma como cada mandamento é expresso na Bíblia, ainda que pareça que ele só se refira a costumes de culturas antigas (como a proibição de comer certos alimentos em Lv 11). Se isto não for considerado, corremos o risco de perder o significado original da Bíblia, ou como é o caso aqui, podemos apenas transferir aspectos particulares das culturas onde a Bíblia foi escrita para a nossa, sem identificar a intenção de Deus ao dar determinado mandamento.

Além disso, precisamos notar a origem da verdade. Nem toda a verdade está dentro da Bíblia – entretanto, ela é a verdade suficiente para a salvação e autoridade máxima na vida cristã – e nem tudo o que está fora da Bíblia é errado ou mentira. Este é um ponto crucial nesta questão e devo ilustrá-lo. Há na Bíblia citações de escritores pagãos, como Arato (At 17.28), Menander (1Co 15.33) e Epimênides (Tt 1.12), ou de profetas cuja profecia não aparece entre os livros considerados inspirados por Deus, como é o caso de Enoque 1.9 (em Judas 14-16). Estaríamos diante de erros na Bíblia? Não, jamais. Estes escritos foram selecionados pelo próprio Deus através de seus escritores bíblicos. Contudo, trata-se somente de verdades verificáveis contidas nestes livros, não implicando que eles, em si mesmos, possuam autoridade divina. Devemos compreender, então, que mesmo sendo a Bíblia o principal veículo da verdade de Deus, não é por isso o único. Deus fala de muitas maneiras (Hb 1.1) e o universo criado por Ele é em si um meio de comunicar a verdade (Sl 19.1). Desta forma, podemos afirmar que toda verdade é uma verdade proveniente de Deus e a Ele pertence, ainda que ela não se encontre na Bíblia.

É preciso, em segundo lugar, Compreender Nossa Maturidade Espiritual e Nunca Agir Contra Nossa Própria Consciência. “Posso fazer todas as coisas, mas nem tudo devo fazer”, diz Paulo em 1Co 10.23. Sabemos que a salvação não é um pacote pronto, que uma vez recebido, nos transforma automaticamente em cristãos maduros. É nossa a responsabilidade de avaliar a própria caminhada cristã e crescer pela alimentação com verdades espirituais cada vez mais profundas (Hb 5.11-14). Perceba, entretanto, que existem realidades espirituais para as quais nem todo cristão está preparado no momento. Por isso, é a nossa consciência quem define se estamos aptos ou não a fazer algo – claro, estando submetida à autoridade da verdade bíblica, o que já falei. Ninguém deve ser forçado a fazer ou deixar de fazer algo, até que em sua consciência entenda e encontre paz para fazê-lo (Rm 14.20-23). Paulo não faz restrições à liberdade cristã porque “tudo o que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graça, nada é recusável” (1Tm 4.4). Nenhuma coisa em si mesma é pecaminosa, pois sabemos que o pecado é uma questão de como reagimos às circunstâncias – é o que sai do coração que nos contamina (Mt 15.11). Mas, ele diz também que “nem tudo convém” fazer. E apesar de nos ser dada ampla liberdade, é a nossa consciência – cativa às Escrituras – que determina o que podemos ou não fazer, embora ela, por si só, não encerre a questão.

Isto nos leva a terceira diretriz: Respeitar a Maturidade Cristã da Comunidade da Qual Fazemos Parte. Nossa liberdade é limitada pelo bem espiritual da comunidade na qual estamos inseridos (1Co 10.32-33). A interdependência dos membros da Igreja é tão importante que é comparada ao corpo humano por Paulo. Há uma união vital entre cada um dos remidos, de modo que ninguém, sozinho, está completo em Cristo. Por isso, nossa liberdade deve levar em conta o cuidado mútuo entre os cristãos. Assim, apesar de a nossa própria consciência determinar a amplitude da liberdade que temos, é a consciência do próximo que determina o limite de uso dela. Não se deve escandalizar – ofender a consciência dos irmãos fracos na fé (1Co 8. 8-13). E entendo que aqui se inclui não só a convivência com os irmãos da comunidade a qual pertencemos, mas também qualquer irmão de uma denominação genuinamente evangélica – eis aí outro fator complicador. Paulo declara, em várias passagens, abster-se de diversas coisas em algumas ocasiões por conta dos fracos. Aprendemos disto que a liberdade deve ser sempre regida pelo amor, preferindo em honra os outros (Rm 12.10). Lembremos, porém, que só os fracos se escandalizam! Esta não deve ser uma situação permanente. O fraco precisa ser conduzido à maturidade, e deve ser imediatamente instruído, para que cresça na fé (1Ts 5.14, cf. Hb 5.11-14).

Tendo proposto estas diretrizes, quero analisar, com exemplo prático, o uso cristão da música. O que define se uma música é boa ou não para o cristão? Alguns tem feito uma divisão rígida entre “música cristã” e “música mundana”. Para fins objetivos, se usa “música cristã” significando que o cristão só pode usar músicas feitas por cristãos ou com conteúdo cristão. Como citei, nem toda a verdade está na Bíblia e a própria Bíblia faz uso de “verdades mundanas” – presentes no universo. Não estariam também as verdades divinas à disposição dos ímpios, e estes não poderiam notá-las, descrevê-las e aplicá-las, mesmo não honrando a Deus em sua consciências caídas (como Newton e a teoria da gravidade)? A verdade deixa de ser verdade só porque saiu da boca de um ímpio? Do mesmo modo, se usa “música mundana” significando todo o tipo de música feita por incrédulos e que não traz edificação. Mais uma vez fazemos objeção: toda música “mundana” não edifica? O que dizer das sinfonias da música clássica, ou das letras profundas de nossa MPB? Além disso, não existem também cristãos que fazem músicas que não edificam? – e seriam, então, músicas mundanas? Existe um verdadeiro remendo de textos bíblicos desconexos e até ofensivos, rotulados como música “gospel” tocando por aí. Ou vai me dizer que você também canta que “Jesus não é dinheiro, mas ele é real”?

Controvérsias à parte, proponho outra divisão: entre boa música e má música. A boa música, independente de ritmos e gêneros, deve ser qualificada como aquela que contribui para o enriquecimento do ser humano, seja no âmbito espiritual, intelectual ou emocional. Como já citei, existem músicas riquíssimas sobre a nossa cultura, que discorrem sobre a nossa história e refletem nossa realidade social, sem necessariamente se encontrarem em nossos livros de cânticos. Por outro lado, a má música é o oposto – desvirtua e aliena o ser humano, pois não tem conteúdo. Aqui é importante lembrar que, atualmente, o meio gospel está tomando um caminho extremamente perigoso, o do “mercado da fé”. Todo ano é preciso lançar um cd novo, e desta forma, perde-se o cuidado com os arranjos das músicas – que se tornam repetitivos – com os temas dos trabalhos – que viram rótulos e modismos comerciais, copiados e massificados – e principalmente com as letras das músicas – cada vez mais pobres, focando o individual ao invés do coletivo, o homem ao invés de Deus.

Por fim, devo ainda salientar algo importante na música. É preciso entender que toda música tem função e ocasião determinadas. Ninguém toca heavy metal num velório – exceções à parte – e garanto que nunca ouvi uma valsa quando o Brasil foi campeão de futebol. Destaco este ponto porque a música tem a incrível capacidade de, além de fixar conceitos e formar opinião, mexer com nossas emoções. Através dela é possível agitar ou acalmar alguém, como fez Davi com Saul (1Sm 16.23). Por isso mesmo, ritmos e estilos musicais devem ser usados com sabedoria, de maneira apropriada, seja para o bem individual ou coletivo. Não quero dizer com isso que existam ritmos pecaminosos – como se rotulou o rock, o funk, o dance e o techno de demoníacos, entre outros. Pelo contrário, acredito sim que há um mau uso destes e é isto o que desqualifica uma determinada música. Santificar a música é algo que compete ao músico ou ouvinte fazer. Somos nós que santificamos as coisas – e isto através do uso – não o contrário. E seja na música ou em qualquer outro âmbito da cultura, somos livres em Cristo hoje. A nossa missão é mostrar ao mundo o usufruto correto de toda a criação de Deus, pondo em plena harmonia criatura e criatura, criatura e Criador. É permitido ser livre. Mas, lembremos sempre que o fim de todas as coisas é o próprio autor da liberdade, o soberano Deus.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!
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