quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lutando com Deus hoje

O momento mais difícil que um ser humano um dia pôde enfrentar havia chegado. O corpo surrado por horas de tortura insaciável talvez já não pudesse resistir à dor que se alastrava em cada nervo. Talvez a mente debilitada pelas dementes palavras de rejeição procurasse o refúgio que os olhos não podiam oferecer. Mas o céu escuro parecia uma cortina de ferro. Tudo lhe havia fugido. Nem calor humano, nem brilho do sol e, agora, nem mesmo o seu Deus estava ali. Uma angústia mortífera envolve o seu coração e dilacera sua alma completamente. E das poucas forças que ainda lhe restavam, ele lança ao céu um clamor: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Porém, desta vez, nenhuma resposta lhe viria além do silêncio.

Como é difícil acreditar que este é o final da vida terrena do Senhor Jesus! Estas célebres palavras encontradas no Salmo 22.1, que o próprio Davi escreveu, foram repetidas por Ele na cruz. Palavras intensas que misturam o sentimento de abandono com a certeza de que Deus está por perto – como isso seria possível? Vemos o Filho de Deus enfrentando o terror da cruz, porém sozinho. Sua alma desfalecida procura o auxílio divino, mas não consegue encontrá-lo. O que teria acontecido aos anjos que o assistiram na tentação do deserto ou ao anjo que o consolou no jardim? Onde estaria a voz que no batismo havia declarado ao mundo: “Este é meu Filho amado, em quem tenho prazer”? Porque Deus havia abandonado o Seu próprio Filho? Bem longe daquele romantismo que ouvimos na maioria das explicações por aí, aqui se revela a mais dura das realidades da vida do cristão: ele também se decepciona com Deus.

Sei que acabei de fazer declarações fortes. Mas não perdi a minha fé nem estou revoltado com Deus – aviso logo. Apenas me sinto, em alguns momentos, do mesmo jeito que o Senhor – abandonado no momento mais difícil da vida. E sei que esta experiência se repete, de maneiras diferentes, na vida de inúmeros cristãos no mundo. Solidão, mudanças sem lógica, frustração. Em cada uma dessas experiências atordoantes as mesmas perguntas ecoam pelo ar: “onde está Deus agora?”, “Deus se importa mesmo comigo?”, “porque Deus não faz nada?”. Perguntas sinceras, muitas vezes sufocadas nas “fórmulas mágicas evangélicas”, do tipo: “creia, pois se você não tiver fé o milagre não acontece!” ou “não aceite a situação, diga como Paulo: tudo posso naquele que me fortalece!”. Os fariseus de nosso tempo insistem em recriminar a dúvida, o questionamento e a decepção, e as expulsam da vida de um cristão verdadeiro. Para os “pilantras da fé”, o evangelho torna o crente imbatível contra a doença, a pobreza e o sofrimento. Mas, como o próprio Jesus nos mostra nesta experiência única – talvez eles não a tenham lido ainda – há mesmo momentos em que os cristãos irão ter a decepcionante sensação de que Deus está longe.

Devemos questionar a Deus? Por vezes, alguns nos repreendem com a velha e mastigada frase: “não pergunte a Deus o porquê. Pergunte pra que!” – acho que Jesus discordaria. E ainda que eu compreenda a boa intenção desses argumentos, sei que eles causam um dano muito maior do que querem evitar. Por conta da necessidade de se manter uma “fé inabalável”, o cristianismo de nossas igrejas tem entrado em colapso, confundindo fé com fanatismo e confiança com presunção – como se nós cristãos não estivéssemos sujeitos à fraqueza! Porém, a Bíblia não esconde essa verdade. Os mais santos homens de Deus também sofreram com seus questionamentos e “lutaram com Deus”, à semelhança de Jacó. Moisés e seu comovente pedido para entrar na Terra Prometida, Davi e sua oração pela vida do filho de seu adultério com Bate-Seba ou João Batista ao perguntar a Jesus se Ele era mesmo o Cristo. Todos eles questionaram a Deus pelo simples fato de serem humanos. Assim como eles, somos limitados, e ainda que a nossa lógica se firme sobre as mais complexas teorias, nunca poderemos compreender a Deus como de fato queremos. Aliás, este é o desafio de Deus para o sofredor Jó: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-me saber, se tens inteligência” (Jó 38.4).

Contudo, estes homens tiveram a coragem de expor a Deus os seus questionamentos mais cambaleantes e, pra nosso espanto, foram ouvidos por Ele. E como a luta corporal entre Jacó e o Anjo do Senhor simbolizava a guerra interior dele mesmo com o seu Deus, nossas lutas pessoais nos põem diante de Deus como realmente somos. Longe de nos afastarem do céu, elas confirmam a pureza de nossa fé, que mesmo fraca e limitada não consegue subsistir sem Deus. Apesar disso, sei que cristãos como estes serão menosprezados e até vistos com receio pelos outros. Mas, ainda assim, prefiro ser sóbrio e encarar a vida e a fé como um ser humano real, sem soluções fáceis e baratas. Somos humanos e por isso sofremos. Às vezes, precisamos dizer a Deus que é difícil seguir em frente ou simplesmente que não entendemos porque Ele está agindo de certa maneira. Como Jacó e tantos outros, lutamos com Deus hoje também. Perguntamos “por quê?” e nos revoltamos diante da injustiça como os salmistas. Entramos em depressão como Elias e temos surtos suicidas como Jonas. Até insistimos com Deus pra que Ele pare de nos tratar e retire logo o espinho que tanto incomoda a nossa carne, como fez Paulo! Então, por acaso somos melhores do que todos eles?

Porque ter que fingir que sou um crente imbatível? Não! Recuso-me a mascarar a minha fé. O meu Cristo sabe o que é o sofrimento, a angústia e a solidão. Não foi Ele quem no Getsêmani disse: "Se possível, passa de mim esse cálice"? E com isso estaria recusando aquela cruz? Nunca, jamais! Estava sendo genuinamente humano em sua agonia, muito mais do que qualquer um de nós poderá ser um dia. O escritor de Hebreus nos diz que Ele "ofereceu, com grande clamor e súplicas, orações a Deus, que era capaz de livrá-lo da morte" (Hb 5.7). Mas e então, Ele foi liberto? Não. Deus ouviu sua oração? Sim, mas Ele não foi liberto da morte. E não é assim conosco também? Não nos angustiamos com o silêncio de Deus – como se Ele se escondesse de nós? "Porque me desamparaste?", Ele clama na cruz. E se sentia desamparado mesmo. Na cruz vimos algo totalmente inédito: era Deus lutando com Deus! Pois Jesus, sendo Deus perfeito, era também o meu e o teu pecado sendo punidos pelo mesmo perfeito Deus! E a maior das angústias do Senhor não foi ter seu corpo despedaçado em feridas ou ver o seu nome difamado pela multidão, mas a interrupção de uma união eterna entre Ele, o Pai e o Espírito. Nosso pecado foi capaz de separar Deus de Seu Filho amado. Sim, Deus nos amou de tal maneira que deu Seu Filho. E Jesus nos amou de tal maneira que, ao entregar Sua vida, se tornou o pecado maldito, provando o que jamais mereceria: a separação e a ira do eterno Deus Pai.

Sei que terei que lutar muitas vezes e por isso recuso-me a me apegar a fórmulas simples de fé. Não vou fingir ser o que não sou e sentir o que não sinto, porque Deus não exige isso de mim. Ainda que a minha fé esteja por um fio e eu leve um coração angustiado, confuso ou decepcionado à Sua presença, sei que Ele me ouvirá, mesmo que eu não consiga entender como. Este pode não ser o caminho mais vistoso e admirado pelos homens, mas foi trilhado pelos verdadeiros filhos de Deus. Ser aquele que reconhece como Isaías: “E não há quem invoque o teu nome, que desperte, e te detenha; pois escondeste de nós o teu rosto e nos consumiste” (Is 64.7) é participar da mortificação de Cristo. E como bem disse Spurgeon: “A alguns espíritos selecionados é dado [...] o especial e tremendo conflito de entrar no círculo íntimo e ouvir as súplicas do Sumo Sacerdote sofredor; eles tem comunhão com Ele em seus sofrimentos, e se identificam com Ele em sua morte”. Tal caminho poucos tomam como um privilégio. Porém, a todos aqueles que lutam, Deus tem revertido suas feridas em marcas profundas de mudança. E assim como Jacó, estas marcas nos farão “lutar com Deus e com os homens e prevalecer” (Gn 32.28). Que o próprio Deus nos dê graça para isso.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Raízes católicas de um Brasil intolerante

Festas locais e shows de bandas diversas misturados à celebração de missas, gestos do dia a dia repletos de superstições e ritos, estabelecimentos e repartições públicas “protegidos” por imagens de santos. Tudo isso se justificaria se o Brasil não fosse, há muito tempo, um Estado laico – sem religião oficial. A formação da cultura brasileira está profundamente arraigada ao catolicismo e isto se comprova na imensa “manifestação tradicional de fé católica”, tão facilmente visível na cultura popular. O Brasil é considerado hoje o maior país do mundo em população católica. Mas você sabe por quê? Já teve a curiosidade de compreender como o catolicismo se tornou uma entidade tão encravada na nossa identidade nacional?

Para entendermos como tudo isso aconteceu é preciso retornar ao tempo da Reforma, quando o Brasil começou a ser colonizado. Em 1517, Lutero tornava a Europa palco de transformações profundas e permanentes. Numa época onde religião e política estavam fortemente ligadas, a Reforma Protestante representava uma nova proposta de mundo. As idéias reformistas avançavam rápido, causando crescente preocupação à Igreja Romana. E foi justamente neste contexto de conflitos que se iniciaram os processos de colonização da América. Tanto para o Catolicismo Romano como para o Protestantismo Reformado, o novo continente se tornaria o elemento crucial na definição do futuro: ou se procurava expandir, acompanhando as expedições ao Novo Mundo, ou restava se concentrar na Europa, agravando mais ainda as tensões religiosas.

Enquanto a Reforma se espalhava por países como Alemanha, França, Inglaterra, Holanda e Suíça, a Contrarreforma teve mais êxito em Portugal e na Espanha, onde os ideais reformistas foram barrados através da Inquisição. Em meio a tudo isso, nascia a “Companhia de Jesus” – ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola em 1534 – cujos membros ficaram conhecidos como “jesuítas”. Osvaldo Hack afirma que Roma usou os jesuítas “como o exército de choque para combater os hereges mulçumanos, judeus e protestantes”, e que isto “representou uma tomada de posição quanto à expansão do catolicismo em termos de missões internacionais” (HACK, 2007, p. 43-44). Desta forma, como parte da proposta do Concílio de Trento (1545-1563), a Igreja Católica ganhava a sua tropa de elite, que reconquistaria seus espaços no mundo, sobretudo na América. O catolicismo se tornava pioneiro na evangelização da América e o instrumento usado para isso foi a tal Companhia.

Junto a Tomé de Souza, os jesuítas desembarcam no Brasil em 1549, liderados pelo padre Manoel da Nóbrega, e a partir de 1580, seriam seguidos por diversas outras ordens católicas. O estabelecimento dos jesuítas no Brasil significava a conquista de um território para Roma, e como tal, demandava defesa contra os inimigos. A Companhia de Jesus iria, então, inserir na colonização do Brasil um tom de “catequese cultural”, transferindo o conturbado ambiente político-religioso da Reforma para a nova colônia. Frans Schalkwijk, citado por Hack, revela que “desde o início, a consciência religiosa do recém-descoberto Brasil seria moldada sob o signo da contrarreforma católico-romana” (HACK, 2007, p. 71), apontando para a influência repressiva do catolicismo da Contrarreforma sobre a colônia. Maria Lucia Aranha, também citada por Hack, observa que os jesuítas “promoveram uma ação maciça na catequese dos índios, educação dos filhos dos colonos, formação de novos sacerdotes e da elite intelectual, além do controle da fé e da moral dos habitantes da nova terra” (HACK, 2007, p. 72), dominando a sociedade colonial em todas as áreas que lhes eram possíveis. Como se pode notar, são desta ordem católica os primeiros colégios e modelos de ensino, além das bases ideológicas que formariam a futura sociedade brasileira.

A partir daquele ano, com a fundação da Cidade de Salvador, Portugal procuraria intervir diretamente no governo da colônia, criando órgãos locais de administração – chamados no Brasil de “câmaras”. Então, começariam a se tornar mais visíveis os primeiros efeitos do catolicismo lusitano na sociedade brasileira que estava nascendo. Estas câmaras eram compostas com critérios rigorosos. Para ocupar cargo, era imprescindível que o escolhido fosse um português puro, do sexo masculino, católico, rico e defensor do rei – o chamado “homem bom”. Francisco da Silva destaca que Portugal “impunha a obrigação de ‘pureza de sangue’ para ser oficial da câmara, ou seja, não ter ‘mancha’ de sangue negro, judeu ou mouro” e completa que, no caso raro da escolha de mulatos, “fazia-se um notório esforço de estabelecer-se uma ascendência imaginária com índios, não discriminados pela legislação” (SILVA, 1990, p. 38). Como já era evidente desde a doação das capitanias, Portugal introduzia uma divisão étnico-social no Brasil, onde a inferioridade ganhava aspecto legal e justificativa ideológica.

A condição legal de escravo ou livre era a maior tipo de distinção social na colônia, mas haviam outras distinções que a completavam – como a cor de pele, o sexo, as posses, a profissão e, é claro, a religião. Stuart Schwartz destaca que “um tipo peculiar de sociedade desenvolveu-se” aqui, pois, “devido às distinções jurídicas entre escravos e livres, aos princípios hierárquicos baseados na escravidão e na raça, às atitudes senhoriais dos proprietários e à deferência dos socialmente inferiores”, como conclui, “o escravismo criou os fatos fundamentais da vida brasileira” (SCHWARTZ, 1998, p. 209). A junção entre características particulares da sociedade portuguesa, a existência de um número gigantesco de pessoas discriminadas legalmente e a presença de um órgão formador de opinião – o catolicismo – que “justificava através da fé” toda essa estrutura, resultou em marcos culturais que até hoje são sentidos na sociedade brasileira.

Com a proclamação da Independência, o Brasil ganhava sua primeira Constituição, em 1824. Entre outros pontos, o catolicismo era declarado religião oficial, ficando estabelecida também a liberdade religiosa. Contudo, as restrições aos não-católicos eram enormes: não se podia professar a fé publicamente e o culto só poderia ser praticado em locais particulares, sem aspecto externo de templo – como portar uma cruz, por exemplo. Hack observa que até esse tempo “os padres católicos exerciam forte vigilância em suas paróquias, aplicando várias punições para os que seguissem a orientação protestante”, que chegavam à excomunhão, “criando problemas posteriores, porque o excomungado não poderia casar legalmente, ficado sem o direito da herança familiar” (HACK, 2007, p. 167). Somente em 1863, com o decreto imperial n° 3069, os protestantes conseguiram o reconhecimento do registro de nascimento, casamento e óbito de pessoas que não professassem a religião do Estado. Apesar disso, violentas perseguições aos protestantes brasileiros continuariam acontecendo.

Desta forma, estavam fincadas as raízes católicas de um Brasil intolerante, que ainda discrimina racialmente seu povo, privilegia com base no compadrio e, como destaco aqui, possui uma aversão ao protestantismo historicamente construída – fruto direto da Contrarreforma. Em 1889, o Brasil proclamava-se República e separava o Estado da religião. Contudo, a influência descrita continuaria a desdobrar-se ao longo de toda a história do Brasil. Ser “brasileiro” – ou fazer parte da sociedade, porque ainda não havia um país aqui – durante mais de 300 anos significou ser católico. Não por acaso o evangelho enfrentou extremas dificuldades em terras brasileiras, e não sem razão existe ainda uma discriminação tão culturalmente difundida contra qualquer religiosidade não-católica. O brasileiro aprendeu de sua cultura a não só misturar “sua religião tradicional” às mais diversas coisas em sua vida – ainda que em nada comunguem com o catolicismo – mas também a rejeitar tudo que a confronte. Por isso mesmo, nossos meios de comunicação a difundem, nossos líderes a reverenciam e nossos costumes a perpetuam.

Sendo assim, o desafio de Rm 12.2 de “não se conformar com este mundo” tem um significado especial para nós cristãos brasileiros. Como igreja de Cristo, devemos notar que a nossa batalha não é somente espiritual, mas também cultural. Precisamos entender que nos cumpre “renovar a mente” de uma nação para que a transformação aconteça (Rm 12.2)! Será possível resgatar este país de um estado de cegueira tão estabelecido? Sim, mas somente se a igreja brasileira retomar a mais potente espada contra a tradição que a história já conheceu: a pregação da verdade sob os moldes da Reforma Protestante. O “antigo” evangelho, pregado de maneira pura, clara e ousada – como fizeram os reformadores – é a arma que “esmaga a cabeça da serpente”, seja qual for o tempo e lugar, pois, “nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2Co 13.8). Brasil, voltemos hoje à Reforma. Lutemos contra as cadeias que prendem esta “terra adorada” há tanto tempo. Reconstruamos a história desta “pátria amada” sob o seu lema: somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé e somente a Deus toda a glória. Amém.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

Referências Bibliográficas:
HACK, Osvaldo Henrique. Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial: uma releitura da história do cristianismo brasileiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Conquista e Exploração da América Portuguesa: in LINHARES, Maria Yedda (org). História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Uma só necessidade

Duas irmãs, uma mesma casa. Quando imaginariam ter uma visita tão ilustre assim? Como toda boa dona de casa, sabiam que havia muito a fazer. Casa pra varrer, comida pra pôr à mesa, preparar o melhor quarto da casa – era preciso mesmo correr. E nessas horas, toda a ajuda é bem-vinda. Porém, só uma das mulheres parece perceber a urgência do momento. E enquanto uma irmã se desdobra em duas para dar conta do serviço, a outra parece arrumar no papo com o visitante uma desculpa para se livrar do trabalho duro. Isso parece justo pra você, que uma pessoa só faça todo o trabalho?

Confesso que durante algum tempo tive dificuldade em entender porque Jesus censurou a Marta. Acho que você já deve conhecer esta famosa história (Lc 10.38-42). Mas, pra mim, a questão nunca foi simples como dizer que Maria acertou pura e simplesmente porque se sentou aos pés de Jesus para ouví-lo. Ela também não abandonou sua irmã nas tarefas que cumprem à boa hospitalidade? Jesus não tinha fome, ou cansaço ou adoraria que lhe preparassem um bom banho? Tudo o que Marta estava procurando fazer – para o próprio Jesus – não era mesmo legítimo? Então porque ela estaria errando?

Talvez estas questões tornem este texto tão rememorado e ao mesmo tempo tão cheio de surpresas, tão simples e também tão profundo. Ele nos diz que Marta “agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços”. Com uma correria quase atual, Marta se torna o retrato real do que todo o cristão fiel deseja ser: zeloso, habilidoso e prestativo – um verdadeiro servo disposto a servir seu Mestre da melhor maneira possível. Contudo, é aqui que próprio Mestre revela lições sobre o serviço a Deus, as quais provou enquanto viveu entre nós como homem. Na verdade, ela estava enganada sobre como servi-Lo. Ela caiu numa ilusão muito sutil, que diariamente nos cerca também. Por incrível que pareça, Marta estava tão preocupada em mostrar sua capacidade de servir a Jesus que acabou esquecendo-se do próprio Jesus! E como isto é possível? Ela não havia percebido ainda – como nós por muitas vezes – que fazer algo para Cristo não significa necessariamente servir a Cristo.

Este é um dos pontos centrais deste episódio. Cristo estava tão próximo e Marta tão envolvida em trabalhos que, de alguma maneira – talvez pela própria proximidade – ela desviou sua atenção de quem estava servindo para como estava servindo, do servir para o serviço. “Relaxou” na certeza de ter Jesus bem ali ao seu lado, observando-a, e acabou perdendo de vista o que era realmente importante e necessário. Assim, Marta mostra a facilidade que todos nós temos de transformar as boas dádivas que recebemos de Deus em pedras de tropeço. Ela ignorou a Jesus mesmo enquanto o estava servindo, mesmo enquanto o tinha em sua própria casa. Algo que não está muito longe de nossa realidade, quando nos encontramos tão envolvidos no que fazemos na vida diária que Deus se torna apenas um ponto de referência e deixa de ser o objetivo final. Como a maioria de nós faz sem perceber, Marta se preocupou muito mais com sua aprovação do que com a adoração – mais consigo mesma do que com Deus. Você deve saber do que estou falando. É quando a intenção do coração não é mais o suficiente – é necessário também ser notado e agradar o nosso ego.

Porém, isso não é tudo. Jesus também mostra a Marta o perigo do ativismo. “Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas”. O bom desejo de fazer algo pra Deus, quase sempre, tem levado os cristãos de nosso tempo a manter uma longa rotina de “atividades cristãs”. Reuniões, cultos e eventos ocupam nossa vida de forma a quase não nos deixar algum tempo de sobra – há até quem “more na Igreja” nos fins de semana. Marta caiu neste erro. Ela estava envolvida com tantas atividades – mesmo que elas fossem de fato “pra Deus” – que não lhe sobrou tempo para o simples e necessário. “Pouco é necessário ou mesmo uma coisa”, lhe diz o Senhor. O ativismo tinha afetado seu senso de prioridades. Jesus, então, mostra a ela – e a nós – que a agitação e ocupação podem nos roubar a coisa mais preciosa e necessária deste mundo, o que Jesus chamou de “melhor parte”. Mais do que estar disposto a se desgastar no reino, mais do que fazer inúmeras coisas para Deus, Jesus mostra que é preciso, antes de tudo, estar com Ele. Este é o alerta de Cristo para Marta e deve ser ecoado a cada dia em nós. Não podemos permitir que esta vida se torne tão corrida e cheia de obrigações a ponto de nos roubar a comunhão com Cristo, ainda que tudo o que estejamos fazendo seja mesmo para Ele. Quantas vezes nosso dia tem terminado sem o refúgio do nosso quarto, sem o silêncio para ouvir a Deus em meio à turbulência da vida, sem uma oração de busca e entrega ao Senhor? Esta foi a grande diferença entre as duas irmãs – Maria havia percebido que cada um de nós tem, de fato, uma só necessidade: estar aos pés de Cristo.

Por outro lado, é inevitável não falar mesmo de Maria. Ela era culpada de abandonar sua casa em meio a uma importante visita, culpada de abandonar sua irmã nas tarefas de uma boa hospitaleira, culpada de amar mais a Cristo do que tudo ao seu redor. Ela sabia em seu coração o que o Mestre havia ensinado em outra oportunidade: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37). Era necessário estar com Jesus. Maria sabia que investir seu tempo na presença de Jesus lhe traria uma recompensa não apenas naquele instante, mas que também produziria uma parte no reino dos céus que “não lhe seria tirada”. Com esta extraordinária mulher, aprendo que nada deve demandar mais a minha atenção que o próprio Jesus. Que Ele deve ter liberdade para me ensinar o que quiser e eu, sempre, devo estar a seus pés a ouví-Lo também. Mas, se há algo que aprendi de novo com Maria foi que, apesar de Jesus ter vindo morar em mim, sendo meu hóspede, Ele ainda é meu Senhor e eu continuo sendo seu servo e discípulo. É Ele o verdadeiro dono da casa, dono de minha salvação e vida. Sei que eu não conseguiria terminar este texto de outra forma que não fosse orando. E diante disso tudo, só poderia dizer: “Cristo, Tu és minha única necessidade. Não me deixes jamais viver distraído em meio às coisas desta vida e esquecer o que tens sido pra mim. Ajuda-me a desejar Tua presença dia após dia em minha caminhada. Ensina-me o conforto de estar assentado diante de Ti. E que tenhas hoje, Senhor, agora mesmo, minha vida aos teus pés”.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

É permitido ser livre

“Meu Deus, devo ou não fazer isso?” – esta é, com certeza, uma das perguntas mais feitas pelos cristãos em todos os tempos. E eu, como qualquer um, já a fiz muitas vezes também. Durante muito tempo em minha vida, fui questionado sobre o que um crente pode ou não fazer – aliás, até hoje. Por isso, decidi escrever um pouco sobre esta difícil questão, que é vital para todo bom cristão. E você? Já tem plena certeza de que o que você faz é certo e de que tudo o que te disseram pra não fazer é mesmo proibido por Deus? Esta questão, geralmente chamada de “usos e costumes”, é extremamente polêmica – confesso. Depois dos dons espirituais, é a principal causa de divisões entre as igrejas evangélicas. Mas não pretendo ser menos polêmico em minha proposta. Estou convicto de que é possível saber com segurança o que podemos ou não fazer, ainda que não seja simples. Proponho que a resolução da aparente contradição da Bíblia em proibir e permitir está em agir de acordo, ao menos, com três diretrizes.

Não que eu tenha descoberto a solução definitiva para esta antiga discussão da Igreja – imagine. Apenas a considero uma tentativa atual e eclética de solução e, portanto, uma boa opção. Sendo assim, a primeira diretriz que proponho é a de Observar o Princípio Permanente dentro da Forma Cultural de Expressão Bíblica. E o que seria isso? Bem, é preciso entender que a revelação que Deus fez a nós não é exaustiva – ou seja, Deus não nos fez conhecer tudo sobre Ele. Deus selecionou apenas o que era necessário saber, principalmente, para podermos nos relacionar com Ele. Além disso, esta revelação foi dada dentro de uma determinada cultura e tempo. Por isso, para compreendermos a verdade bíblica, precisamos interpretar cada texto em seu devido contexto histórico – o significado que o escritor bíblico quis dar quando escreveu – e depois expressar o conteúdo de maneira culturalmente compatível com o nosso tempo. Estou me referindo à necessidade de contextualizar o ensino da Bíblia. Existe uma verdade eterna e imutável – um princípio permanente – na forma como cada mandamento é expresso na Bíblia, ainda que pareça que ele só se refira a costumes de culturas antigas (como a proibição de comer certos alimentos em Lv 11). Se isto não for considerado, corremos o risco de perder o significado original da Bíblia, ou como é o caso aqui, podemos apenas transferir aspectos particulares das culturas onde a Bíblia foi escrita para a nossa, sem identificar a intenção de Deus ao dar determinado mandamento.

Além disso, precisamos notar a origem da verdade. Nem toda a verdade está dentro da Bíblia – entretanto, ela é a verdade suficiente para a salvação e autoridade máxima na vida cristã – e nem tudo o que está fora da Bíblia é errado ou mentira. Este é um ponto crucial nesta questão e devo ilustrá-lo. Há na Bíblia citações de escritores pagãos, como Arato (At 17.28), Menander (1Co 15.33) e Epimênides (Tt 1.12), ou de profetas cuja profecia não aparece entre os livros considerados inspirados por Deus, como é o caso de Enoque 1.9 (em Judas 14-16). Estaríamos diante de erros na Bíblia? Não, jamais. Estes escritos foram selecionados pelo próprio Deus através de seus escritores bíblicos. Contudo, trata-se somente de verdades verificáveis contidas nestes livros, não implicando que eles, em si mesmos, possuam autoridade divina. Devemos compreender, então, que mesmo sendo a Bíblia o principal veículo da verdade de Deus, não é por isso o único. Deus fala de muitas maneiras (Hb 1.1) e o universo criado por Ele é em si um meio de comunicar a verdade (Sl 19.1). Desta forma, podemos afirmar que toda verdade é uma verdade proveniente de Deus e a Ele pertence, ainda que ela não se encontre na Bíblia.

É preciso, em segundo lugar, Compreender Nossa Maturidade Espiritual e Nunca Agir Contra Nossa Própria Consciência. “Posso fazer todas as coisas, mas nem tudo devo fazer”, diz Paulo em 1Co 10.23. Sabemos que a salvação não é um pacote pronto, que uma vez recebido, nos transforma automaticamente em cristãos maduros. É nossa a responsabilidade de avaliar a própria caminhada cristã e crescer pela alimentação com verdades espirituais cada vez mais profundas (Hb 5.11-14). Perceba, entretanto, que existem realidades espirituais para as quais nem todo cristão está preparado no momento. Por isso, é a nossa consciência quem define se estamos aptos ou não a fazer algo – claro, estando submetida à autoridade da verdade bíblica, o que já falei. Ninguém deve ser forçado a fazer ou deixar de fazer algo, até que em sua consciência entenda e encontre paz para fazê-lo (Rm 14.20-23). Paulo não faz restrições à liberdade cristã porque “tudo o que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graça, nada é recusável” (1Tm 4.4). Nenhuma coisa em si mesma é pecaminosa, pois sabemos que o pecado é uma questão de como reagimos às circunstâncias – é o que sai do coração que nos contamina (Mt 15.11). Mas, ele diz também que “nem tudo convém” fazer. E apesar de nos ser dada ampla liberdade, é a nossa consciência – cativa às Escrituras – que determina o que podemos ou não fazer, embora ela, por si só, não encerre a questão.

Isto nos leva a terceira diretriz: Respeitar a Maturidade Cristã da Comunidade da Qual Fazemos Parte. Nossa liberdade é limitada pelo bem espiritual da comunidade na qual estamos inseridos (1Co 10.32-33). A interdependência dos membros da Igreja é tão importante que é comparada ao corpo humano por Paulo. Há uma união vital entre cada um dos remidos, de modo que ninguém, sozinho, está completo em Cristo. Por isso, nossa liberdade deve levar em conta o cuidado mútuo entre os cristãos. Assim, apesar de a nossa própria consciência determinar a amplitude da liberdade que temos, é a consciência do próximo que determina o limite de uso dela. Não se deve escandalizar – ofender a consciência dos irmãos fracos na fé (1Co 8. 8-13). E entendo que aqui se inclui não só a convivência com os irmãos da comunidade a qual pertencemos, mas também qualquer irmão de uma denominação genuinamente evangélica – eis aí outro fator complicador. Paulo declara, em várias passagens, abster-se de diversas coisas em algumas ocasiões por conta dos fracos. Aprendemos disto que a liberdade deve ser sempre regida pelo amor, preferindo em honra os outros (Rm 12.10). Lembremos, porém, que só os fracos se escandalizam! Esta não deve ser uma situação permanente. O fraco precisa ser conduzido à maturidade, e deve ser imediatamente instruído, para que cresça na fé (1Ts 5.14, cf. Hb 5.11-14).

Tendo proposto estas diretrizes, quero analisar, com exemplo prático, o uso cristão da música. O que define se uma música é boa ou não para o cristão? Alguns tem feito uma divisão rígida entre “música cristã” e “música mundana”. Para fins objetivos, se usa “música cristã” significando que o cristão só pode usar músicas feitas por cristãos ou com conteúdo cristão. Como citei, nem toda a verdade está na Bíblia e a própria Bíblia faz uso de “verdades mundanas” – presentes no universo. Não estariam também as verdades divinas à disposição dos ímpios, e estes não poderiam notá-las, descrevê-las e aplicá-las, mesmo não honrando a Deus em sua consciências caídas (como Newton e a teoria da gravidade)? A verdade deixa de ser verdade só porque saiu da boca de um ímpio? Do mesmo modo, se usa “música mundana” significando todo o tipo de música feita por incrédulos e que não traz edificação. Mais uma vez fazemos objeção: toda música “mundana” não edifica? O que dizer das sinfonias da música clássica, ou das letras profundas de nossa MPB? Além disso, não existem também cristãos que fazem músicas que não edificam? – e seriam, então, músicas mundanas? Existe um verdadeiro remendo de textos bíblicos desconexos e até ofensivos, rotulados como música “gospel” tocando por aí. Ou vai me dizer que você também canta que “Jesus não é dinheiro, mas ele é real”?

Controvérsias à parte, proponho outra divisão: entre boa música e má música. A boa música, independente de ritmos e gêneros, deve ser qualificada como aquela que contribui para o enriquecimento do ser humano, seja no âmbito espiritual, intelectual ou emocional. Como já citei, existem músicas riquíssimas sobre a nossa cultura, que discorrem sobre a nossa história e refletem nossa realidade social, sem necessariamente se encontrarem em nossos livros de cânticos. Por outro lado, a má música é o oposto – desvirtua e aliena o ser humano, pois não tem conteúdo. Aqui é importante lembrar que, atualmente, o meio gospel está tomando um caminho extremamente perigoso, o do “mercado da fé”. Todo ano é preciso lançar um cd novo, e desta forma, perde-se o cuidado com os arranjos das músicas – que se tornam repetitivos – com os temas dos trabalhos – que viram rótulos e modismos comerciais, copiados e massificados – e principalmente com as letras das músicas – cada vez mais pobres, focando o individual ao invés do coletivo, o homem ao invés de Deus.

Por fim, devo ainda salientar algo importante na música. É preciso entender que toda música tem função e ocasião determinadas. Ninguém toca heavy metal num velório – exceções à parte – e garanto que nunca ouvi uma valsa quando o Brasil foi campeão de futebol. Destaco este ponto porque a música tem a incrível capacidade de, além de fixar conceitos e formar opinião, mexer com nossas emoções. Através dela é possível agitar ou acalmar alguém, como fez Davi com Saul (1Sm 16.23). Por isso mesmo, ritmos e estilos musicais devem ser usados com sabedoria, de maneira apropriada, seja para o bem individual ou coletivo. Não quero dizer com isso que existam ritmos pecaminosos – como se rotulou o rock, o funk, o dance e o techno de demoníacos, entre outros. Pelo contrário, acredito sim que há um mau uso destes e é isto o que desqualifica uma determinada música. Santificar a música é algo que compete ao músico ou ouvinte fazer. Somos nós que santificamos as coisas – e isto através do uso – não o contrário. E seja na música ou em qualquer outro âmbito da cultura, somos livres em Cristo hoje. A nossa missão é mostrar ao mundo o usufruto correto de toda a criação de Deus, pondo em plena harmonia criatura e criatura, criatura e Criador. É permitido ser livre. Mas, lembremos sempre que o fim de todas as coisas é o próprio autor da liberdade, o soberano Deus.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!
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