quinta-feira, 20 de maio de 2010

No primeiro passo do desvio

“Porque fiz isso Senhor? Porque caí outra vez?” – perdi as contas de quantas vezes já repeti esta oração. Desculpe a minha sinceridade assim de cara, mas estou certo de que esta não é uma experiência só minha. Quantas vezes, mesmo conscientes da tentação, nós simplesmente deixamos o bom senso e a discrição de lado e pecamos “descaradamente”, com a frieza mais calculista do mundo?

Ah! Falar do pecado é sempre coisa dolorida, constrangedora. Por isso mesmo, sei que esta é uma de nossas necessidades diárias. Aliás, como isto é difícil. Qual de nós fica à vontade quando vê suas rugas, falhas no cabelo e “sobrinhas de pele" no espelho? Imagine então se pudéssemos ver de fato quem somos! Davi bem sabia que ao homem isto é impossível. Ele diz: “Quem pode entender os seus erros? Expurga-me Tu dos que me são ocultos” (Sl 19.12).

Apesar disso, acabei descobrindo que posso ter “lampejos da minha escuridão” em alguns momentos. “Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios”, nos lembra o Senhor Jesus (Mc 7.21). Como não! Quem jamais pensaria que Abraão – o pai da fé – teria a capacidade de mentir sobre sua mulher, correndo o risco de entregá-la em adultério e ainda assim se aproveitar das regalias que recebia por sua “esperteza”? Ou que Davi – o homem segundo o coração de Deus – iria passar de um momento de preguiça e ócio para o adultério e um assassinato covardemente planejado ao longo do tempo? Ou ainda, que Pedro – um dos maiores apóstolos do Senhor – do abandono previamente avisado de seu Mestre chegaria até a tripla negação, em meio a terríveis blasfêmias? A transparência com a qual a Bíblia descreve a pecaminosidade de seus mais santos personagens choca. E eu terminei descobrindo a realidade desta descrição em minhas próprias experiências.

Imagino o que deve estar passando na sua mente agora. Não é fácil entender isto. É angustiante ter que aceitar que o maior do santos é um miserável pecador, tanto por natureza quanto por prática. Mas esta é uma das verdades centrais da Bíblia e a razão da cruz. Não existe um ser humano tão santo que não possa descer ao grau mais degradante do pecado. O que mais me assusta, entretanto, é saber que isto também é verdade a respeito de mim!

Na verdade, pecar não é uma questão de como certas coisas nos afetam. Pelo contrário, é uma questão de como reagimos diante das circunstâncias – das pessoas e coisas. “Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina” (Mt 15.11). Aprendi e estou aprendendo, à duras penas, que tenho dentro de mim a fonte de todos os pecados imagináveis. Todo o mal existente neste mundo está, tomando um termo da Física, “potencializado” no coração de cada um de nós. Em outras palavras, sou capaz de cometer os piores pecados, de ser eu mesmo o corrupto avarento, o assassino covarde e o apóstata dissimulado. E para tanto, acredite, não precisaria de nada nem ninguém além de mim mesmo.

Aqui chegamos à raiz da questão. Entendi que o que faço no primeiro instante da tentação é determinante para as ações sucessivas. A forma como reajo neste primeiro instante – as justificativas que forjo para pecar ou a prudência em evitar até “a aparência do mal” (1Tl 5.22) – é decisiva. Depois de sucessivas quedas, vi que depois do primeiro passo dado em direção ao desvio, não tenho mais domínio sobre mim mesmo e, pior, não posso impor limites aos meus próprios atos. Pecar é como minar uma represa: posso escolher como, quando e onde fazer o buraco, mas não posso garantir que a represa não vai arrebentar antes de eu poder restaurar a rachadura!

Por isso mesmo, nossa batalha diária está no primeiro passo do desvio. Ali decidimos se confessamos fraqueza ou resolvemos pôr nossa força à prova. Se nos aventuramos loucamente ou sabiamente fugimos (Gn 39.12). Ali definimos quem somos! Lembremos nestas horas que, sem a oração e a ajuda do Espírito, a cruz seria um fardo pra nós, pois nenhum de nós tem condições de, sozinho, vencer a mais insignificante tentação (Jo 15.5).

Minhas experiências – extremamente dolorosas, preciso dizer – ensinaram-me a tomar uma atitude a meu respeito. Não é nada que eu tenha inventado. Está implícito na Bíblia e há muito tempo já era praticado pelos reformadores. É a autodesconfiança. Sim, isto mesmo. Descobri que sou tão mais pecador do que tenho capacidade de entender que preciso desconfiar de mim. Desconfio de meus pensamentos, palavras, ações, e acabo encontrando até nos melhores deles o orgulho, a mentira, a falsidade e tantos outros pecados escondidos. Dói em minha alma saber que sou mais podre do que tenho coragem de admitir. Então me vem a pergunta: você se conhece o suficiente pra confiar em si mesmo?

É este o meu conselho pra você também. Não tenhamos vergonha de ser zelosos. Ninguém pode ser cuidadoso demais quanto ao pecado. Desconfie de si mesmo e se agarre em Cristo. A maneira como os homens mais santos saltaram da leve tentação para por em prática seus terríveis e repulsivos desejos nos serve de prova. Assim, tenhamos muito cuidado com o primeiro passo do desvio, pois o segundo, tenha certeza, é despencar em direção a algo inevitavelmente pior.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Vigie! Você está sendo observado

Você já deve ter notado que não há nada que mexa mais com as pessoas do que a curiosidade. Parece que todo mundo quer saber o que está acontecendo e há até quem saia por aí investigando a vida de quem conhece. O pior é que sempre tem alguém louco pra acabar com a imagem de quem não gosta muito.

Jesus também já passou por uma experiência dessas. Nos evangelhos, lemos que a vida pública e particular do Mestre era motivo de grande repercussão. Em Marcos 3.2 encontramos um exemplo que comprova o que digo: “E estavam observando a Jesus para ver se o curaria em dia sábado, a fim de o acusarem”. Até mesmo o próprio Cristo, enquanto homem, esteve sujeito aos mesmos perigos e frustrações que nos cercam diariamente.

Ali na sinagoga, o Senhor Jesus estava prestes a operar um milagre. Como sabemos, o sábado é o dia de adoração do judeu, mas também é o seu dia de descanso sagrado. E Jesus, aos olhos de todos no Templo, se prepara para curar um aleijado. Mas, o que isto teria de escandaloso?

Bem, antes de responder a pergunta, tentemos observar algo aqui. Este acontecido nos ensina uma realidade que jamais devemos ignorar. Notemos que os cristãos são pessoas constantemente observadas.

Naquela sinagoga também havia um grupo de fariseus loucos para acusar Jesus. Estes “mestres” da lei judaica tinham regras rigorosas quanto à guarda do Sábado. Ao todo, criaram mais de 300 injunções – leis acrescentadas às leis de Moisés, para “facilitar” seu cumprimento – que iam desde a proibição da mulher se olhar no espelho – para não ser tentada a arrancar um cabelo branco e assim quebrar o Sábado – até o proibir que se cuspisse no chão – evitando que o vento movesse a terra com saliva, e assim, ela fosse arada, constituindo trabalho.

Ao ver Jesus entrar, estes homens se puseram a postos para flagrá-Lo “quebrando” a lei no Sábado. Imagine a malícia! Isto aconteceu no local onde os homens se reuniam para ouvir as Escrituras e adorar a Deus. Assim, precisamos sempre lembrar que onde quer que estejamos haverá pessoas de todo o tipo nos observando!

Mais ainda, isto nos revela que, como Jesus, o cristão é uma pessoa marcada! J. C. Ryle diz que a nossa conduta “é examinada com olhos invejosos e argutos. Nossos modos e maneiras são notados com grande atenção”.

Isso nos leva a entender que existem pelo menos 3 tipos de pessoas: 1. as que nos admiram e até baseiam seus atos em nossa conduta; 2. as que não nos conhecem, mas nos observam só pelo fato de sermos cristãos; e 3. as que nos odeiam e fazem de tudo para nos pegar “no flagra”.

“E daí? Vou viver minha vida em função dos outros?”, você pode questionar. De jeito nenhum. Mas é nossa responsabilidade vigiar, para não sermos motivo de vergonha ao evangelho. Devemos ser cuidadosos, e acima de tudo orar muito para controlar nossa língua e comportamento no dia-a-dia. Nossa vida deve ser exemplar, um referencial como desafia Paulo: “Sede meus imitadores, como eu também o sou de Cristo” (1Co 11.1).

Como lutar contra quem está à espreita? Posso agir contra quem não posso ver? Lembro-me da letra de uma música da banda Fruto Sagrado e respondo: “o segredo é vigiar e orar pra não cair”. É este o segredo de Jesus. Afinal, o que fazemos mostra aquilo que nós somos!

Deus nos abençoe no amor de Cristo!
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