quinta-feira, 15 de abril de 2010

E entendi que a vida não tem sentido

No mês passado, tive uma experiência muito interessante. Nossa Igreja aqui em Juazeiro do Norte se reúne em grupos – chamados grupos de crescimento – e o pastor me deixou na liderança do grupo de jovens. O grupo está estudando um livro de Philip Yancey, chamado “A Bíblia que Jesus lia”. Como eu fiquei todo o mês de fevereiro em Alagoas, tive que ler o livro às pressas, pra encaminhar as discussões e não “cair de pára-quedas” lá.

Desse jeito, tive que fazer algo que normalmente não gosto: da introdução, pulei direto pro 5º capítulo. Para a minha surpresa, o capítulo tratava de Eclesiastes. “Ah, não vou ter problemas. Já estudei Eclesiastes todo!”, pensei de cara. Imagine a minha surpresa quando vi que Yancey tinha idéias totalmente diferentes das que eu tinha sobre este livro polêmico!

Yancey relembra que, no livro de Eclesiastes, a famosa palavra vaidade significa “vazio, absurdo”. Em outras palavras, Eclesiastes nos apresenta a vida como um absurdo, algo sem sentido. Tanto é que, para Yancey, Eclesiastes é o primeiro livro existencialista do mundo – eu não chegaria a tanto! Mas, mais absurdos ainda foram os questionamentos que me voltaram à mente depois de ler este capítulo estranho.

Se considerarmos as circunstâncias nas quais Salomão escreveu – a ele atribuímos a autoria de Eclesiastes – descobriremos que não só o livro fala do absurdo, como também está revestido de absurdos. O homem que fala da vida como “esta enfadonha ocupação (que) Deus deu aos filhos dos homens para nela os exercitar” (Ec 1.13), é o mesmo filho de Davi que foi o homem mais sábio da face da terra (1Rs 3.12). Salomão foi também o rei mais rico e poderoso de Israel, na época mais gloriosa da história do reino, com um majestoso Templo, palácio real, cidade repleta de ouro e visitantes estrangeiros chegando de todos os lugares (1Rs 3.13; 4.29-34).

O homem mais sábio na época mais gloriosa: como Eclesiastes poderia ter sido escrito nesta situação? Poderíamos esperar o desespero ou a indiferença de pessoas em situação de extrema pobreza, ou que vivenciaram experiências traumatizantes. Mas encontrar o tédio num palácio?

Isto não é tudo. Eclesiastes toma aquelas questões sem resposta e as coloca todas na nossa frente de uma vez: os justos, apesar da sua justiça, perecem e os ímpios, com toda a sua impiedade, imperam. O resultado da dedicação e do estudo é cansaço e insônia. Trabalhamos arduamente e outros levam o crédito, juntamos dinheiro e somos assaltados, corremos atrás da satisfação pessoal e ela perde a graça. E no final, a morte frustra o último suspiro de que nascemos para ser felizes. No fim, não há rico nem pobre, justo ou ímpio, só a vida sem sentido.

Ainda: de que adianta ser demasiadamente justo ou ímpio? O crente se apega à sua religião como se ela garantisse o fim de todos os seus problemas e o descrente vive à toa como se não tivesse nada com que se preocupar. Eclesiastes põe os dois contra a parede! “Bom é que retenhas isto, e também daquilo não retires a tua mão” (Ec 7.18a).

Pra mim, uma das razões que torna este livro incrivelmente moderno é a sua atualidade impressionante. Em pleno mundo capitalista, Eclesiastes prova definitivamente a futilidade do anseio de todo homem: dinheiro não traz felicidade! Salomão tinha tudo o que queria à sua mão, de todas as riquezas e belezas então conhecidas. Mesmo assim, rodeado de luxo e fama, ele morre de tédio.

Eclesiastes mostra a tragédia do ser humano: por causa da queda, do desejo de conhecer o bem e o mal e de ser igual a Deus, o homem atraiu sobre si o que Yancey chama de “fardo do excesso”. Ao querer ocupar um lugar para o qual não foi criado, o homem se torna insaciável. Não importa o que tenhamos, sempre queremos mais! E assim, quanto mais temos, mais insatisfeitos nos tornamos. Aí surge o desespero. A vida parece um ciclo de ganhar e gastar que nunca satisfaz e a vida se torna um absurdo.

É quando o Pregador nos lembra que “Deus pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11). Os momentos mais felizes da nossa vida, aquela música que toca e nos leva pra fora do universo, a comida capaz de “virar nossos olhos” de tanto cheiro e sabor, a paixão que quase faz nosso coração saltar pela boca – todos estes “êxtases” de prazer são maravilhosos. Porém, sempre passam. Salomão lembra que todo prazer desta vida aponta para Deus. Ainda que tenhamos um prazer muito intenso, ele acaba. Por isso, o ser humano não deve buscar o prazer como um fim em si mesmo. O “desejo de transcender”, como diriam os filósofos, a eternidade no coração, como diz Salomão, aponta para a única satisfação possível nessa vida: Deus.

“Lembra-te do teu Criador”, ele conclui. Eclesiastes me ensina a ver a vida não de modo pessimista: “bons foram os anos passados!”, ou utópico: “ainda bem que eu vou morar no céu!”. Não, ensina-me a ser realista com a vida. A vida vivida com um fim em si mesma não tem sentido, é absurda. Demorei um tempo para aceitar que meus sonhos e planos sempre me deixarão insatisfeito. Na verdade, ainda não estou satisfeito com isso também! E entendi que a vida não tem sentido. Mas descobri o que diz Ludwig Wittgenstein: “Crer em Deus significa que os fatos deste mundo não são o fim da questão. Crer em Deus significa que a vida tem sentido [...] Que esse sentido não reside em si mesmo, mais fora dele”.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

Referência Bibliográfica:
YANCEY, Philip. A Bíblia que Jesus Lia. São Paulo: Vida, 2000.

3 comentários:

Wilma Rejane disse...

Oi Herisson!

Passei para te dar as boas vindas da UBE via blog.

Deus o abençoe.

Herisson B. Pereira disse...

Agradeço Wilma,
espero que este blog
seja abençoador para você
e para todos os que passarem por aqui!
Deus abençõe tua vida!

Anônimo disse...

Gostei do texto. O livro de Eclesiastes é realmente impressionante!

José Chadan

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