terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O superman dos negócios

Bem que, desta vez, poderíamos começar assim: “No início do século 21, vivemos num ambiente altamente competitivo, onde é preciso vencer no mundo dos negócios. Em resumo, é preciso ter um espírito empreendedor. Agora, vamos conhecer as principais características de um empreendedor”. Na verdade, é essa a idéia que a maioria das pessoas tem de um vencedor. Inclusive, vi essa semana um “perfil de um vencedor” na revista PEGN. Iniciativa, criatividade, persuasão – no geral, esse perfil traz as principais habilidades e competências que uma pessoa deve ter para ser bem-sucedida na vida. Sabemos que sem algumas boas qualidades ninguém consegue alcançar seus objetivos. Mas, o que realmente um perfil desses nos transmite? E o que as pessoas estão esperando de uma vida de sucesso?

Lembro até de uma pregação do meu pastor, que ouvi ainda adolescente, sobre os “três Ds do sucesso”. “Determinação, dedicação e disciplina” – dizia ele pra ficar fácil de decorar. Mas, quando eu olho uma lista dessas, eu me pergunto: “Esse cara realmente existe? Será que ele tem ao menos um momento na vida em que fique frustrado e sem saída?”. De fato, é preciso desconstruir essa imagem do vencedor que geralmente se tem. Devemos confrontar essa projeção idealizada com a vida real. De um jeito ou de outro, como você mesmo pode notar, o que se construiu como a imagem de um vencedor hoje em dia é quase um filme de Hollywood – o superman dos negócios, com a vantagem de não precisar tirar o terno e a gravata pra sair voando por aí.

O que eu pretendo ressaltar é o cuidado que devemos ter com a obrigação de vencer que cada um de nós carrega nas costas. Precisamos entender que um perfil desses não revela os defeitos e limitações de cada ser humano. Não revela uma parte real de quem somos. Aliás, é preciso lembrar que a vitória não é algo homogêneo. É feita de várias áreas e etapas, pois ninguém vence em tudo na vida. Além disso, a vitória é uma conquista diária. Quando pensamos em termos de circunstâncias, acho que ser um vencedor depende de dois fatores principais: necessidade – aquilo que obrigatoriamente precisamos fazer, mesmo não gostando ou sabendo; e afinidade – aquilo que gostamos e sabemos fazer, mesmo não sendo obrigados. Na minha opinião, o sucesso acontece quando conseguimos unir esses dois fatores, mas claro que não é tão simples como seguir uma receita de bolo.

Por mais estranho que pareça, há uma personagem bíblica que virou um verdadeiro emblema do vencedor, até mesmo neste mundo dos negócios: Davi. Ele é o exemplo de uma pessoa bem-sucedida: o jovem mais novo da casa de seu pai, pastor de ovelhas, que vai até o arraial de guerra levar comida a seus irmãos e, de repente, aceita o desafio de lutar contra um gigante. Desacreditado pelos seus e ridicularizado por seus inimigos, derrota o gigante com apenas um golpe e vive feliz para sempre – ao menos é o que geralmente se pensa. Vencer gigantes, quem não quer? Contudo, há mais lições na vida de Davi sobre um vencedor do que apenas o confronto com Golias. Já ouvi inúmeras pregações sobre Davi e Golias – até uma onde cada pedrinha era uma habilidade de Davi, imagine! – e outras até interessantes, como o fato de Davi ter sido preparado para lutar contra Golias matando antes disso um leão e um urso.

Entretanto, acho que a maior lição da vida de Davi não é o que fazer para derrotar um gigante, e sim o que fazer quando se é derrotado por um. Não, não estou louco e é simples de entender. Para mim, o maior gigante da vida de Davi não foi Golias, mas sim uma mulher chamada Bate-Seba. O homem que resistiu às afrontas de um gigante caiu diante do desejo de ter a mulher que quisesse, mesmo que ela fosse de outro homem. É, o superman achou que poderia fazer tudo o que bem quisesse e foi derrotado por seus próprios super poderes. Sem dúvida nenhuma, Davi me ensina que o vencedor, ou nas palavras da Bíblia, o homem segundo o coração de Deus é aquele que reconhece seus erros e limitações diante de sua própria queda e vergonha. Que mais do que ter habilidades incríveis, criatividade e uma boa oratória – ou até sair voando – é preciso saber a maneira correta de dar a volta por cima. Ensina-me a dura lição de que o dia da queda virá para mim também (Ef. 6.13), mas que isso não é o fim. Aliás, pode ser o início e até provar a minha capacidade de vencer. Leva-me a orar a realidade tão simples cantada na música do Fruto Sagrado: “Eu sou diferente, igual a todo mundo, sem Você eu não sou ninguém. Eu sou igual a todo mundo, não existe superman”. Ensina-me, acima de tudo, que um vencedor é uma pessoa que tem a capacidade de acreditar. Acreditar nas possibilidades de si mesmo e na capacidade do seu Deus.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O limite da ira

De certas experiências se guarda mais do que simples recordações, mesmo porque acabamos nos envolvendo mais do que devíamos. Mas acho que isso não é tão anormal assim. Existem mesmo momentos na vida em que é simplesmente impossível manter a calma. Com certeza você já passou por situações de perder a paciência ou lidou com aquelas pessoas de “torrar o juízo”. Nenhum de nós está imune a isso e não há como fugir dessa realidade, por mais que alguém consiga se dominar. Então surge a questão: o que fazer quando a raiva explode? Devemos mesmo sentir raiva? É possível sentir raiva e não pecar?

Antes de propor soluções – ou mais dúvidas ainda – é preciso lembrar que a raiva não é tão simples quanto parece. Sem medo de errar, podemos afirmar que ela é o sentimento mais difícil de lidar, e talvez nenhum outro sentimento leve alguém tão rápido ao pecado quanto este. Controlar a raiva é tarefa difícil, porque geralmente ela é sentida com muita intensidade e causa um impacto profundo em quem a sente.

Não sei de você, mas me lembro logo de Jesus no episódio da purificação do Templo (Jo 2.13-17). Expulsar cambistas e suas mercadorias do Templo – e isso com um chicote de cordas! – não conheço outra história tão polêmica sobre o Senhor. E por mais inusitado que pareça, este não é um fato isolado. Em outras passagens, vemos o “Príncipe da paz” indignado com a insensibilidade das pessoas (cf. Mc 3.5 e 10.14).

Jesus sentiu raiva? Mas a raiva não é um pecado? – surgem mais perguntas. A palavra “indignação” chama a atenção, principalmente como uma reação do Filho de Deus. Ela indica que Jesus, como homem, estava sujeito a todos os tipos de experiência humana. Contudo, sabemos que como Deus, Ele passou por todas elas sem errar ou pecar. Isto significa, então, que sentir raiva não é pecado. Existe sim uma raiva correta – ainda que pra nosso espanto. E como mostrou o Senhor, ela pode se manifestar adequadamente. O problema não é sentir raiva, mas o que fazemos enquanto sentimos raiva.

Acho interessante entender a ira – ou raiva – como um sentimento que atua ao mesmo tempo em três dimensões diferentes. Pode até parecer estranho, eu sei, mas acho a raiva muito parecida com o taser – arma que dispara choques elétricos. Acho que ele ilustra bem a questão. Como a raiva, o taser oferece a opção de mira. Podemos acertar qualquer um ao nosso redor. Como a raiva, o taser oferece a opção de intensidade. Podemos dar um pequeno choque ou até mesmo matar alguém “carbonizado” – claro que estou extrapolando a ilustração. E como a raiva, o taser oferece a opção de duração. Só o atirador pode definir quanto tempo durará o choque, – mesmo porque dependendo do choque o eletrocutado fica sem reação.

Para entender melhor nossa relação com a raiva, escolhi voltar nossa atenção ao texto de Ef 4.26, um dos mais profundos a respeito: “Irai-vos e não pequeis, não se ponha o sol sobre a vossa ira”. Pois bem, tomando a ilustração do taser temos três dimensões bem definidas. Direção – que pode ser contra nós mesmos, contra coisas e pessoas, e até mesmo contra Deus. “Irai-vos”, diz Paulo sem fazer censura! Mas ninguém está tão pronto a direcionar contra si mesmo a rigidez necessária ao seu próprio bem como está pra fazer contra quem estiver a sua volta. Entendo, então, que preciso sempre direcionar minha ira contra mim e meus erros, ocasionalmente contra os erros do meu próximo e nunca contra Deus. Afinal de contas, ninguém pode conhecer alguém que erre mais do que ele mesmo. Em seguida, temos a intensidade – que pode ser tão forte a ponto de alguém “morrer de raiva”. “Irai-vos e não pequeis”, devemos lembrar. A raiva não deve provocar em nós nenhum tipo de atitude exagerada, vingativa ou impensada. Pelo contrário, a raiva deve ser controlada, benéfica e sensata. Ao sentir raiva, devemos entrar em estado de alerta imediatamente. E por fim a duração – que diz respeito ao tempo que este sentimento permanece em nós. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira”. Não devemos manter a raiva sobre certos acontecimentos em nossos corações por mais de um dia, pois “basta a cada dia o seu mal”. Antes, devemos seguir o conselho de Davi: “consultai com o vosso coração em vosso leito, e calai-vos” (Sl 4.4). Estas são, então, as três dimensões que devem marcar o limite da nossa ira.

Isto nos faz lembrar que raramente a raiva termina em glória a Deus. Verdadeiros homens de Deus erraram quando irados. O manso Moisés, que feriu a rocha duas vezes, e a desavença de Paulo e Barnabé em Antioquia servem de exemplo. A raiva sem pecado é um sentimento raríssimo. Como bem já disse Benjamim Franklin: “Tudo o que começa com raiva, acaba em vergonha”. Precisamos aprender muito ainda sobre a raiva com o Senhor Jesus. Mesmo nos momentos mais intensos, Ele optou por restringir sua ira diante de homens falsos e iracundos ao invés de retribuir tudo o que sofreu. Resignação! Esse é o sentimento que levou Jesus a dominar a raiva. É agir para com outro da maneira que ele não merece. É enxergar em nós o que detestamos reconhecer que existe. E principalmente, é retribuir ao Deus que com paciência e sabedoria nos mantém vivos, apesar do que somos, com amor sincero. Eis aí o desafio! Precisamos seguir os passos do nosso Mestre em todos os momentos e até na raiva estar prontos a fazer o bem.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Quando a vida surpreende

Era o sonho de uma vida se concretizando. Depois de tantos anos, ele finalmente tinha encontrado a mulher de sua vida. Certamente ela era linda, meiga, adorável, tudo aquilo que alguém pode desejar. Anos seguidos de noivado, e agora a espera dava lugar a uma nova história para escrever juntos. Mas, sem qualquer aviso prévio, o inimaginável aconteceu: ela está grávida e o filho não é dele!

Não, caro leitor. Isto não é nenhuma cena de novela, nem episódio de seriado ou programa de TV. É justamente assim que começa o primeiro dos evangelhos na Bíblia. Parece loucura, mas quando parei pra meditar neste texto em minha devocional, levei um susto daqueles. Estou me referindo, é claro, à história que por inúmeras vezes passa despercebida diante de nossos olhos – a difícil situação de José ao descobrir a gravidez inesperada de Maria em Mt 1.18-25.

Talvez Mateus não narre o ocorrido como fiz aqui, mas, com toda certeza, estamos diante de uma situação não menos dramática. José de fato já havia casado com Maria, sua esposa, mas o evangelista deixa bem claro que ele não havia consumado ainda a união com ela, pois ela era ainda virgem (v.18). Nossa! É terrível até mesmo imaginar José neste seu dilema desesperador, que sutilmente se põe a nossa frente no relato bíblico. Quem pode imaginar o que teria passado na cabeça dele? Talvez noites e noites andando ao lado da cama e olhando a estranha barriga que crescia em sua recém desposada Maria – já que não havia muitas maneiras de se constatar a gravidez naquele tempo. E quem pode dizer o que ele sentiu ao ver sua mulher grávida? Desespero, raiva ou até desejo de vingança? Quem pode dizer o que deve ser feito numa situação dessas?

Penso em José e lembro-me de nossa vida diária. Mas não me refiro a casos igualmente suspeitos que você certamente deve conhecer. Não. Eu me recordo que a vida é assim pra todos nós – imprevisível, chocante e até assustadoramente surpreendente. Quantas vezes somos tomados de assalto na virada de um minuto e aquilo que parecia o começo de um sonho – como o foi pra José – se torna um pesadelo sem fim? A morte de alguém querido, um amigo que nos decepcionou, uma doença repentina, todos nós estamos sujeitos ao inesperado. Recentemente, provei isto na prática. O estado onde moro foi tomado por uma terrível enchente, talvez a pior de sua história. Cidades extremamente pobres quase foram completamente varridas pela água e o pouco que o povo tinha se perdeu. A situação aqui é triste e comovente. "Ah! Isso é coisa de jornal, só acontece no sul". Como eu poderia imaginar que Alagoas, em pleno sertão nordestino, se tornaria palco de uma calamidade desse porte?

Contudo, o que mais me surpreende neste relato é a atitude de José. Ele tomou uma atitude digna de quem seria o pai terreno de nosso Senhor Jesus Cristo. Vendo em Maria a “aparência do mal”, ele não entrou em desespero, ou tomado de ódio se pôs a fazer algo precipitado. Não e um "não" igualmente chocante! Sem nenhuma revelação prévia da parte de Deus, aquele homem notável tomou a mais difícil decisão de sua vida: se ele deixasse Maria publicamente, ela seria alvo da infame condenação de sua sociedade e certamente seria apedrejada por adultério. Se ele ficasse com ela, ambos seriam alvo do vexame público, pois com certeza a gravidez precoce iria levar o povo a concluir que, ou Maria havia traído seu marido, ou que os dois tiveram uma relação antes do casamento.

O que fazer numa situação dessas? José foi além do que a maioria de nós iria. Estou certo que, como homem justo que era, deve ter apresentado seu caso a Deus em oração antes de fazer alguma coisa. E então, ele decidiu deixar Maria secretamente (v.19), atraindo assim para ele toda a culpa e vergonha de ter engravidado a jovem e depois tê-la abandonado.

Não sei o que você sente a respeito, mas me sinto medíocre diante de homens como José. Entretanto, sinto-me tanto mais desafiado a agir como ele. Quando esta vida me incita a abandonar a minha fé e cair em desespero, quando sugere meios sujos de escape e oferece desculpas pra “eu me dar bem” sobre quem quer que seja, sou desafiado a imitar José. Situações inesperadas não implicam em atitudes desesperadas. Pelo contrário, quando a vida surpreende é hora de surpreendê-la. Devemos seguir o exemplo de José e também confiar a Deus nossos temores diante das surpresas da vida. Ele agiu assim e foi recompensado, sendo aliviado de seus temores através da palavra de um anjo (v.20-24). Bem assim o é para todos quantos esperam e confiam em Deus. Lembremos que nunca faltarão temores e decepções enquanto vivermos nesta terra, mas para todo aquele que tem em Deus o seu fundamento, não faltará também a inexplicável graça divina para surpreender.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

No primeiro passo do desvio

“Porque fiz isso Senhor? Porque caí outra vez?” – perdi as contas de quantas vezes já repeti esta oração. Desculpe a minha sinceridade assim de cara, mas estou certo de que esta não é uma experiência só minha. Quantas vezes, mesmo conscientes da tentação, nós simplesmente deixamos o bom senso e a discrição de lado e pecamos “descaradamente”, com a frieza mais calculista do mundo?

Ah! Falar do pecado é sempre coisa dolorida, constrangedora. Por isso mesmo, sei que esta é uma de nossas necessidades diárias. Aliás, como isto é difícil. Qual de nós fica à vontade quando vê suas rugas, falhas no cabelo e “sobrinhas de pele" no espelho? Imagine então se pudéssemos ver de fato quem somos! Davi bem sabia que ao homem isto é impossível. Ele diz: “Quem pode entender os seus erros? Expurga-me Tu dos que me são ocultos” (Sl 19.12).

Apesar disso, acabei descobrindo que posso ter “lampejos da minha escuridão” em alguns momentos. “Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios”, nos lembra o Senhor Jesus (Mc 7.21). Como não! Quem jamais pensaria que Abraão – o pai da fé – teria a capacidade de mentir sobre sua mulher, correndo o risco de entregá-la em adultério e ainda assim se aproveitar das regalias que recebia por sua “esperteza”? Ou que Davi – o homem segundo o coração de Deus – iria passar de um momento de preguiça e ócio para o adultério e um assassinato covardemente planejado ao longo do tempo? Ou ainda, que Pedro – um dos maiores apóstolos do Senhor – do abandono previamente avisado de seu Mestre chegaria até a tripla negação, em meio a terríveis blasfêmias? A transparência com a qual a Bíblia descreve a pecaminosidade de seus mais santos personagens choca. E eu terminei descobrindo a realidade desta descrição em minhas próprias experiências.

Imagino o que deve estar passando na sua mente agora. Não é fácil entender isto. É angustiante ter que aceitar que o maior do santos é um miserável pecador, tanto por natureza quanto por prática. Mas esta é uma das verdades centrais da Bíblia e a razão da cruz. Não existe um ser humano tão santo que não possa descer ao grau mais degradante do pecado. O que mais me assusta, entretanto, é saber que isto também é verdade a respeito de mim!

Na verdade, pecar não é uma questão de como certas coisas nos afetam. Pelo contrário, é uma questão de como reagimos diante das circunstâncias – das pessoas e coisas. “Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina” (Mt 15.11). Aprendi e estou aprendendo, à duras penas, que tenho dentro de mim a fonte de todos os pecados imagináveis. Todo o mal existente neste mundo está, tomando um termo da Física, “potencializado” no coração de cada um de nós. Em outras palavras, sou capaz de cometer os piores pecados, de ser eu mesmo o corrupto avarento, o assassino covarde e o apóstata dissimulado. E para tanto, acredite, não precisaria de nada nem ninguém além de mim mesmo.

Aqui chegamos à raiz da questão. Entendi que o que faço no primeiro instante da tentação é determinante para as ações sucessivas. A forma como reajo neste primeiro instante – as justificativas que forjo para pecar ou a prudência em evitar até “a aparência do mal” (1Tl 5.22) – é decisiva. Depois de sucessivas quedas, vi que depois do primeiro passo dado em direção ao desvio, não tenho mais domínio sobre mim mesmo e, pior, não posso impor limites aos meus próprios atos. Pecar é como minar uma represa: posso escolher como, quando e onde fazer o buraco, mas não posso garantir que a represa não vai arrebentar antes de eu poder restaurar a rachadura!

Por isso mesmo, nossa batalha diária está no primeiro passo do desvio. Ali decidimos se confessamos fraqueza ou resolvemos pôr nossa força à prova. Se nos aventuramos loucamente ou sabiamente fugimos (Gn 39.12). Ali definimos quem somos! Lembremos nestas horas que, sem a oração e a ajuda do Espírito, a cruz seria um fardo pra nós, pois nenhum de nós tem condições de, sozinho, vencer a mais insignificante tentação (Jo 15.5).

Minhas experiências – extremamente dolorosas, preciso dizer – ensinaram-me a tomar uma atitude a meu respeito. Não é nada que eu tenha inventado. Está implícito na Bíblia e há muito tempo já era praticado pelos reformadores. É a autodesconfiança. Sim, isto mesmo. Descobri que sou tão mais pecador do que tenho capacidade de entender que preciso desconfiar de mim. Desconfio de meus pensamentos, palavras, ações, e acabo encontrando até nos melhores deles o orgulho, a mentira, a falsidade e tantos outros pecados escondidos. Dói em minha alma saber que sou mais podre do que tenho coragem de admitir. Então me vem a pergunta: você se conhece o suficiente pra confiar em si mesmo?

É este o meu conselho pra você também. Não tenhamos vergonha de ser zelosos. Ninguém pode ser cuidadoso demais quanto ao pecado. Desconfie de si mesmo e se agarre em Cristo. A maneira como os homens mais santos saltaram da leve tentação para por em prática seus terríveis e repulsivos desejos nos serve de prova. Assim, tenhamos muito cuidado com o primeiro passo do desvio, pois o segundo, tenha certeza, é despencar em direção a algo inevitavelmente pior.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Vigie! Você está sendo observado

Você já deve ter notado que não há nada que mexa mais com as pessoas do que a curiosidade. Parece que todo mundo quer saber o que está acontecendo e há até quem saia por aí investigando a vida de quem conhece. O pior é que sempre tem alguém louco pra acabar com a imagem de quem não gosta muito.

Jesus também já passou por uma experiência dessas. Nos evangelhos, lemos que a vida pública e particular do Mestre era motivo de grande repercussão. Em Marcos 3.2 encontramos um exemplo que comprova o que digo: “E estavam observando a Jesus para ver se o curaria em dia sábado, a fim de o acusarem”. Até mesmo o próprio Cristo, enquanto homem, esteve sujeito aos mesmos perigos e frustrações que nos cercam diariamente.

Ali na sinagoga, o Senhor Jesus estava prestes a operar um milagre. Como sabemos, o sábado é o dia de adoração do judeu, mas também é o seu dia de descanso sagrado. E Jesus, aos olhos de todos no Templo, se prepara para curar um aleijado. Mas, o que isto teria de escandaloso?

Bem, antes de responder a pergunta, tentemos observar algo aqui. Este acontecido nos ensina uma realidade que jamais devemos ignorar. Notemos que os cristãos são pessoas constantemente observadas.

Naquela sinagoga também havia um grupo de fariseus loucos para acusar Jesus. Estes “mestres” da lei judaica tinham regras rigorosas quanto à guarda do Sábado. Ao todo, criaram mais de 300 injunções – leis acrescentadas às leis de Moisés, para “facilitar” seu cumprimento – que iam desde a proibição da mulher se olhar no espelho – para não ser tentada a arrancar um cabelo branco e assim quebrar o Sábado – até o proibir que se cuspisse no chão – evitando que o vento movesse a terra com saliva, e assim, ela fosse arada, constituindo trabalho.

Ao ver Jesus entrar, estes homens se puseram a postos para flagrá-Lo “quebrando” a lei no Sábado. Imagine a malícia! Isto aconteceu no local onde os homens se reuniam para ouvir as Escrituras e adorar a Deus. Assim, precisamos sempre lembrar que onde quer que estejamos haverá pessoas de todo o tipo nos observando!

Mais ainda, isto nos revela que, como Jesus, o cristão é uma pessoa marcada! J. C. Ryle diz que a nossa conduta “é examinada com olhos invejosos e argutos. Nossos modos e maneiras são notados com grande atenção”.

Isso nos leva a entender que existem pelo menos 3 tipos de pessoas: 1. as que nos admiram e até baseiam seus atos em nossa conduta; 2. as que não nos conhecem, mas nos observam só pelo fato de sermos cristãos; e 3. as que nos odeiam e fazem de tudo para nos pegar “no flagra”.

“E daí? Vou viver minha vida em função dos outros?”, você pode questionar. De jeito nenhum. Mas é nossa responsabilidade vigiar, para não sermos motivo de vergonha ao evangelho. Devemos ser cuidadosos, e acima de tudo orar muito para controlar nossa língua e comportamento no dia-a-dia. Nossa vida deve ser exemplar, um referencial como desafia Paulo: “Sede meus imitadores, como eu também o sou de Cristo” (1Co 11.1).

Como lutar contra quem está à espreita? Posso agir contra quem não posso ver? Lembro-me da letra de uma música da banda Fruto Sagrado e respondo: “o segredo é vigiar e orar pra não cair”. É este o segredo de Jesus. Afinal, o que fazemos mostra aquilo que nós somos!

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Pescador de homens

Nunca tinha reparado neste termo antes, talvez pelo fato de estar familiarizado com ele desde criança através de um daqueles corinhos que a gente aprende na EBD. Mas, agora, confesso que penso muito sobre ele.

É claro que você se lembra dele também, não é? Está registrado em duas passagens dos evangelhos (Mt 4.19 e Mc 1.17). Ao chamar seus dois primeiros discípulos – Pedro e André, que estavam pescando no mar da Galiléia – Jesus os desafia a deixarem suas redes e se tornarem “pescadores de homens”. Mas, afinal, o que chama tanto à atenção neste termo assim?

“Pescador de homens” é o mais antigo título pelo qual o ofício ministerial é descrito nas páginas do Novo Testamento. Esse título tem raízes mais profundas do que os de pastor, bispo, presbítero, ou diácono. Por isso mesmo, vejo o termo como um emblema que deveria ficar impresso na mente de todo ministro do evangelho, e porque não dizer de todo cristão?

Assim, o pastor não é um mero palestrante, ou um terapeuta religioso, ou ainda um administrador de ordenanças sagradas. Não. Jesus declara antes de tudo – como que tomando aquela cena como a sua primeira parábola – que todo ministro do evangelho e cada um de seus discípulos é um “pescador” de almas!

Não pude deixar de imaginar as implicações deste chamado especial em minha vida. Imagens e desafios tomaram-me de surpresa e fui levado a meditar aqui como quem senta à beira da praia. Passei então a pensar neste “homem pescador de homens”, como se o estivesse vendo em minha frente, apanhando suas redes e saindo em seu barco da praia para a pesca.

Permita-me descrevê-lo: como pescador, ele mergulha sua vida naquilo que faz. Lança a si mesmo resoluto à labuta e se esforça ao máximo para apanhar peixes. É diligente e redobra as suas forças, fazendo de tudo para lograr êxito. Como pescador, possui uma casa, mas sabe que a sua vida é o mar. Mar de uma vida inteira de experiências e experimentos. Aonde sabe que vai, mas não sabe quando ou mesmo se volta. Como pescador, convive com a incerteza, solapado pelas ondas. Prova o calor do dia e o relento da noite. E se torna valente, sorridente, homem de valor.

Testado nas fadigas do mar e alvejado pela solidão da profissão, ele não perde a esperança. Continua a trabalhar dia após dia, aguardando e se esforçando. E se mostra paciente, estende suas redes e compreende. Entende que o mesmo mar que leva centenas de trabalhos traz também consigo cardumes de recompensas. Como pescador, conhece tanto a tristeza da partida como a alegria da chegada. Aprende que o mar lhe é tudo aquilo que têm e tudo aquilo que quer, pois só o mar lhe revela aquilo que lhe falta e aquilo que lhe farta.

Sim, penso que seja mesmo isso o que Jesus nos convida a ser também. Em um mundo onde o conforto pessoal, o evangelho de vida fácil e a felicidade instantânea nos são vendidos num “tsunami” tão distorcido como destruidor, somos desafiados a remar “contra a maré”. Somos chamados a nos entregar às redes e a nos lançar ao mar, por amor não à nós, mas aos homens perdidos. Confiando não em nosso braço, mas no Âncora de nossas almas (Hb 6.19). Chamados sim, até que um dia, deixando na praia as redes e o barco, possamos atracar para sempre no “Porto Celeste” e encontrar ao fim de nossa linha de pesca a mão do próprio Senhor Jesus a pescar homens através de nós!

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Cansaço é desculpa para indiferença?

Um dos males que mais atingem a nossa geração é o constante cansaço. Palavras como stress, estafa e fadiga simplesmente não saem mais do nosso vocabulário. A novidade é que existem crentes achando que esta é uma experiência inédita do homem moderno, e que o cristianismo hoje tem que se adaptar e “pegar mais leve”.

Dentre vários episódios da vida de Jesus, gostaria de citar um que comprova o erro de pensar assim. Todos nós lembramos da ocasião em que Jesus acalmou uma tempestade, correto? “E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro”, nos diz Marcos (Mc 4.38a). Vemos nosso Senhor Jesus dormindo na popa do barco. “Mas que sono é esse?!”, a gente pergunta. Como Jesus pôde dormir em meio a uma tempestade? Já pensou nisso? Notemos que Jesus estivera o dia inteiro ocupado em pregações para uma multidão – Mc 4.1, sem microfone! – e “sendo já tarde” (Mc 4.35) não é de admirar que seu corpo humano precisasse de descanso, como qualquer um de nós!

Mas este sono de Jesus nos ensina uma verdade sutil e preciosa. Ensina-nos que o cansaço não é desculpa para a indiferença! Se não, vejamos.

O sono de Jesus demonstra um cansaço que não permitiu a indiferença. Ao contrário do que parece, Jesus não foi à popa do barco se escondendo pra tirar um cochilo. Não pôs nenhuma placa dizendo: “Não perturbe!”. Mesmo muito cansado, ele decidiu atender a seus discípulos, e isso da melhor maneira. Não espichando um olho e, deitado, mandando tudo parar. Mas, pondo-se de pé e mostrando um profundo interesse por ensiná-los.

Desta forma, aprendemos com Jesus que o cristão é um servo, acima de tudo! Ele demonstra isso, sendo “incansável” no fazer o bem. “E agora vou deixar que os outros ‘me façam de escravo’ é?”, surge a pergunta. Não, claro. O cristão deve cuidar de si mesmo, mas não em detrimento do seu irmão. Lembremos da figura do corpo de Cristo, onde ninguém vive em função de si mesmo, mas da Igreja como um todo. Nossa missão é servir! Paulo nos diz: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra (interesse, serviço) uns aos outros” (Rm 12.10).

Por fim, aprendemos que Jesus é perfeitamente capaz de compreender nosso cansaço. Ele é o Sumo Sacerdote que foi provado em todas as coisas (Hb 4:15). J. C. Ryle diz que “Ele é precisamente o Salvador que homens e mulheres, com corpos cansados e cabeças doloridas, em um mundo cansativo, necessitam para seu conforto”. Só quem provou o que passamos pode nos oferecer alívio perfeito. E como Ele quer nos dar isso!

Então, vamos buscar forças aos pés de Cristo para continuar amando e servindo. Cansados, muitas vezes. Indiferentes, nunca!

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

E entendi que a vida não tem sentido

No mês passado, tive uma experiência muito interessante. Nossa Igreja aqui em Juazeiro do Norte se reúne em grupos – chamados grupos de crescimento – e o pastor me deixou na liderança do grupo de jovens. O grupo está estudando um livro de Philip Yancey, chamado “A Bíblia que Jesus lia”. Como eu fiquei todo o mês de fevereiro em Alagoas, tive que ler o livro às pressas, pra encaminhar as discussões e não “cair de pára-quedas” lá.

Desse jeito, tive que fazer algo que normalmente não gosto: da introdução, pulei direto pro 5º capítulo. Para a minha surpresa, o capítulo tratava de Eclesiastes. “Ah, não vou ter problemas. Já estudei Eclesiastes todo!”, pensei de cara. Imagine a minha surpresa quando vi que Yancey tinha idéias totalmente diferentes das que eu tinha sobre este livro polêmico!

Yancey relembra que, no livro de Eclesiastes, a famosa palavra vaidade significa “vazio, absurdo”. Em outras palavras, Eclesiastes nos apresenta a vida como um absurdo, algo sem sentido. Tanto é que, para Yancey, Eclesiastes é o primeiro livro existencialista do mundo – eu não chegaria a tanto! Mas, mais absurdos ainda foram os questionamentos que me voltaram à mente depois de ler este capítulo estranho.

Se considerarmos as circunstâncias nas quais Salomão escreveu – a ele atribuímos a autoria de Eclesiastes – descobriremos que não só o livro fala do absurdo, como também está revestido de absurdos. O homem que fala da vida como “esta enfadonha ocupação (que) Deus deu aos filhos dos homens para nela os exercitar” (Ec 1.13), é o mesmo filho de Davi que foi o homem mais sábio da face da terra (1Rs 3.12). Salomão foi também o rei mais rico e poderoso de Israel, na época mais gloriosa da história do reino, com um majestoso Templo, palácio real, cidade repleta de ouro e visitantes estrangeiros chegando de todos os lugares (1Rs 3.13; 4.29-34).

O homem mais sábio na época mais gloriosa: como Eclesiastes poderia ter sido escrito nesta situação? Poderíamos esperar o desespero ou a indiferença de pessoas em situação de extrema pobreza, ou que vivenciaram experiências traumatizantes. Mas encontrar o tédio num palácio?

Isto não é tudo. Eclesiastes toma aquelas questões sem resposta e as coloca todas na nossa frente de uma vez: os justos, apesar da sua justiça, perecem e os ímpios, com toda a sua impiedade, imperam. O resultado da dedicação e do estudo é cansaço e insônia. Trabalhamos arduamente e outros levam o crédito, juntamos dinheiro e somos assaltados, corremos atrás da satisfação pessoal e ela perde a graça. E no final, a morte frustra o último suspiro de que nascemos para ser felizes. No fim, não há rico nem pobre, justo ou ímpio, só a vida sem sentido.

Ainda: de que adianta ser demasiadamente justo ou ímpio? O crente se apega à sua religião como se ela garantisse o fim de todos os seus problemas e o descrente vive à toa como se não tivesse nada com que se preocupar. Eclesiastes põe os dois contra a parede! “Bom é que retenhas isto, e também daquilo não retires a tua mão” (Ec 7.18a).

Pra mim, uma das razões que torna este livro incrivelmente moderno é a sua atualidade impressionante. Em pleno mundo capitalista, Eclesiastes prova definitivamente a futilidade do anseio de todo homem: dinheiro não traz felicidade! Salomão tinha tudo o que queria à sua mão, de todas as riquezas e belezas então conhecidas. Mesmo assim, rodeado de luxo e fama, ele morre de tédio.

Eclesiastes mostra a tragédia do ser humano: por causa da queda, do desejo de conhecer o bem e o mal e de ser igual a Deus, o homem atraiu sobre si o que Yancey chama de “fardo do excesso”. Ao querer ocupar um lugar para o qual não foi criado, o homem se torna insaciável. Não importa o que tenhamos, sempre queremos mais! E assim, quanto mais temos, mais insatisfeitos nos tornamos. Aí surge o desespero. A vida parece um ciclo de ganhar e gastar que nunca satisfaz e a vida se torna um absurdo.

É quando o Pregador nos lembra que “Deus pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11). Os momentos mais felizes da nossa vida, aquela música que toca e nos leva pra fora do universo, a comida capaz de “virar nossos olhos” de tanto cheiro e sabor, a paixão que quase faz nosso coração saltar pela boca – todos estes “êxtases” de prazer são maravilhosos. Porém, sempre passam. Salomão lembra que todo prazer desta vida aponta para Deus. Ainda que tenhamos um prazer muito intenso, ele acaba. Por isso, o ser humano não deve buscar o prazer como um fim em si mesmo. O “desejo de transcender”, como diriam os filósofos, a eternidade no coração, como diz Salomão, aponta para a única satisfação possível nessa vida: Deus.

“Lembra-te do teu Criador”, ele conclui. Eclesiastes me ensina a ver a vida não de modo pessimista: “bons foram os anos passados!”, ou utópico: “ainda bem que eu vou morar no céu!”. Não, ensina-me a ser realista com a vida. A vida vivida com um fim em si mesma não tem sentido, é absurda. Demorei um tempo para aceitar que meus sonhos e planos sempre me deixarão insatisfeito. Na verdade, ainda não estou satisfeito com isso também! E entendi que a vida não tem sentido. Mas descobri o que diz Ludwig Wittgenstein: “Crer em Deus significa que os fatos deste mundo não são o fim da questão. Crer em Deus significa que a vida tem sentido [...] Que esse sentido não reside em si mesmo, mais fora dele”.

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

Referência Bibliográfica:
YANCEY, Philip. A Bíblia que Jesus Lia. São Paulo: Vida, 2000.

Perdendo talentos por negligência

Sei que existem alguns textos que tiraram muitas pessoas do sério. Dúvidas e questionamentos aparecem a cada tentativa de solução. Nestes casos, a parábola dos talentos é um exemplo. “Pois ao que tem se lhe dará; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mc 4.25).

Estou certo que este é um dos textos mais mal compreendidos que temos. Geralmente, a idéia que se tem dele é a de um tipo de “injustiça de Deus”. A pergunta que surge seria do tipo: “Como Deus pode dar mais a quem já tem muito, enquanto tira a migalha de quem não tem quase nada?”.

Com certeza não é bem isso o que Jesus nos ensina aqui. A porção toda (Mc 4.21-25) é um chamado à pormos o que temos recebido de Deus à disposição da Igreja e do mundo. A figura do lampião debaixo da cama confirma essa verdade, pois qual seria a utilidade do crente ser a luz do mundo, se ficasse trancado no seu quarto?

Claro! Já sei disso, você diz. Mas o verso 25 contém uma verdade profunda na qual devemos prender nossa atenção. Devemos aprender que nossos talentos não se desenvolvem sem esforço.

Sabemos que tudo o que nós temos nos foi dado de graça pelo Senhor. Salvação, arrependimento, fé, santidade, tudo isso não se consegue com esforço humano. Porém, aqui fica claro que “o nível que cada crente atinge na graça é diretamente proporcional à sua diligência no uso dos meios da graça”, como diz J. C. Ryle.

Em outras palavras, Deus nos dá de graça nossos dons e talentos, mas é nossa responsabilidade fazê-los crescer! E isso se aplica a cada área de nossa vida espiritual: adoração, evangelismo, oração, misericórdia, conhecimento bíblico. É claro que existem graus diferentes de espiritualidade e quantidades distintas de talentos. Mas, tudo nos foi dado! Precisamos somente desenvolver, como se fossem músculos!

Isso nos leva a entender a parábola dos talentos. Deus deu e Ele pediu conta. Aquele que enterrou, ou seja, que foi preguiçoso e relapso, teve até o único talento retirado. Mas o que granjeou, ou seja, se esforçou e foi diligente, recebeu mais ainda!

Podemos merecer algum dom de Deus? Não. Mas é nossa responsabilidade desenvolver aquilo que recebemos, não importa que dom seja. Pedro nos diz: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu” (1Pe 4.10).

Então vamos procurar desenvolver nossos dons, porque talento é sinônimo de responsabilidade!

Deus nos abençoe no amor de Cristo!

Como saber se estou no centro da vontade de Deus?

Você já deve ter se perguntado um dia, diante de uma escolha difícil, sobre qual é a vontade de Deus para a sua vida, certo? Todos nós já passamos por isso. Saber que Deus nos ama e quer cumprir Sua vontade em nossas vidas é fácil de entender, mas, como saber se eu estou fazendo o que Ele quer? Como saber se estou no centro da Vontade de Deus?

Bem, estamos diante de um debate de milênios. Antes de tentar refletir sobre isso, precisamos nos lembrar de coisas importantes. Devemos perceber que esta questão envolve duas grandes verdades: a Vontade de Deus e a Responsabilidade Humana.

Como harmonizar as duas? Parecem coisas como água e óleo! Deus fará sempre Sua vontade, pois ninguém pode frustrar Seus planos, já disse Jó (Jó 42.2). Mas o homem é indesculpavelmente responsável de suas atitudes e escolhas (Paulo já disse também – Rm 2.1-3).

O que fazer então? Vamos às conclusões lógicas:

1. Deus é onipotente, onipresente e onisciente: Isso quer dizer que nada e ninguém pode resistí-Lo, que nenhuma circunstância ou criatura pode agir contra a Vontade Dele!

Posto isto, que é extremamente necessário, como fica o livre-arbítrio do homem? Deus pode interferir nele? O homem pode fazer algo que surpreenda a Deus? Isto nos leva a entender que:

2. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus: e, por isso, foi dotado de moral, razão e vontade. O primeiro homem – Adão – não era neutro. Era homem santo! Mas, por incrível que pareça, mesmo assim ele pecou! O resultado é que o homem perdeu sua capacidade de decidir livre e perfeitamente e todo homem, agora, não pode agir sem desagradar à Deus (Rm 3.23).

Ótimo, isso tudo eu já sabia, você diria. Como resolver a questão? Sugiro mais algumas perguntas:

Um descrente pode fazer a vontade de Deus? Resposta: sim e não! O homem, mesmo caído, ainda tem a imagem de Deus. Por isso pode agir de acordo com a vontade de Deus. Porém, todos os seus atos são imperfeitos e pecaminosos!

Mas, um cristão pode não fazer vontade de Deus? Resposta: sim e não (e sempre)! Fomos remidos do pecado sim, mas, ainda somos pecadores. Mesmo com a ajuda do Espírito, às vezes erramos. Nossas melhores ações vivem cobertas das piores intenções!

E agora? Como é que vou saber e fazer a vontade de Deus então? Confesso que é uma pergunta difícil, mas para fins práticos, tentarei resumir:

Cremos em um Deus que não pode ser frustrado e que, ao mesmo tempo, requer dos homens a responsabilidade por seus atos. Dessa forma, vejamos como devemos agir:

1. Não ser cético: não viver ou agir, seja qual for a área da vida, como se Deus não existisse ou não tivesse nada a ver com ela. Ex.: Não achar necessário orar para fazer um compra no shopping, antes de sair de casa!

2. Não ser fanático: não viver ou agir, seja qual for a área da vida, como se Deus já tivesse determinado tudo e não tivéssemos responsabilidades em nada. Ex.: Orar e rachar de orar para ser curado de câncer, e não procurar um médico!

3. Ser Prudente: agir e viver a vida, de maneira racional, sóbria e não negligente, usando os melhores meios que estão ao nosso alcance, e mesmo assim, saber que só Deus é quem poderá levar à cabo cada uma de nossas ações! Ex.: Estudar muito para um concurso e orar muito para passar nele!

Só isso resolve a questão? Claro que não! A maneira como Deus harmoniza Sua vontade suprema como as nossas ações debilitadas é um mistério grandioso. Nenhum de nós poderá entender isto completamente – "Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; como, pois, poderá o homem entender o seu caminho?" (Pv 20.24).

É bom lembrar, porém, que é Cristo quem guia as suas ovelhas neste mundo (Jo 10.27-29 – seria bom ler todo o capítulo)! Lembre-se das maravilhosas palavras de um homem que pareceu viver o inferno de todas as más decisões, o terror de estar "fora do centro da vontade de Deus". Quem? José do Egito!

É. Para ele o centro foi ser odiado, vendido, caluniado, injustiçado, esquecido. Mas no fim de sua vida ele diz: "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o tornou em bem" – Gn 50.20!

É isso o que posso te dizer também: creio no Deus que guia cada passo de minha vida, mesmo que eu seja o responsável pelas minhas escolhas. Creio no Pastor que vai à frente e me conduz por caminhos que não conheço, contudo, em segurança. E ainda que eu erre ou tudo pareça perdido, creio no Deus que transforma o mal em bem!

Deus nos abençoe no amor de Cristo!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...